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Pelas trilhas do Brasil e do mundo, Pedro da Cunha e Menezes conta as últimas novidades de manejo em unidades de conservação e dá dicas sobre destinos de viagens de aventura.

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A Triste Beleza do Saara
06/03/2010, 18:06

"O Saara é infinito. Não há estradas, não se vê casas, não se vislumbra o verde de uma vegetação nem o azul de uma água. Nâo há nada, só as intermináveis planícies cor de areia" (imagem de satélite: NASA).

Recentemente terminei meu período profissional em Lisboa e fui enviado de volta ao continente africano onde deverei viver e trabalhar durante os próximos anos. Foi com certa tristeza que embarquei no avião em cujas asas deixei a terrinha. Para espantar as saudades precoces, fixei os olhos na janela e acompanhei o trajeto do vôo.

A decolagem foi soberba, com direito ao casario lisboeta refletindo seus telhados na aurora, o azul do Tejo fluindo incontinente em direção ao Atlântico e as belíssimas arribas da Caparica e da Serra da Arrábida que forneceram o chão que meus pés mais gostaram de trilhar nos últimos dois anos e meio.

Logo, contudo, o solo ressequido e monótono do Alentejo e da Andaluzia espanhola encheram a paisagem, incentivando-me a procurar distração em um livro. Só voltei a dar atenção à janela algumas horas mais tarde. Sobrevoàvamos o Saara. Não desgrudei mais os olhos. Fiquei fascinado. O computador de bordo na telinha à minha frente informava que cruzávamos os céus a 805 km por hora. Mesmo assim o deserto parecia ignorar a distância descomunal que venciámos a cada girada dos ponteiros. O Saara é infinito. Durante uma eternidade vi passar sob nossas asas um terreno amarelo escuro aparentemente desprovido de qualquer vida humana.  Não há estradas, não se vê casas, não se vislumbra o verde de uma vegetação nem o azul de uma água. Nâo há nada, só as intermináveis planícies cor de areia.
 
De repente quebra-se o marasmo, surgem montanhas imponentes, picos altaneiros, penhascos verticais, quilômetros de bem desenhadas e profundas gargantas que meandram entre escarpas erodidas. A 12.200 metros de altitude é possível  divisar o conjunto de grandes bacias hidrográficas, com vales largos servidos por outros mais estreitos, escavados por um sem número de afluentes e tributários, mas não há uma gota d´água sequer. Só o chão amarelo e suas variações em tons pastéis.

Depois de meia hora a cadeia de montanhas é domada, perde relevo e se aplaina. Eleva-se, então, do terreno uma sequência de dunas com a aparência de um formidável covil de serpentes orientadas na mesma direção, que muda conforme o vento. Corcova, vale, corcova, vale, corcova, vale, corcova, vale. O padrão é repetitivo. As dunas parecem ter todas a mesma altura e comprimento, os vales a mesma profundidade.
 
Mais quarenta minutos e vem outra cadeia de montanhas tão impressionante quanto a primeira- tão esturricada e estéril quanto tudo à volta. Consulto o relógio. Já se vão mais de duas horas sobre esse areal interminável. Fecho a janela. Não adianta, a beleza da paisagem não sai da minha cabeça. O problema é que vem acompanhada da consciência de sua desolação e, quando a gente sabe que o processo de desertificação é um dos maiores problemas do mundo moderno, é impossível não ficar triste.
 
Caminharte (ou a arte de sinalizar):
01/03/2010, 14:13
Nem mais nem menos, a Madeira tem um dos sistemas de trilhas mais bem sinalizado do mundo. As dezenas de “percursos de pequena rota (PR)” que esquadrinham a Ilha estão balizados por setas de madeira que trazem esculpidas em baixo relevo as cores da trilha, o número do PR, o nome do próximo ponto importante e a distância a ser percorrida. É quase impossível se perder, o que desistimula o caminhante a se aventurar por uma trilha que não tenha a sinalização oficial (e há tantas delas, que para o turista normal não existe razão para fazê-lo).
 
Para quem não é tão normal assim e gosta de explorar picadas mais fechadas em regiões um tanto inóspitas, os excursionistas madeirenses tampouco descuidaram da sinalização: adotaram os tótens de pedra, balizamento tradicional entre a gente de montanha mundo afora. O fizeram com uma arte inigualável, transformando pachorrentamente o labor de amontoar seixos em uma bela decoração rupestre. Funciona! Além de indicar o caminho regala os olhos.
 
Fado e as diferenças com o Samba:
26/02/2010, 06:46
Vivi em Portugal os últimos 30 meses da minha vida. É uma terra linda, com culinária maravilhosa, arquitetura charmosa e gente simpática. Se o mundo fizesse sentido, ainda formaria um único país com o Brasil, afinal compartilhamos a mesma cultura, hábitos, estilos de vida e idioma. Ou quase, pois embora utilizemos a mesma ferramenta para falar - a língua portuguesa- nos valemos de sua inesgotável riqueza de léxico e de recursos para manejá-la de formas diferentes em ambos os lados do Atlântico. Embora tenhamos recentemente, Lisboa e Brasília, ratificado um Acordo ortográfico que unifica a escrita, ainda assim seguiremos mantendo nossos maneirismos e individualidades que dão personalidades próprias aos diferentes falares. O terno brasileiro é fato em Portugal, o ônibus é autocarro, o trem é comboio, e o montanhista é montanheiro, apenas para citar alguns exemplos.
 

Essas pequenas diferenças, contudo, não são suficientes para nos apartar da sociedade lusitana. Tão logo o brasileiro chega a Portugal, já se sente um pouco integrado, replicando em mão inversa o que aconteceu com tantos que emigraram da terrinha para o Brasil nos últimos cinco séculos. Ao fim de dois anos, já estamos plenamente inseridos à sociedade local.
 
Por isso mesmo recebi com certa tristeza a notícia de minha remoção para um novo destino em outro continente. Deixarei em Portugal amigos do peito e memórias difíceis de apagar. Para me despedir, escolhi retornar ao que o país tem de melhor em termos de natureza: a Ilha da Madeira.
 
