Em coluna recente, falei sobre a Trilha E-9, no seu trecho que corta o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, em Portugal. Para resumir o que escrevi, trata-se de um belo percurso que corta uma paisagem linda, com tudo pronto para ser manejado como uma trilha de longo curso sem que, no entanto, o Governo o tenha aparelhado para servir ao ecoturismo, como seria de se esperar em um país em que os visitantes estrangeiros contribuem significativamente para a economia nacional. Em se tratando de Europa o descaso é de estranhar. Afinal, não é preciso procurar muito para ver bons exemplos a emular. Ali mesmo na União Europeia há incontáveis trilhas de longo curso, cujos exemplos são inspiradores. Do ponto de vista do interesse lusitano, talvez o melhor de todos seja a Grã Bretanha que, afinal, é uma das principais fontes de turistas para região da Costa Vicentina.

Há na Ilha Britânica cerca de 600 trilhas de longo curso sinalizadas e com manutenção perene. A definição de “trilha de longo curso” é simples: abarca todas as caminhadas que precisam mais de um dia para serem percorridas. Há, contudo, dentro desse universo, quase duas dezenas de trilhas com mais de 100 km de extensão trilhas. São classificadas como “Trilhas Nacionais”, mantidas em sua totalidade por instituições especificamente designadas para tal nos três territórios autônomos do Reino Unido (Inglaterra, Escócia e Gales). Juntas somam quase cinco mil quilômetros de extensão. São 13 na Inglaterra, 4 na Escócia, uma em Gales e uma entre Gales e Escócia.
 
 
Todas exercem grande atração para o público. Mesmo na Escócia, onde, brinca-se, só há duas estações (o inverno e a estação central de trem de Glasgow), 70 mil montanhistas completam os 153 km da West Highland Way todos os anos.

Como é que eu sei? Fácil. Quem caminha as trilhas de longo curso da Escócia compra um passaporte antes de iniciar o périplo. Com ele ganha descontos ao longo da jornada nos locais de acomodação e alimentação, bem como nas lojas de equipamentos de montanhismo. Mas não é só, a intervalos regulares há locais de passagem obrigatória onde o passaporte recebe um carimbo datado. Ao final da trilha o passaporte todo timbrado serve de prova para a emissão de um certificado de conclusão da trilha. O certificado é pago e os recursos revertem para a manutenção da trilha.

Apesar do clima inclemente e da escassez de espaços verdadeiramente pristinos na Inglaterra e seus vizinhos, o esforço de escolha dos roteiros das trilhas nacionais, bem como o laborioso trabalho de sua implementação e manutenção, tornam agradável percorrê-las. O próprio West Highland Way é espetacular. Considerado como um trecho da Trilha Apalache Internacional, em seu traçado de oito dias cruza um dos dois Parques Nacionais escoceses, o Loch Lomond e o Trossoks National Park. A trilha é, possivelmente, a mais bonita dentre suas análogas britânicas. Começa próximo a Glasgow, depois, avança bordejando “lochs” e “munroes” (lochs são lagos, monroes são picos com mais 914 metros de altitude, equivalentes a 3.000 pés), até terminar nas fraldas de Ben Nevis, ponto culminante do Reino Unido, com 1.344 metros de altitude (e cem mil pessoas atingindo seu cume todos os anos!).

Outra trilha de longo curso que poderia servir de exemplo a Portugal (e ao Brasil, apesar de nosso abismal atraso no uso público das unidades de conservação!) é o Pennine Way, cujos 429 km começam na fronteira da Escócia, atravessam três Parques Nacionais e terminam próximo a Manchester. Do total, 61% do percurso é em áreas protegidas e o restante atravessa terreno usado pelas forças armadas para treinamento, margens de cursos d´água, paisagens rurais e peri-urbanas.

