Petróleo, rodovias e meio ambiente PDF Imprimir E-mail
Carlos Gabaglia Penna   
16/09/2008, 16:30
A imprensa noticiou, recentemente, duas novidades de grande impacto econômico: o início da exploração de petróleo da camada pré-sal no Campo de Jubarte, Espírito Santo; e a possível construção de um nova estrada Rio-São Paulo, proposta pelo governador de São Paulo, José Serra.

As notícias, para a maioria das pessoas, parecem alvissareiras, principalmente a do petróleo. Mas são altamente discutíveis, para dizer o mínimo, uma vez que encarnam o mais arcaico dos modelos de desenvolvimento, baseado na exploração intensa de recursos naturais e caracterizado por grandes impactos ambientais. É uma visão desenvolvimentista ultrapassada, revelando um assustador descompasso com a discussão em torno da (in) sustentabilidade das atividades humanas. Para os políticos nativos, meio ambiente é – quando muito - falar em defesa da Amazônia (que não conhecem e não protegem).

Há uma grande agitação em torno dos campos do pré-sal. O governo fala em investimentos maciços na educação, em eliminar a pobreza e outros delírios que, como sempre, não levam a sério. Essa louvação ao petróleo é a principal razão que obstrui o avanço de fontes alternativas de energia, renováveis e imensamente mais limpas que os combustíveis fósseis.

O petróleo, o carvão mineral e, em menor proporção, o gás natural, são os principais produtores dos gases que estão provocando mudanças aceleradas no clima do planeta, com certeza um dos maiores desafios que a sociedade humana deverá encarar nas próximas décadas.

Além do agravamento do efeito estufa, tais combustíveis liberam uma série de compostos químicos danosos às saúdes ambiental e humana: materiais particulados de tamanhos microscópicos (que penetram nas vias respiratórias); óxidos de nitrogênio e de enxofre (formadores da chuva ácida); ozônio troposférico e monóxido de carbono (gases altamente tóxicos).

A evaporação de gasolina, por exemplo, libera hidrocarbonetos (compostos igualmente danosos), os quais, reagindo com óxidos de nitrogênio, sob ação do Sol, formam ainda o ozônio, um dos mais perigosos componentes do smog (fuligem fotoquímica, que deixa uma névoa amarronzada em cidades poluídas). A combustão incompleta do diesel libera partículas de carbono que transportam substâncias carcinogênicas denominadas PAHs. Estes são apenas alguns exemplos das conseqüências da utilização intensa desses combustíveis sujos.

É sabido que eles deverão continuar a ser os principais componentes da matriz energética mundial por ainda duas ou três décadas. Mas, sabe-se também que boa parte dos países educados investe intensamente em novas fontes de energia, como a eólica, a solar e a de hidrogênio, além de pequenas centrais hidrelétricas (que causam muito menos impactos do que as grandes).

Nos últimos cinco anos, a capacidade instalada de energia de vento, no mundo, cresceu acima de 29% ao ano. Os Estados Unidos instalaram, em 2006, 2.454 Megawatts (MW) de turbinas eólicas, elevando a sua capacidade total para 11.660 MW. A União Européia instalou 7.600 MW, acumulando um total de 48.000 MW. Enquanto isso, no Brasil, a capacidade instalada somava apenas 237 MW em 2006, ou apenas 0,25% da capacidade de geração total de energia elétrica no País.

O total de energia gerado mundialmente por painéis solares é bem inferior ao produzido por vento. No entanto, cresceu seis vezes de 2000 a 2006 (média anual de quase 46%, nos últimos cinco anos). A Alemanha, em 2006, adicionou 1.100 MW à sua matriz e o Japão produziu 927 MW em células solares fotovoltaicas. No Brasil, a capacidade instalada total de energia solar é tão somente 0,02 MW, ou zero por cento (considerando uma casa decimal) da geração total de energia elétrica.

É obvio que faltam estímulos fiscais, financeiros e de mercado para o desenvolvimento dessas energias no Brasil. Faltam também cultura ambiental, vontade política e cobrança da sociedade, pois não é preciso alertar ninguém que as condições geográficas do País são altamente favoráveis a essas fontes modernas.

Em 2006, segundo a Aneel, funcionavam no Brasil uma usina solar e 15 eólicas, versus 945 usinas termoelétricas, a forma mais poluente de se produzir energia. Isso começa a derrubar o mito de que a geração de eletricidade no Brasil não polui. Nesse mesmo ano, a Aneel outorgou 186 novas unidades de energia elétrica, das quais 128 para centrais termoelétricas, 57 para usinas hidroelétricas, uma para energia eólica e zero para solar.