Passei ali três dias de puro deleite. Poucos lugares em todo o mundo têm um cardápio de trilhas tão variado. Picos altaneiros, vales escarpados e profundos, cachoeiras, trilhas ao longo de penhascos que se projetam na beira de mares tenebrosos e levadas belíssimas. Tudo isso com uma sinalização bem pensada e com manutenção impecável. Foi difícil escolher onde trilhar, tantas e tão diversas eram as opções. Ao fim optei por uma levada, um pico e uma caminhada costeira. A cada noite, retornando ao hotel, abria o mapa da Ilha e marcava o trecho percorrido. Depois ficava namorando as linhas de cota, os tracejados indicativos dos percursos de montanha e as possibilidades de trajetos.
 


Ao final do terceiro dia, na véspera de embarcar de volta para Lisboa e de lá para meu próximo destino (temporariamente) definitivo, já conhecia o mapa da Ilha de cór e salteado. Liga daqui, conecta dali verifiquei ser possível fazer uma caminhada de longo curso, atravessando a Madeira de ponta a ponta. Calculo ser projeto para nove ou dez dias, com pernoites em pousadas pelo meio do caminho. Ao longo da cabritada há todos os ingredientes para enfeitiçar até o mais exigente montanhista.
 
Quando finalmente entrei no avião e decolei estava feliz. Para os portugueses as despedidas carregam o peso e a dor de quem, durante quinhenhos anos, viu seus entes queridos embarcarem em viagens muitas vezes sem volta. É um momento angustiado, profundamente triste, para o qual usam a palavra adeus. Minha ida à Madeira fez-me ver que, apesar de sentir-me em casa em Portugal, continuo sendo essencialmente brasileiro. Da janela da aeronave, vislumbrando aquelas trilhas paradisíacas e sonhando com a caminhada que corta a ilha de ponta a ponta, não consegui dizer adeus. Só me foi possível despedir-me com um brasileiríssimo até logo!
 
 
PS: Depois de escrever esse post, a Madeira foi castigada por temporais que cobraram meia centena de vidas e destruiram dezenas de casas e estradas. Tenho certeza que a Ilha há de se recuperar rapidamente e, em breve, estará novamente oferecendo aos amantes da natureza uma das melhores opções de viagem em toda a Europa. Nessa hora dura, meu coração está com os madeirenses.
 
O parque bronzeado do Rio de janeiro
20/01/2010, 14:52

A Lagoa do Aruarama: nas suas margens estão diversas parcelas do parque
Desde o Congresso Mundial de Parques que a União Mundial para a Conservação da Natureza realizou em Caracas em 1992  é mundialmente aceito que, para manter um ecossitema saudável, é necessário proteger pelo menos 10% de sua área. Ora, se os cientistas nos asseguram que restam no Brasil apenas cerca de 7% da superfície original da Mata Atlântica, então é imperioso proteger a totalidade do que sobrou! Nesse sentido, o  INEA-Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro tem feito sua parte. Desde o início do Governo Sérgio Cabral têm sido constantes as notícias de criação de novas Unidades de Conservação em terras fluminenses e o Estado já conta com 9,84 % de seu território sob alguma forma de proteção legal.
Nesse sentido, a recente notícia da criação do Parque Estadual da Costa do Sol é auspiciosa. A nova UC vai proteger sobretudo Mata Atlântica e áreas de vegetação de restinga, um dos ecossistemas mais ameaçados do Brasil. Serão 5.500 hectares divididos em 27 áreas diferentes e desconectadas entre si. Não é o ideal, mas é o possível. O imperioso agora é salvar esses nacos de terra que ainda não sucumbiram à especulação e ainda conservam em relativamente bom estado várias amostras de espécies nativas. A ideia é administrar o futuro Parque em consórcio com as prefeituras de Saquarema, Araruama, Arraial do Cabo, São Pedro da Aldeia, Iguaba Grande e Cabo Frio, por onde o Parque se espraia. Não deve ser difícil. Grande parte dos terrenos destinados aos Parques já estava designada como área de proteção ambiental nas respectivas legislações municipais. Além disso, as autoridades envolvidas já têm experiência de trabalho conjunto e coordenado nos programas de gestão das águas da Lagoa de Araruama, em cujas margens, por sinal, estão diversas parcelas do novo Parque.

A vegetação de restinga, uma das mais ameaçadas do país
Problemas não faltam. A casuarina australiana, plantada como espécie ornamental na região de Praia Seca, saiu de controle e tornou-se uma espécie invasora; gatos ferais também são figurinhas fáceis e enchem o panduro com pássaros nativos; os principais pontos de banho na lagoa não vêem fiscalização ou manejo há décadas e estão cheios de lixo; o aumento das casas de veraneio e serviços turísticos associados na Restinga da Massambaba também pressiona os limites da área protegida. A solução, contudo, já está saindo do papel. Aplaudimos e agora esperamos ansiosos e otimistas por sua implantação efetiva.

A invasora casuarina australiana na Massambaba
 PS: Quem sabe o Governo Estadual não pega carona na própria idéia e, até 2016, dá de presente ao Rio o Parque mais completo do Brasil. Se juntássemos em uma mesma Unidade de Conservação o Parque Nacional da Floresta da Tijuca, o Parque Estadual da Pedra Branca, a Reserva Biológica de Guaratiba, a Restinga da Marambaia, o (futuro) monumento Natural das Cagarras, os Parque Naturais Municipais da Prainha e do Pão de Açúcar e uma série de UCs pequenas como Parque Estadual do Grajaú, a Reserva da FEEMA na Vista Chinesa e o Parque da Cidade, teríamos um Parque viável do ponto de vista de suas funções ecológicas, com cerca de 25 mil hectares. Seria também um exemplo para o Brasil e para o mundo, podendo se credenciar como sede de uma futura academia  de formação de guardas-parques, que poderia aproveitar os professores da UFRJ, Jardim Botânico, Embrapa, UFRRJ, UERJ, Corpo de Bombeiros entre outras instituições de renome com sede no Rio de Janeiro. Ademais seria um Parque completo do ponto de vista ambiental, pois abrangeria Mata Atlântica, mata de baixada, ilhas, águas submarinas e vegetação de restinga . Por fim, se bem administradas, as fontes de recursos das bilheterias do Pão de Açúcar e do Corocvado devem ser mais que suficientes para tornar o Parque auto-sustentável. Será que o Rio Olímpico merece esse presente?
 