Entrou no site das trilhas nacionais britânicas e ficou em dúvida sobre onde caminhar? Não tem problema. Pode ficar em cima do muro. Com efeito, ao percorrer a Trilha de Longo Curso da Muralha de Adriano, é possível palmilhar 140 km literalmente em cima do muro. A Trilha da Muralha de Adriano é a mais popular da Inglaterra. Não é para menos. Seu percurso segue o muro fortificado que Adriano mandou erigir em 122 D.C. no limite do Império Romano, separando-o da atual Escócia. Hoje tombada pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade, a Muralha de Adriano é a maior linha fortificada contínua construída por Roma. Muitos de seus trechos, que tinham cerca de três metros de largura e até seis metros de altura, ainda estão de pé, assim como bem preservadas ruínas de portões e torres. O caminho, que acompanha as fraturas do relevo, usando precipícios e despenhadeiros para fortalecer o propósito defensivo do muro, também atravessa dezessete antigos quartéis romanos, que eram guarnecidos por legionários de segunda classe (não romanos, tais como belgas e gauleses, por exemplo).

Cada vez que a trilha adentra algum desses aquartelamentos somos assaltados por imagens vivas da história, sempre escoradas em placas de sinalização bem pensadas e em centros de visitantes ricamente aparelhados. Em meu périplo, não pude deixar de evocar a Babaorum e Petibonum dos livros de Asterix. Do alto dessas fortificações ficava imaginando os pobres decuriões perscrutando os limites da planície além-muro na expectativa apavorada de um ataque surpresa dos gauleses embriagados com a poção de Panoramix.

Mas, se você não for do tipo que fica em cima do muro, há nas terras britânicas ainda muitas outras trilhas de longo curso que também merecem atenção especial dos montanhistas. Uma delas é a Taff Trail, cujos 88 km cortam o Parque Nacional de Brecon Beacon, em Gales, e a Cumbria Way, que em seus 113 km, atravessa o Lake District National Park, a mais bonita área protegida da Inglaterra.

O que esses caminhos têm de excepcional, contudo, não é a beleza, nem o estado primitivo da natureza, mas sim sua boa manutenção: suas medidas para mitigar a erosão, suas pontes, corrimãos, mirantes e plataformas, os acordos que permitem as trilhas atravessarem terras privadas, seus campings de alto nível, a qualidade e exatidão de seus mapas e a sinalização farta e inequívoca. Existe facilidade de transporte entre os diversos pontos em que as trilhas cruzam o asfalto, locais onde há suficientes lojas, como lavanderias para manter a roupa sempre limpa e armazéns onde se pode reabastecer de víveres e produtos de primeira necessidade. Para fechar, a fiscalização é presente e eficaz.

Não é sem razão que alguns milhões de britânicos caminham nas trilhas do seu próprio país todos os anos. Suas trilhas, ainda que não sejam espetaculares, são muito bem manejadas. Assim, mesmo em um dia chuvoso e frio, há gente se exercitando na natureza e gostando do que faz. Na última vez em que meu filho Lucas e eu palmilhamos o Parque Nacional de Brecon Beacon, era pleno verão e ainda assim chovia cântaros, enquanto um vento gelado cortava o ar. Pensamos em desistir da empreitada, mas, como o clima não parecia afetar ninguém, fomos em frente. Ao chegarmos ao topo de um morro de que não me recordo o nome, deparamos com um montanhista local. Seu largo sorriso denotava contentamento extremo. Ao nos ver, abriu um largo sorriso e disparou: “lovely day, isn´t it?”

E afinal era mesmo!


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Em 1998, eu era assessor especial de Meio Ambiente da Prefeitura do Rio. Fui designado para acompanhar um diretor do Banco Mundial em visita a encostas em que o projeto “Mutirão Reflorestamento” estava sendo implementando. Foi meu primeiro contato com o poder paralelo. Para chegar aos locais onde as turmas trabalhavam, tínhamos que passar por dentro de favelas como a da Formiga e o Turano. Foi necessário obter permissão do tráfico.