Não há dúvida de que o poderoso lobby da Petrobras, assim como o de fabricantes de veículos a combustão e o de fornecedores de termoeletricidade (21,2% da capacidade instalada no Brasil em 2006) e de hidroeletricidade (74,8%) representam grandes obstáculos a qualquer avanço do Brasil na utilização de energias mais limpas.

Rodovia - Por sinal, esses mesmos lobbies, somados ao das grandes empreiteiras, são responsáveis pela idéia estapafúrdia de uma outra rodovia ligando São Paulo ao Rio de Janeiro. Além de incentivar o aumento de uso de veículos a gasolina e diesel, é claro que a opção equivocada de estradas afasta, cada vez, a adoção de ferrovias como meio de transporte.

Como tal estrada liga as duas maiores e mais engarrafadas cidades do país, a proposta do governador de São Paulo deve ter como objetivo óbvio piorar ainda mais o tráfego caótico dessas megalópoles.

A construção de estradas provoca grandes impactos, desde movimentos de terra e consumo de combustíveis até danos a paisagens e poluição do ar, do solo e da água. Demanda muito maiores quantidades de materiais e, no seu trajeto, interfere muito mais nos ecossistemas e sítios agrícolas do que linhas de trens, exigindo também um tempo muito maior para as obras.

Cidades e países civilizados dificultam cada vez mais a circulação de veículos e estimulam fontes renováveis e menos impactantes de energia. Não bastam o álcool veicular e o biocombustível, serão igualmente necessários programas de conservação e de redução do consumo de energia e iniciar, o quanto antes, a inevitável mudança da matriz energética.
Comentários
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Rutencio de Valois 16/09/2008 20:38:58

Algumas das atividades econômicas citadas (construção/operação de
hidro/termoelétricas e outras obras, produção de petróleo/derivados,
montagem de automóveis/caminhões) estão interligadas entre si e com os
políticos de forma muito coesa. Como convencer a parte produtiva dessa rede a
investir nas alternativas mencionadas? Ou como sensibilizar os políticos a
valorizar Políticas que modifiquem esse "equilíbrio" indesejável?
Pensemos em como deixar em maior paz os restos mortais das vidas do passado
geológico da Terra!
regina lauria 17/09/2008 07:08:28

Gostei bastante do seu artigo e penso que ele deveria ser divulgado de uma forma
mais abrangente na mídia, ou seja, que tal publicar na pg 11 do jornal "O
Globo", ou em outro jornal de grande circulação?
Sempre ela.....
José Antonio Paes de Carvalho 19/09/2008 09:04:52

É evidente que à Petrobras só interessa isto mesmo.
Assim como incentivaram
o sucateamento da rede ferroviária, inclusive exportando os dormentes das
linhas desativadas da REFER agora incentivam a construção de uma rodovia no
lugar do trem bala.
O Brasil é refem desta gente.
Basta ver que nós pagamos
US$ 90.00 por barril + frete + seguro etc... aos árabes quando importamos
petróleo ou seja, grana que vai embora ( parte volta para certos brasileiros
neh... ) e, quando um brasileiro encontra petróleo nas suas terras não pode
explorá-lo. Receberá "royalties" de 2% do valor médio calculado
segundo uma fórmula da Petrobás, isto, se algum dia a mesma achar interessante
explorar o tal poço.
Pois bem, pasme, qualquer brasileiro pode explorar
petróleo nos EUA...por questão de inteligência e honestidade o país prefere
pagar por óleo extraido por um extrangeiro em suas terras, sem os custos de
investimento, frete, seguro e tudo mais, portanto mais barato, na presunção de
que, talvez, estes recursos permaneçam nos EUA.
A Petrobras sempre foi uma
"caixa preta" não importando o governo, seja ditadura de direita ou
pseudo-socialismo corrupto de esquerda.
Quanto à festejada notícia de
ocorrência de petróleo no Pré-Sal, não podia ser pior.
A humanidade é tão
imbecil que não vê que está se encaminhando para o "baile da ilha
fiscal". A ser continuado....
Mandy 12/10/2008 18:42:29

Muito bom seu artigo cara. Utilizei no meu trabalho de química! ^^
Parabéns.
fernanda 13/04/2009 14:52:08

nossa seu artigo me ajudou bastante no trabalho de quimica, muito interessante
mesmo ate me intessei mas pelo assunto voce esta de parabens...
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