A Resex de Arraial do Cabo
16/01/2010, 11:17

Desde que comecei a me interessar por conservação ambiental, sempre fui da corrente que defende as unidades de proteção integral como o principal instrumento de política pública para o resguardo da biodiversidade. Nesse contexto, tenho concentrado meus estudos e visitas técnicas em Parques Nacionais, Reservas Biológicas e outras categorias afins. Recentemente, contudo, a paixão pelo mergulho levou-me a Arraial do Cabo (Rio de Janeiro), onde, desde 1996,  existe uma Reserva Extrativista Marinha. Gostei do que vi e do que ouvi. Em dois mergulhos nas águas da Reserva nadei em meio a variada fauna marinha. Não fui fundo. Nas submersões no Oratório e na Escadinha do Costão não cheguei a passar dos 14 metros. Bastou. Se Arraial não é Bonaire (vide minha coluna O abc do desenvolvimento sustentável publicada aqui em OECO em 12/02/2009) , ainda assim há grande riqueza faunísitica. Arraias, moréias, baiacus, budiões e polvos são corriqueiros. Já as tartarugas são tantas, mas tantas, que depois de alguns minutos deixam de ser objeto de excitação dos mergulhadores.

Segundo Ruy de Castro, que é morador de Praia Seca, nos arredores de Arraial, e tem mais de 100 mergulhos realizados na região, a reserva efetivamente aumentou a quantidade de fauna. Segundo ele, agora há respeito pelos períodos de defeso e a fiscalização tem coibido o uso de redes com malha excessivamente fina. Existem ainda, contudo, problemas. Há quem defenda que a profusão de tartarugas é consequênica da caça indiscriminada dos seus predadores, especialmente os tubarões, antes comuns nas águas delimitadas pelos 56.769 hectares da Reserva, e agora raros em todo o litoral da Costa Verde fluminense.
Se assim for, não chega a ser uma má notícia, mas um sinal de que é necessário ampliar as medidas de conservação que, aliás, são visíveis também nas ilhas que pontuam a Unidade de Conservação. Na maioria, controladas pela Marinha do Brasil, essas ilhas protegem espécies ameaçadas de extinção ou endêmicas, como o cacto da cabeça branca, a orquídea catylea, algumas bromélias e a quixabeira. Conferem proteção também a uma das paisagens mais deslumbrantes de toda a costa do Rio de Janeiro. Exemplos assim provam que as Áreas Protegidas de uso sustentávem têm sim um importante papel auxiliar na preservação do meio ambiente brasileiro.
 
Chega de Saudades
13/01/2010, 20:31

Terminei esses dias uma caminhada pela costa de Portugal, da Foz do Tejo ao Estuário do Sado, ao longo da Península de Setúbal. Foram 180 quilômetros (112 sem computar repetições), percorridos em 41 horas ao longo de 16 dias. O trajeto, que se encontra sinalizado em alguns trechos, é parte da E-9, trilha de cinco mil quilômetros projetada para acompanhar o litoral europeu desde o sul português até o norte da Estônia (Vide minha coluna Cortando Portugal em Postas, publicada aqui em O Eco em 3 de novembro de 2008).

Foi puro prazer. Apesar de estar no quintal de Lisboa, na maioria dos dias gozei de privacidade quase absoluta e pude apreciar paisagens deslumbrantes. Caminhei sob sobreiros, salgueiros, pinhais mansos e bravos. Pisei grandes trechos de dunas litorâneas cobertas de vegetação rasteira. Senti na pele a& secura do verão, estação em que também me deleitei com um crepúsculo que dura mais de hora e meia. Para alguém nascido e criado nos trópicos como eu, trata-se de um prazer difícil de explicar a quem não conhece como é bom ter acesso às luzes e cores mágicas de um fim de tarde que parece não querer terminar nunca. Me encantei com as mil flores da primavera mediterrânea, me esbaldei nas águas geladas do Atlântico e da Lagoa da Albufeira. Em trechos sem sinalização alguma, naveguei em busca do caminho certo, tiritando no ar gelado do inverno ibérico. Viajei no tempo ao cruzar com quixotescos moinhos de vento, ruínas centenárias, igrejas medievais e castelos milenares. Me empanturrei dos frutos  silvestres que pejavam os medronheiros no outono. Perambulei em meio aos bem arrumados corredores de parreiras em flor. Admirei o vôo das gaivotas e as corridas furtivas das raposas da Serra do Risco. Me encantei com as falésias do Parque Natural da Arrábida que, por isso mesmo, é candidata a Patrimônio Mundial da Humanidade.

Por fim pasmei com o Tejo. Dobrei a foz do rio em um fim de tarde ilumidado. Como é belo! E, no entanto, hoje poucos lisboetas conhecem esse ângulo de sua terra, cuja visão só é posssível a bordo de um barco ou no leito de uma trilha. Naquele momento entendi o real significado da palavra saudade para os navegantes portugueses que partiam de sua terra em viagem de descoberta do Novo Mundo, nos séculos XV e XVI.














 
Troca da guarda
08/01/2010, 15:07

O corcovado visto do Parque Nacional da Floresta da Tijuca 
foto: Pedro da Cunha e Menezes


No início dessa semana foi publicada a exoneração de Ricardo Calmon da Chefia do Parque Nacional da Floresta da Tijuca. Calmon vai para a ANCINE, onde exercerá um cargo de direção. Em seu lugar deve ficar Bernardo Issa, uma boa escolha. como Chefe-susbstituto do PNT, Issa já deu mostras de profissionalismo, competência e, sobretudo, compromisso com as causas do Parque.