Senti-me envergonhado. Eu, um agente do Governo, escoltado por um moleque descalço armado de metralhadora, isso há menos de 1 km do quartel do 6º Batalhão de Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Fora isso, a visita saiu bem. O convidado oficial declarou-se impressionado com o “Mutirão Reflorestamento”. A iniciativa, além de pioneira, é muito bem sucedida. Fato é, contudo, que durante o almoço que seguiu a visita, o assunto não rondou o plantio de mudas, mas deteve-se em armamentos, munições e volência.

Em 1999, assumi a direção do Parque Nacional da Floresta da Tijuca. Na época o Parque implementou um ambicioso projeto para erradicar os acampamentos de caçadores que grassavam no seu interior. Em dois anos foram desativados mais de 70 pontos de caça. O trabalho não poderia ter sido feito sem a cooperação do Batalhão Florestal da PM cuja ajuda, apesar de prestimosa, exigiu muito planejamento.

A maioria dos acampamentos estava nas bordas das favelas. Como o apoio da PM resumia-se a uma guarnição de três a cinco homens, era impensável desmontar as estruturas levantadas para a caça e descer direto para o asfalto, pois teríamos que atravessar “território inimigo”. Assim, antes de qualquer operação, era sempre imperativo definir uma rota de escape - sempre longuíssima - que evitasse a passagem por essas áreas cujo controle fugia às autoridades legalmente constituídas.

Até mesmo a fiscalização desarmada do Parque era muito difícil quando não impossível. Certa feita, uma equipe mista do IBAMA e de agentes ambientais da Guarda Municipal foi verificar uma denúncia de desmatamento próximo à favela do Cerro Corá. Voltou sem ter cumprido a missão. Foi rendida e submetida a toda sorte de humilhações sob a mira de pistolas e fuzis. Ao me relatar o fato, o líder da patrulha chorava copiosamente: “nunca fui tão humilhado em minha vida”. Mesmo hoje, mais de dez anos após o ocorrido não encontro palavras para traduzir o horrível sentimento de impotência que se apoderou de mim naquela hora.

De outra feita, acompanhei um tenente bombeiro e sua tropa em um combate a incêndio na encosta do Morro do Elefante. Começamos a debelar labaredas ao meio dia. Só extinguimos o último foco muito além das duas da manhã. Naquela altura era impossível sermos resgatados por helicóptero. O caminho de volta ao Parque por dentro da mata demoraria mais de três horas. Descer por uma das favelas do Andaraí seria o óbvio, pois nos tomaria apenas cerca de uma hora. Prevaleceu a cautela. Ninguém queria ser confundido com a PM na calada da noite. Caminhamos cerca de duas horas e meia por uma trilha alternativa que nos deixou na estrada Grajau-Jacarepaguá.


Tem mais: certa vez uma das viaturas do Parque saiu para atividades de fiscalização. Voltou antes do esperado. Os quatro fiscais brancos como cera. O carro tinha sido alvejado por uma bala. O projétil furara a lataria do veículo logo atrás do motorista, atravessara seu banco e perfurara a porta traseira do carona, indo perder-se no asfalto. Felizmente ninguém se ferira, só a autoridade constituída e o amor próprio dos Agentes do Estado.

Depois que deixei o Parque, me mudei do Brasil. Mesmo assim, vou ao Rio com muita frequência. Sempre subo um pico diferente. Ao longo do meu quase meio século de vida, até a virada de 2011 para 2012, subi todos os cumes do Município acima de 100 metros de altitude acessiveis por trilhas, exceto dois cujos caminhos passam necessariamente dentro de favelas.

Em 30 de dezembro de 2011, contudo, Thiago Haussig, funcionário do Parque Nacional da Floresta da Tijuca convidou-me para topar uma das figurinhas que me faltavam para completar o album, o Irmão Maior, bem em cima do Leblon e com vistas extraordinárias de toda a Zona Sul da cidade. Só havia um pequenino problema: a trilha começa bem dentro da favela do Vidigal.

