Mestre em desenvolvimento sustentável, consultor e curioso sobre as coisas do dia-a-dia.

Lixo voador

Em algum lugar do espaço aéreo brasileiro, entendi, na prática, o significado da expressão: “O diabo mora nos detalhes”. O vôo decolou de manhã cedo e eu estava ansioso pelo serviço de bordo. Há de se entender que aquilo é mais do que uma refeição. É pura distração. Uma forma de relaxamento para os que, como qualquer pessoa de bom senso, têm receio de entrar num charuto alado e atravessar o país.

                       
Chegou minha vez. Reza a cartilha da minha professora de redação que devemos evitar palavras repetidas num mesmo texto. Os leitores terão que me perdoar. Recebi uma embalagem de plástico. Dentro, uma bandeja de plástico que continha duas torradas e um cookie envoltos em envelopes plásticos diferentes. Também tinha uma faca de plástico dentro de um saquinho de plástico. A geléia, daquelas pequenas, vinha num micro potinho de plástico. Até o guardanapo vem embalado em plástico. Tomei meu suco de laranja num copo de plástico, que foi logo recolhido. Em seguida, ofereceram-me mais suco de laranja noutro copo de plástico. Neste ponto, já estava com vergonha, e recusei pensando “pelo menos o queijo veio embalado em papel alumínio”! Como se não bastasse, um outro item especial compunha o kit trash. A companhia aérea me ofereceu um fone de ouvido – de plástico. A novidade é que não se tratava de um item retornável. Ou seja, era descartável!! Adivinhem o tipo de material que envelopava os fones?

Acho que minha tese é auto-explicativa. Mas fui atrás de alguns dados. Existem poucos estudos sobre o assunto e, no melhor deles, encontrei as informações abaixo. Não são dados brasileiros e nem recentes, mas servem para reflexão. Afinal, além de informar, a proposta aqui é fazer pensar. O total de resíduos sólidos de um vôo pode chegar até a 500 quilos (incluindo restos de alimentos, mas sem contar o esgoto). Desses, até 340 quilos são gerados pelo serviço aos passageiros. A maior parte é composta por papel (32 a 71%), plásticos (13%) e latas de alumínio (4%).

Como qualquer outro setor da economia no mundo moderno, a indústria aérea enfrenta muitos problemas ambientais, incluindo também ruído e emissões de gases. Aparentemente, ela não tem lidado bem com o tema. O lado positivo dessa história é que uma pequena mudança na gestão das empresas faria uma enorme diferença. No Brasil, são mais de seis mil voos diários. No mundo inteiro, quase 90 mil todos os dias.

A composição do lixo é semelhante à que produzimos em nossas casas. O estudo citado estima que cerca da metade dos resíduos são passíveis de reciclagem. O mais “difícil” é fazer a separação. As soluções podem ser simples ou complicadas, ao gosto do freguês. Os jornais podem ser até reutilizados em outros vôos (Por que não?!). Alumínio e plástico podem ser facilmente separados. Restos de comida, muitas vezes ricos em proteína, podem se transformar em ração animal. Mas, mais importante do que reciclar: é possível reduzir drasticamente a produção de lixo. O mesmo café da manhã plastificado pode ser servido com menos da metade de resíduos. Talvez não seja tão prático, é verdade, mas bem possível, e nada que deveria assustar empresas com milhares de funcionários, e que lidam com alta tecnologia.

Infelizmente, não é só a praticidade que leva as companhias a adotarem este tipo de serviço. E aqui entra a parte mais triste. Os executivos das grandes empresas ganham bem o suficiente para não ignorar esses dados, inclusive os custos que tais caprichos geram (e que nós pagamos!). Existe a noção de que o cliente aprecia tudo isso, e que tanto “esmero” vai proporcionar fidelidade. Creio que neste ponto está o maior engano. Tem muita gente que se incomoda com este exagero. Exemplo disso é que os hotéis, inclusive os cinco estrelas, abandonaram o hábito estúpido de trocar lençóis e toalhas diariamente. Ainda não encontrei quem reclamasse.

Companhias áreas de grande porte mobilizam um grande grupo de fornecedores. Diminuir a produção de lixo vai influenciar toda a cadeia e forçar a adaptação das empresas terceirizadas a adquirirem hábitos mais sustentáveis, reduzindo poluição e custos durante o processo de produção e transporte. Responsabilidade social é muito mais do que fazer doações à ONGs.

O diabo é ardiloso e se disfarça muito bem. Não mostra a cara com facilidade e certamente vive nos detalhes. Mas, mudar essa cultura do desperdício é mais fácil do que parece. Produzir resíduos é inevitável. Produzi-los em excesso, não. Basta um pouco de bom senso. E os passageiros? Ah, não só vamos entender, como apreciar mudanças positivas.

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