Na passagem de ano, tive oportunidade de caminhar quatro dias no PNT. No total, cobri 34 km em 10 horas de trilhas nos diversos setores da Floresta. Gostei do que vi. Embora a sinalização das trilhas não esteja em grande estado, há um claro esforço de manutenção dos caminhos, com muitas intervenções de drenagem ,fechamentos de atalhos, contenções de encostas e desobstrução dos leitos das trilhas. Também, no asfalto, são evidentes as marcas de uma boa adminstração. A sinalização está boa, a fiscalização atuante, as ruas e sítios de lazer limpos e bem tratados. Em suma, Calmon deixa o Parque melhor do que encontrou.

Por outro lado, seu pedido de exoneração dá o que pensar. Sob qualquer estratégia gerencial que pensemos, é inconcebível que o Parque mais visitado do país, que alberga o Cristo Redentor, uma das sete maravilhas do mundo moderno e ícone turístico do Brasil, e que é uma das maiores fontes de arrecadação do Instituto Chico Mendes, tenha como gratificação de Chefia um cargo em DAS 3 (que planeja-se reduzir para DAS 2). Assim será difícil conseguir alguém com a competência e dedicação que os problemas do Parque requerem. Casos como o de Calmon se repetirão, Quem é bom e demonstra sua competência na prática, acaba sendo seduzido por empregos com melhor remuneração e maior reconhecimento. Caso queiramos que a Tijuca venha a ser uma Unidade de Conservação modelo, capaz de nos orgulhar durante a Copa e as Olimpíadas, é imperioso repensar, com urgência, a estrutura de cargos e salários de sua estrutura. Não só a Chefia deveria receber no mínimo DAS 4, mas  também os cargos de chefias intermediárias, para atenderem ao nível de exigência que um parque dessa magnitude requer, deveriam ser contemplados com pelos menos quatro funções DAS 2 e 3.

Fotos do parque



Pedra da Gávea vista da Floresta da Tijuca
foto: Pedro da Cunha e Menezes






Aproveitando um tronco caído na floresta
foto: arquivo pessoal


 
O Protocolo de Quioto e o Wagyu de Kobe
07/01/2010, 13:03
Segundo matéria recente do jornal francês Le Monde, uma refeição de bife de vaca com milk shake emite gases causadores do efeito estufa equivalentes a uma viagem de automóvel de 4.758 km. Já, uma refeição sem derivados de carne ou laticínios emite o mesmo que um passeio de somente 629 km no mesmo carro.

Fechada a conta, a pecuária é responsável por 18% da emissão total de gases estufa na atmofesra terrestre, mais do que todo o setor de transportes. Pois é, a criação de gado que já sofre por ocupar cerca de 70% das terras aráveis do mundo e utilizar 9% de toda a água potável consumida no planteta agora tem mais essa culpa para carregar.

O mais grave, é que o problema só tende a aumentar. A média do consumo de carne por habitante nos países ricos é de 80 kg por ano. Já na parte sul do planeta essa proporção cai para 28 kg por pessoa. Assim, enquanto lutamos por um mundo mais justo e mais desenvolvido, precisamos decidir se vamos todos virar vegetarianos ou se vamos tirar a carne da mesa dos ricos para dar aos pobres e assim manter o consumo de carne nos níveis atuais.

Enquanto isso a gauchada já está começando a exportar as churrascarias rodízio para os principais centros urbanos da China. Já imaginaram se a moda pega?
 

 

 
As bicicletas de Cabral
06/01/2010, 16:41

Uma das novas ciclovias lisboetas ; a ligação
do Cais do Sodré à Praia do Guincho
Foto: Pedro da Cunha e Menezes
Recentemente sofri um grave acidente. Fraturei a bacia, achatei duas vértebras, quebrei três dentes e fiquei dois meses fora de combate, de molho na cama. Quando pude andar pela primeira vez, viajei imediatamente ao Rio de Janeiro para fazer um tratamento dentário e iniciar exercícios de fisioterapia.

De volta à Lisboa e já inteiramente recuperado, verifiquei que, assim como eu, a cidade está passando por um processo de recauchutagem. Novos 40 quilômetros de ciclovias estão sendo somados à malha cicloviária da capital portuguesa.

É um colírio para os olhos ver faixas vermelhas, completamente dedicadas ao trânsito de bicicletas, aparecerem em toda parte. Melhor do que isso é constatar que as novas ciclovias não são aleatórias. Pelo contrário, sua instalação obedece à lógica de interligar trechos já existentes e de atender ao fluxo de pedais jovens que se deslocam sobretudo para universidades, escolas e parques.

Um exemplo excelente do que escrevo é a construção de trechos visando a ligação entre o Cais do Sodré e a Praia do Guincho, cobrindo toda a orla fluvial e marítima da Grande Lisboa. Outro exemplo é o estabelecimento da conexão entre as ciclovias já existentes no Parque das Nações e o bairro de Telheiras. Dá gosto ver.

Bem que algumas cidades brasileiras podiam se aproveitar da moldura institucional da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e pedir assistência técnica à Prefeitura Lisboa. Nós que pedalamos ficaríamos extremamente agradecidos.
 
Construindo um Parque
22/12/2009, 16:19

 
No dia 3 de Março de 2007, em votação realizada no senado espanhol, o Parque Natural de Monfrague teve seus 17.852 hectares elevados de categoria, passando com a decisão a ser o caçula dos 15 Parques Nacionais da península ibérica.

Localizado às margens do rio Tejo, Monfrague alberga 180 espécies de pássaros, uma das maiores concentrações de toda a Europa. 118 delas nidificam no Parque, entre as quais se destacam as aves de rapina, como os falcões, as águias e os abutres. Ao tempo de sua elevação a Parque Nacional, contudo, Monfrague estava com suas terras bastante impactadas por plantações de espécies exóticas.