Thiago assegurou-me que a realidade era outra e que a subida seria tranquila. Mencionou a política de pacificação das favelas levada a cabo pelo Delegado Beltrame e elogiou seus resultados. Aceitei sua palavra, que alías estava bem calcada em fatos. Logo de cara, na entrada da Comunidade havia duas viaturas do Batalhão de Choque. Ali, depois de esperar em uma bem organizada fila, tomamos cada um seu moto-táxi que, depois de cruzarem com mais um camburão, nos deixaram no bico da picada. A partir daí foi uma hora e pouco de pé no chão em uma bela trilha que segue sempre sobre o dorso do morro, nessa parte ainda coberto de viçosa Mata Atlântica. No caminho, passamos por uma dupla de PMs que descia do cume. Assustei-me com a metralhadora. Não era para tanto. O sargento que a carregava abriu um sorriso e nos desejou uma feliz entrada em 2012.

No cume, a 533 metros de altitude, apesar do dia nublado abriram-se esplêndidas vistas da Lagoa, da Pedra da Gávea e das Ilhas Cagarras. Um espetáculo difícil de traduzir em palavras. Enquanto o assistíamos boquiabertos, chegaram dois grupos distintos de turistas estrangeiros que se juntaram a nós na atitude de deslumbramento. Depois ainda apareceu mais uma turma, dessa vez de jovens moradoras do Vidigal. Não gostaram da companhia. Uma delas nos olhou contrafeita e praguejou: “na época do tráfico isso aqui era mais privé”.

Pois é, mesmo em uma cidade plural e democrática, nem tudo é perfeito para todo mundo. No que me toca, prefiro assim...




Nesse fim de ano tive o privilégio de voltar rapidamente a Portugal. Foi uma viagem vapt-vupt mas que me rendeu um fim de semana livre. Apesar do inverno europeu, não titubeei. Calcei as botas e voltei à Trilha E-9. Caminhei um pouco no sábado e outro tanto no domingo, sempre por picadas completamente inseridas no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, cujos 75 mil hectares são manejados de forma similar a uma APA no Brasil. Ao todo foram 19 quilômetros de pé no chão por este que é o trecho inicial da Trilha do Litoral Europeu.

Começa bem essa super-trilha de 5.000 quilômetros de extensão que atravessam vários países. Ali, logo após seu início no Cabo de São Vicente, o excursionista percorrerá uma paisagem de falésias majestosas e altaneiras que enfrentam com galhardia o mar bravio. E põe bravio nisso. Ondas de até quatro metros atravessam o Atlântico sem oposição, até estourarem estrondosamente contra as paredes da Costa Vicentina. Ao longo dos tempos o processo de água mole em pedra dura (nesse caso nem se trata de água tão mole assim) acabou por escavar grandes fissuras nas encostas, causando alguns desmoronamentos e cavoucando túneis e cavernas. O resultado é um litoral de contornos cinematográficos, cuja descrição deixo para as fotografias.


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Dentro do Parque Natural, a trilha vai sempre junto ao litoral. Qualquer país preocupado com manejo, já a teria transformado em  um dos melhores equipamentos nacionais de eco-turismo. Infelizmente esse não é o caso em terras lusas. A beleza cênica é excepcional e grande parte da infra-estrutura já está pronta. Ao longo dos mais de 100 quilômetros da Costa Vicentina, há diversas rotas de fuga para casos de emergência e existem pousadas, parques de campismo, supermercados e restaurantes acessíveis a partir de pontos da trilha convenientemente espaçados. Isso para não mencionar as fortalezas e faróis históricos que decoram o caminho. Ou seja, o trecho da E-9 na Costa Vicentina já pode ser percorrido hoje em sua totalidade.