Desde princípios da década de 1970, eucaliptos e pinheiros foram plantados nas bancas do Tejo e de seu afluente Tietar, tomando 3.000 hectares das matas nativas da unidade de conservação. Felizmente, contudo, a elevação de categoria também significou o aporte de tratores e retro-escavadeiras que têm pouco a pouco removido as espécies exóticas, desmontado os terraceamentos artificiais feitos nas bancadas dos rios e garantindo o replantio de flora nativa mediterrânea (o ecossistema mediterrâneo é um dos mais ameaçados do mundo e é considerado um hotspot pela Conservation International). É o homem tentando – e ao que parece conseguindo - remediar as mazelas que o mesmo homem criou.

Só há uma povoação em Monfrague. Trata-se de Villa Real de San Carlos, uma aldeota centenária com uma única rua, meia dúzia de casas de pedra, três pensões e um centro de visitantes. A partir daí ramifica-se uma rede de trilhas bem sinalizadas e impecavelmente mantidas, que são um bálsamo mesmo para o mais exigente dos caminhantes. Pelas rotas amarela, verde ou vermelha tem- se acesso a cachoeiras de águas límpidas, vistas deslumbrantes e belas visões do ecossistema e matorral e quercus mediterrâneos.

Bem próximo, está Salamanca, cidade Patrimônio Mundial da Humanidade. A vizinhança dos dois convida a um passeio combinado de cultura + natureza. Não fica muito melhor que isso.!







 
Nova Espécie no Velho Continente:
16/12/2009, 10:17
Mesmo na Europa, onde o senso comum nos faz imaginar que toda a biodiversidade já está catalogada, ainda se descobrem novas espécies. Nesse sentido, a Universidade do Algarve em Portugal, anunciou que o biólogo Carlos Afonso acaba de registrar uma nova espécie de búzio, encontrada a 30 metros de profundidade ao sul da costa lusitana.

O búzio, do gênero Fusinus, é pequenino: mede 20 milímetros de comprimento por cerca de 8 de diâmetro. O achado foi feito no contexto do projeto Cartografia das Comunidades Marinhas da Costa Algarvia, que inventariou até agora 1272 espécies, entre as quais 998 invertebrados, 155 peixes e 119 algas. Dentre os achados, 32 espécies foram encontradas pela primeira vez em Portugal, enquanto o búzio não tem registro de existência em nenhuma outra parte do planeta.
 
A conservação e os irmãos Karamazov
15/12/2009, 14:45
O governo da Coréia do Sul anunciou que vai criar um Parque da Paz na Zona Desmilitarizada entre as Coréias do Norte e do Sul.A DMZ, sigla pela qual a região é conhecida, foi estabelecida por força da entrada em vigor do armstício de 27 de julho de 1953, que encerrou as hostilidades militares naquela península. Tem 246 quilômetros de comprimento por quatro de largura, totalizando 98.400 hectares. Exceto em pequenos corredores previamente acordados, é vedada a permanência, ou mesmo o trânsito de pessoas em seu interior sem expressa autorização de ambos os lados. Na prática, a Zona Desmilitarizada subtrai às Coréias uma fronteira comum, como a entendemos no século XXI. Com efeito, constitui uma área tampão cuja função é evitar o contato entre os vizinhos.

Em todo seu limite terrestre, a Zona Desmilitarizada encontra-se cercada por arame farpado, flanqueado por minas explosivas. Um milhão e meio de soldados estão estacionados a menos de 20 quilômetros de distância de ambos os lados da Zona Desmilitarizada o que a torna a área protegida mais bem guardada do mundo. Nesse sentido, embora juridicamente a Zona Desmilitarizada não seja uma unidade de conservação, na prática, ela é o sonho de todo conservacionista radical, pois acabou criando as condições para que a natureza se desenvolvesse por meio de processos exclusivamente naturais e sem interferências antrópicas durante mais de meio século.

Desde 1986, pesquisadores sul-coreanos têm observado que antigas fazendas deram lugar a ambientes de flora nativa regenerada. Analogamente, tem-se catalogado com frequência cada vez maior a aparição nos limites da Zona Desmilitarizada de animais ameaçados, ou considerados em risco de extinção, como o urso preto e o leopardo asiático. Tamanha diversidade biológica em uma península densamente povoada e com grandes problemas ambientais tem sido repetidamente saudada por ecologistas sul-coreanos que, a partir de fins da década de 1980, se organizaram para tentar transformar a Zona Desmilitarizada em uma unidade de conservação transfronteiriça, aberta a pesquisas, atividades de manejo como eventuais reintroduções de espécies e, em um segundo momento, turismo.

Embora a Coréia do Norte não tenha se manifestado a respeito, as autoridades de Seul anunciaram que os planos de implementação do Parque seriam detalhados até maio de 2010, etapa a ser sucedida pela elaboração de uma legislação especial a ser apreciada no Parlamento da Coréia do Sul no segundo semestre do ano que vem.

Na verdade, pouco importa se a iniciativa contou ou não com o apoio norte-coreano. Do ponto de vista da conservação, a Zona Desmilitarizada preenche as aspirações do mais exigente ambientalista: está fortemente guardada contra qualquer impacto ou degradação e tem seus processos naturais de evolução assegurados. Sob esse prima, a criação de qualquer arranjo político que implique em maior presença antrópica na região, exceto para atividades de pesquisa e eventuais reintroduções de espécies, balizadas em avaliações técnicas, tenderá a enfraquecer a integridade ecológica da área. Assim, é evidente que a proposta sul-coreana não visa proteger a biota da Zona Desmilitarizada- melhor salvaguardada que está não ficará. O anúncio da criação do Parque da Paz e os passos deliberadamente lentos para a publicação de seu planejamento e regras de implementação parecem atender a objetivos de outra ordem, como o de transformar a Zona Desmilitarizada em uma fronteira de integração, que proporcione maior aproximação entre ambas as Coréias por meio do diálogo técnico em prol da preservação ambiental. Trata-se de movimento corajoso e de difícil consecussão, que merece ser acompanhado de perto, já que pode servir de exemplo auspicioso em que a conservação é o cimento da reconciliação entre dois povos irmãos e que poderia ser replicado em outras áreas onde há conflitos de fronteiras.
 
Fluresta da Tijuca
09/12/2009, 16:46
Hoje, 9 de Dezembro de 2009, foi rezada uma missa em ação de graças na Capela do Cristo Redentor, em pleno coração do Parque Nacional da Floresta da Tijuca.

O culto foi para agradecer o milagre que garantiu a permanência do Fluminense Football Club na Série A do Campeonato Brasileiro, feito considerado impossível por alguns estatísticos de plantão que, em certo momento, chegaram a vaticinar que o Flu tinha 98% de cair para a segunda divisão!<

Parecia mesmo impossível. Alguns dizem que o Flu é mais exato que a matemática. Outros, mais tementes, preferem atribuir o feito a um empurrãozinho do Homem. Seja como for, o Flu agarrou-se com protetor certo. O Todo-Poderoso (Pai, Filho e Espírito Santo) tem lá suas dívidas com o Tricolor. Afinal, a missa campal rezada em sua homenagem, quando da inauguração da Estátua em 1931 foi no Estádio das Laranjeiras. Além disso, a Unidade de Conservação que abriga o Corcovado é fruto da briga de Raymundo Castro Maya, atleta do Fluminense e diretor da Floresta da Tijuca na década de 1940, que advogou insistentemente pela criação do Parque Nacional e, durante sua administração, mandou reformar as Capelas Mayrink e do Silvestre, dois templos cercados de Mata Atlântica.

Mais recentemente, a Torcida do Flusão adotou como seu hino a música “A Bênção João de Deus” em alusão ao maior representante do Deus católico na Terra. Tudo isso de forma desinteressada. Puro amor aos mandamentos cristãos.

Jesus soube retribuir e salvou o Fluminense da derrocada. Mas é preciso mais. Tal qual a Floresta da Tijuca na década de 1860, a equipe das Laranjeiras precisa mesmo é de um programa sério e consistente de reflorestamento com espécies nativas; algo que a transforme em um time viçoso e verdejante (branco e grená). Sem isso, não há salvação. Milagre de verdade não acontece duas vezes.
 
Dando Nome aos Bois
02/12/2009, 19:52
Em recente reunião no Rio de Janeiro, o subprefeito da Barra da Tijuca, Thiago Mohamed, ofereceu à direção do Parque Nacional da Floresta da Tijuca custear a sinalização da trilha da Pedra da Gávea, proteger sua entrada com um alambrado de 300 metros que coibiria o uso de atalhos erosivos e trilhas secundárias e construir um portal no início da caminhada, na rua Sorimã. Em troca, sugeriu batizar a trilha de “Gabriel Buchman”, o montanhista carioca que faleceu recentemente em um acidente no Monte Mulanje, ao sul do Malauí.

A oferta é ótima e demonstra a excelente interação existente entre a Prefeitura do Rio de Janeiro e o Instituto Chico Mendes, resultante do convênio para a gestão compartilhada da Floresta da Tijuca, retomado pela administração de Eduardo Paes após ter sido rompido pelo prefeito César Maia. A homenagem a Buchman é justíssima e vem em boa hora. Gabriel, além de excelente montanhista, era um apaixonado pelas trilhas cariocas e um idealista que sonhava com um Brasil melhor.

Só tem dois problemas. A trilha já tem um nome consolidado: Pedra da Gávea. Dificilmente os usuários começarão a chamá-la de alguma forma diferente. Além disso, o caminho já está bem sinalizado desde 1999, inicialmente pelos próprios funiconários do Parque Nacional da Floresta da Tijuca e, desde então, pelos voluntários do Grupo TerraLimpa que, diga-se de passagem, também merecem – e muito - uma homenagem pelo labor contínuo e altruísta.

Ainda assim o tributo a Buchman é válido e pertinente e o auxílio da (sub) prefeitura mais que bem vindo. Um trecho após a famigerada “carrasqueira” desabou recentemente e precisa de intervenções caras e duradouras. O Terralimpa atuou prontamente, mas o tamanho do estrago demanda mais do que um grupo voluntário é capaz de fazer. Idealmente ali deveria ser erigida uma ponte ou passarela, que daria segurança aos excursionistas e preservaria a vegetação e o solo ralo que, no local, estão para lá de maltratados. Gabriel Buchman seria um excelente nome para a obra. Em sentido figurado ele já levantou essa ponte ligando a sub prefeitura à Pedra da Gávea, agora só falta concretizar a idéia.
 
Êta trem bão!
27/11/2009, 14:34
Trilha sobre o trilho (foto: autor)
Quando, em 1999, a convite da Embaixada americana, fiz uma viagem para conhecer algumas experiências de conservação nos Estados Unidos , uma das iniciativas que me impressionou foi o programa Trilhos para Trilhas ou Rails to Trails, no original em inglês

Trata-se de empreitada que recicla antigas linhas férreas fora de uso, repaginando-as em ciclovias ou trilhas de lazer. Hoje já há milhares de quilômetros dessas ferrovias revitalizadas em praticamente todos os estados americanos. A ideia deu tão certo que está sendo copiada na Austrália. (http://www.railtrails.org.au/).

Em Portugal, a iniciativa, oficialmente batizada de ecopistas, está engatinhando mas, na prática, a desativação em 1988 do trecho de 28 quilômetros da linha de trem entre as estações de Pocinho e Barca d´Alva, no nordeste português, brindaram os trilheiros ibéricos com uma caminhada para locomotiva nenhuma botar defeito.