Mas se a Natureza e a iniciativa privada fizeram a parte que lhes coube, o Governo ficou devendo o seu quinhão. Não há mapas, nem folhetos e, embora haja algumas placas educativas, não há nenhuma sinalização direcional. No que toca à trilha propriamente dita, não há manutenção alguma. Não há drenagem, não há escadas, não há pontes, não há mirantes, não há corrimãos. Não há preocupação com a remoção de exóticas nem com o recolhimento do lixo. Enfim, a trilha parece abandonada de qualquer cuidado ou intervenção dos poderes instituídos.

Para um caminhante experimentado e fuçador, isso não estraga a experiência. Pelo contrário, até a melhora, pois faz com que, mesmo na super populada Europa, seja possível palmilhar 19 km em total isolamento, tendo por companhia apenas o mar e sua brisa benfazeja. Apesar da formosura incomensurável e do fácil acesso, não há mais ninguém na E-9 no seu trecho da Costa Vicentina.

O problema talvez seja histórico. O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina começa junto a Sagres, onde o Infante D. Henrique, criou a mais famosa escola de navegação da história mundial. Termina em Sines, cidade natal de Vasco da Gama, descobridor do caminho marítimo para as Índias. Com tanto oceano e tantas histórias de navios, parece que os olhos portugueses acabaram se acostumando a perscrutar apenas os “mares nunca dantes navegados”

É pena, Portugal é um país com alto nível de desemprego, sobretudo entre os setores menos qualificados da população. Justamente aqueles trabalhadores utilizados na faina de manter uma trilha. Com baixíssimo investimento seria possível franquear uma das trilhas de longo curso  mais bonitas da Europa a grandes números de amantes do excursionismo, com evidentes ganhos econômicos para o entorno. Seria um bom começo, pois em nenhum outro lugar da Europa é possível caminhar tanto tempo sem conseguir tirar os olhos do mar nem sequer por um minuto.



Nessa semana que passou foram anunciadas as Sete Maravilhas Naturais do Mundo. Uma bela lista que inclui Iguaçu, Amazônia, Montanha da Mesa e Komodo. O Brasil emplacou dois de sete, não está mal. Mas o que mostra esse resultado? Absolutamente nada. As localidades foram escolhidas por votação popular em que, inclusive, a mesma pessoa podia sufragar duas vezes o mesmo lugar. É como perguntar aos torcedores qual é o melhor time do Brasil. Independente do fato do Campeão brasileiro atual ser o Fluminense, a votação vai sempre dar Flamengo. Bacana, espelha o amor dos eleitores pela causa eleita, mas pouco ou nada diz sobre a supremacia incontestável dos escolhidos sobre os demais. No caso das Sete Maravilhas Naturais do Mundo, muitos votantes jamais sequer sujaram as botas nas trilhas dos Parques por eles escolhidos. Mais do que isso, ignoram por completo a existência de outros lugares de esplêndida beleza que certamente poderiam constar da lista.

Um exemplo do que falo fica na Eslováquia. O pequeno país europeu tem 36% do seu território coberto por florestas. Só Suécia e a Áustria possuem maior parcela de suas áreas sob cobertura natural. Na Eslováquia há 10.000 km2 de áreas protegidas, sendo nove Parques Nacionais e 16 unidades de conservação de outras categorias. Todos os Parques Nacionais do País têm uma beleza ímpar e poderiam facilmente constar da “maravilhosa” lista séptupla. Dois deles inclusive são Patrimônios Mundiais da Humanidade. Um terceiro atende pelo singelo nome de Paraíso Eslovaco.