A cabritada é feita inteiramente na margem esquerda do fabuloso rio Douro, cujo vale é, em grande parte do trajeto, decorado com intermináveis plantações de parreiras de onde se fermenta o vinho do Porto. Esse trecho do rio, conhecido como Alto Douro Vinhateiro, é tão bonito que, em 2001, a UNESCO decidiu outorgá-lo o título de Patrimônio Mundial da Humanidade. Entre Pocinho e Barca d´Alva, quase sem cruzar viv´alma o caminhante atravessa túneis, vence deslizamentos de terra, passa por estações fantasma e banha-se a valer nas águas refrescantes de um dos maiores cursos d´água da Península Ibérica. Como brinde, ainda trilha cerca de oito quilômetros dentro do Parque Natural do Douro Internacional onde, com sorte, é possível avistar raposas, lebres selvagens e esquadrilhas de aves de rapina. Trata-se de caso típico onde a natureza (e seus amantes) agradece aos efeitos da decadência econômica. VEJA FOTOS ABAIXO
 

A paisagem do Alto do Douro Vinhateiro (foto:autor)


 
 
A história se repete
29/11/2009, 12:12
Ontem, dia 28 de novembro, uma jovem de 21 anos foi sequestrada por uma dupla de policiais militares do 1º BPM, que a extorquiram, alivindo-a de R$ 1.700, e depois, levaram-na a passear pelas sinuosas estradas do Parque Nacional da Floresta da Tijuca onde, a pretexto de admirar uma bela vista, pararam a viatura e resolveram se desfazer da incômoda passageira. Despacharam a moça, baleando-a no rosto e empurrando-a do alto de um dos muitos penhascos que margeam a Estrada das Paineiras, segundo notícia de O Globo.

Nada de novo. Tudo continua como dantes no quartel de abrantes (nesse caso, mais precisamente, no quartel do Estácio, que o 1º BPM divide com o prestigioso Batalhão de Choque). Seria uma pena, se não fosse uma tragédia anunciada. Os sinais de apodrecimento da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, instituição bicentenária, não vêm de hoje, como escrevi em colunas anteriores.
Nos idos de 1999-2000, quando fui diretor-executivo da Floresta da Tijuca, o problema já era velho. Na ocasião, com o prestimoso auxílio do 1º Grupamento de Socorro Florestal e Meio Ambiente do Corpo de Bombeiros Militar, então comandado pelo Coronel Marcos Silva, retiramos dezenas de carcaças de automóveis das encostas do Parque. Tratava-se de veículos roubados que, na calada da noite, eram levados até as estradas escuras da Floresta, onde tudo que tinham de valor era retirado, após o que eram empurrados precipício abaixo. Analogamente, no mesmo período, foram encontradas diversas ossadas, cujas mãos bem atadas às costas, não deixavam muitas dúvidas quanto a forma em que foram parar em locais tão ermos.
Segurança pública não é atribuição de quem gere um parque nacional. Ainda assim tentamos fazer algo.  As Paineiras só têm uma entrada e uma saída. Instalamos nesses dois acessos cancelas de metal que trancávamos ao escurecer. Logo descobrimos, que noite sim, outra também, os cadeados que utilizávamos eram arrombados a tiros.  Durante algumas madrugadas, montamos uma vigília no então desativado Hotel das Paineiras e verificamos que a Estrada era usada frequentemente por bondes do tráfico. Demos ciência do fato, por escrito, à Delegacia de Meio Ambiente da Polícia Federal, que alegou não ter efetivo para resolver o problema. Na Polícia Militar, também batemos nos mesmos ouvidos moucos, que depois deram causa à aposentadoria por surdez de mais de um ex-comandante daquela briosa instituição.
Antes de ser exonerado da direção do Parque ainda orçamentei a construção de guaritas com holofotes e câmeras nas entradas do Parque, que a meu ver deveriam ser fechadas à noite para carros civis. O mesmo aparato também serviria para monitorar o trânsito de carros oficiais, o que coibiria o acesso para fins inconfessáveis.  Por alguma razão que desconheço, a administração seguinte não deu continuidade ao projeto.
Um Parque Nacional é nada mais que uma forma de ordenamento do território. Nesse sentido, no século XIX o filósofo Hobes já ensinava que não se ordena o que não se controla. No caso específico das Paineiras, e por extensão de todo o setor B do Parque Nacional da Floresta da Tijuca, o controle (por sinal exercido há decádas com excelentes resultados no Setor A) não é difícil nem despropositadamente caro. Se tomarmos em conta que o Parque é o mais frequentado do pais com cerca de 2 milhões de visitantes por ano, trata-se de projeto fundamental para a imagem turística da cidade como um todo, mas para tanto é necessário vontade política.
 
 
 
Invadindo sua paisagem
23/11/2009, 16:22
Todos os verões o arquipélago português dos Açores é invadido por uma horda de espécies exóticas. São turistas do continente europeu: alemães, ingleses, suecos, franceses, espanhóis e até mesmo lusitanos. Vêm em busca das belíssimas paisagens naturais e pastoris dessas nove ilhas vulcânicas. Uma das principais atividades dos visitantes é trilhar algumas das picadas açoreanas. Bem sinalizadas e mantidas, essas picadas levam o pitoresco nome de "pequenas rotas" e percorrem os traçados de antigos caminhos rurais usados para o transporte terrestre nas ilhas até muito recentemente.

 
Trilha da Serreta

Com efeito, a maioria dessas trilhas, como a da Lagoa do Fogo na Ilha de São Miguel e as do Monte Brasil e da Serreta, na Ilha Terceira, são belíssimas e não deixam nada a dever a nenhuma caminhada na Mata Atlântica ou na Floresta Amazônica. O único problema é que a especificidade desses passeios está ameaçada por outro tipo de espécies exóticas invasoras: as vegetais. Como parte da Macaronésia, os Açores hospedam a floresta laurissilva, uma das mais antigas e mais ameaçadas do mundo. Até a última glaciação, ocupava toda a parte sul da Europa. Hoje apenas subsiste nos Açores , na Madeira  e nas Canárias. Mesmo nesses ambientes insulares encontra-se ameaçada.

No caso dos Açores, segundo o pesquisador Eduardo Dias, cerca de metade das 300 espécies nativas do arquipélago, incluindo 80 endêmicas, estão ameaçadas pela expansão descontrolada de 700 espécies exóticas invasoras e pelos pastos cada vez mais abundantes na região que chega a prover o Portugal continental com mais de um terço de suas necessidades de leite e carne. Segundo Eduardo Dias, entre as conseqüencias estão a diminuição da capacidade do solo em reter água, aumento de pragas, perda de biodiversidade e "redução do interesse dos eco-turistas que vêem aos Açores em busca da laurisslva e acabam por caminhar entre pastos e hortências". O blogueiro esteve na Terceira este fim-de-semana e constatou que o botânico tem razão, há exóticas por todo o lado. Ainda assim, por mais que concorde com o apelo urgente de Eduardo Dias para que o Governo "introduza na agenda política, de uma forma visível e forte, a proteção da biodiversidade" e tenha consciência do pecado que estou escrevendo, gostei. É que as paisagens são efetivamente espetaculares!

 
Algar do carvão e Serra do Cume
 
Finalmente o bom senso
16/11/2009, 15:18
O Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro - INEA publica esta semana em sua página cibernética (http://www.inea.rj.gov.br) a consulta pública referente ao decreto que estabelece diretrizes para o uso público nos parques estaduais Fluminenses.

Ao ler o documento, fiquei surpreso com a qualidade do texto e, sobretudo, com o extremo bom senso das diretrizes propostas. Para um militante da conservação da natureza que foi gestor de Parque e gasta grande parte de suas horas livres como usuário público deles, é uma imensa alegria finalmente ver a proposta de um conjunto de regras que não descuidam da proteção da biodiversidade mas tampouco tratam o visitante como inimigo a ser desestimulado a passar seu tempo de recreação nas nossas unidades de conservação.
 
Não vou aqui comentar a totalidade do documento, mas ressalto entre seus pontos positivos: (1) “a não-obrigatoriedade da contratação dos serviços oferecidos pelos parques estaduais diretamente ou por meio de seus concessionários e permissionários, incluindo serviços de condução de visitantes, salvo nas hipóteses em que indispensáveis para a preservação de atributos naturais, históricos ou arqueológicos frágeis, definidos em regulamento específico” e (2) “o reconhecimento de que há riscos implícitos nas atividades de lazer na natureza, mas que esses riscos devem ser aceitos pelos praticantes de esportes de aventura, que precisarão assinar um termo de reconhecimento de risco”. Até mesmo a realização de corridas de aventura nos Parques Estaduais (http://www.oeco.com.br/paulo-bessa/43-paulo-bessa/16939-oeco_24810 ), que deu margem a uma grande confusão no ano passado, não está completamente proibida, podendo ser autorizada, “em área definida pelo plano de manejo do parque estadual, mediante decisão do INEA, após manifestação técnica”.
 
Por fim, causou excelente impressão o incentivo que o documento dá à utilização de trabalho voluntário nas UCs estaduais. Está de parabéns o INEA e, sobretudo, André Ilha (http://www.oeco.com.br/reportagens/37-reportagens/10981-oeco_27881 ), responsável pelos Parques na estrutura do órgão. Não tenho dúvidas que as mãos de André, que além de ambientalista também é usuário assíduo das matas protegidas do Rio de Janeiro, foram fundamentais na redação dessas “diretrizes”.
 
 
 
Natureza saudável, gente sadia
12/11/2009, 13:05
O estudo, baseado em registros médicos, incluiu 345.143 mil pessoas e analisou 15 tipos de doenças como diabetes, asma, enxaqueca e problemas do coração. Como era de se esperar as principais diferenças se verificam nos distúrbios psicológicos: as taxas de ansiedade e depressão são marcadamente mais baixas entre os que têm casas próximas da natureza.
 
Intuitivamente os montanhistas sempre souberam disso. Cada vez que me bate um baixo astral, arrumo minha mochila e meto o pé na trilha. Tomar esse remédio uma vez por semana dá mais resultado que o melhor dos prozacs.
 
O tema, que também inclui o papel das unidades de conservação para a saúde humana, será exaustivamente discutido entre os dias 11 e 16 de Abril de 2010, em Melbourne, no Congresso Internacional Parques Saudáveis-Gente Saudável (http://www.healthyparkshealthypeoplecongress.org), organizado pelo Serviço de Parques Nacionais do estado australiano de Victoria.
 
Nem lá nem cá:
09/11/2009, 17:05
Castelo de Mourão
Portugal tem 34 áreas protegidas, das quais oito - o Parque Nacional da Peneda Gerês e os Parques Naturais de Montesinho, do Douro Internacional, da Serra de São Mamede, do Tejo Internacional e do Vale do Guadiana e as Reservas Naturais da Serra da Malcata e do Sapal de Castro Marim estão localizadas ao longo dos 1214 km da fronteira com a Espanha. No Lado espanhol há outras cinco áreas protegidas encostadas à fronteira: os Parques Naturais da Serra de Aracena e Picos de Aroche, do Tajo Internacional, das  Arribas del Duero, da Baixa Limia-Serra do Xurés e do Monte Alóia.  Nem todas são espelhos de unidades de conservação portuguesas. Como resultado, é possível caminhar mais da metade do pontilhado formado pela fronteira luso-espanhola dentro de espaços protegidos, ou pelo menos, nos seus limites. Lisboa e Madrid não chegaram a se preocupar com os montanhistas.






Construíram, contudo uma trilha contínua entre cada um dos marcos de pedra que delimitam a fronteira, de modo a permitir sua manutenção periódica. O resultado tem sido aproveitado por uns pouco excursionistas, que trilhando esse caminho, tem acesso a uma imponente rede de castelos medievais que, em tempos de antanho opunham os dois povos, e a algumas das mais belas paisagens de toda a Península Ibérica.




Marco da fronteira entre Portugal e Espanha