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Slovenski Raj, como é chamado no idioma eslovaco, encontra-se oficialmente protegido desde 1964. Foi elevado à categoria "parque naciona"l em 1988. Ocupa uma área de 19.763 hectares com uma zona de amortecimento de outros 13.011 hectares. Em seu território vicejam 930 espécies de plantas vasculares, sendo seis endêmicas da Eslováquia. Ali também vivem cerca de quatro mil espécies de invertebrados, incluindo duas mil espécies de borboletas (17 endêmicas ao Parque), 400 espécies de moluscos e 150 espécies de insetos. Por fim, perambulam, rastejam, nadam  e voam no Paraíso Eslovaco 200 espécies de vertebrados, entre os quais sobressaem o urso europeu, o lince, o lobo e o javali.

Mas o Paraíso não são as espécies que lá vivem, e sim o próprio sítio geográfico que as abriga. A unidade de Conservação protege uma cadeia de canyons profundos e estreitos, alguns correndo entre paredes verticais de 400 metros de desnível. Geólogos acreditam que alguns desses canhões foram formados com o colapso dos tetos de cavernas de calcáreo há milhões de anos. Fato é que mover-se ali até recentemente era muito difícil, já que não há praticamente onde construir estradas ou abrir trilhas. No inverno, contudo, os leitos dos rios congelam e as cachoeiras se solidificam. Aos poucos, aventureiros de esqui de fundo começaram a adentrar os vales e explorar os recônditos profundos dessa maravilha não eleita.

As notícias que trouxeram das belezas encontradas geraram pressão no Serviço de Parques Nacionais eslovaco que, após a declaração da Unidade de Conservação, começou a desenvolver um complicado sistema de trilhas para franquear o Slovenski Raj à visitação também no verão, quando a temperatura nos apertados canyons oscila entre 12 e 14 graus centígrados. Hoje é possível cabritar 326km de trilhas sinalizadas e habilitadas (e põe habilitadas nisso!).

Entre elas destacam-se a trilha do canyon Prielom Hornádu, cujos 16 km de extensão são fáceis de percorrer e o trecho do Paraíso cortado pela trilha Csta Hrddinov SNP (trilha dos Heróis da Libertação Nacional Eslovaca) que, no total, tem 762 km de comprimento e corta a Eslováquia ao meio.

Entra pouca luz nas profundezas do paraíso. As beleza naturais são difíceis de registrar em fotografias. Tão ou mais importante que a obra de Deus, contudo, é o esforço de manejo em uso público levado a cabo pelos gestores do Parque Nacional de Slovenski Raj. As obras de arte construídas ao longo de canhões apertados são um prodígio da engenharia de trilhas, que o Brasil deveria estudar de muito perto se um dia realmente levar a sério um projeto de uso público de suas unidades de conservação. As trilhas são sinalizadas com cores pintadas nas pedras e árvores e se utilizam de um complicado e bem engendrado sistema de pontes, escadas e plataformas fincadas nas rochas.

Por isso mesmo deixo aqui meu voto no Parque Nacional Slovenski Raj para uma das "Sete Maravilhas do manejo de trilhas em Unidades de Conservação". Pelo andar da carruagem, é uma mera questão de tempo até que alguém organize essa votação com toda a pompa e circo midiático a que eventos dessa ordem fazem jus.



Minha última coluna aqui em ((o))eco gerou algumas cartas de leitores questionando minha opinião sobre o processo de seleção de Chefes de Parque. Aqui vão minhas idéias não só sobre a designação e movimentação dos Chefes do Parque Minha última coluna aqui em ((o))eco gerou algumas cartas de leitores. Duas delas são sobre o processo de seleção de Chefes de Parque. Eduardo Pegurier especificamente diz que “Gostaria de ver uma análise sobre a escolha de chefes de parque e se eles devem ter mandato com tempo definido ou não”. Aceito o desafio. Aqui vão minhas idéias não só sobre a designação e movimentação dos Chefes do Parque, mas sobre a carreira de servidores do Chico Mendes como um todo.

Para que o manejo das Áreas Protegidas brasileiras seja saudável entendo ser necessária a criação de um plano de carreira, no âmbito do ICMBio, que sirva para garantir a formação dos técnicos, normatizar a progressão funcional e estimular o trabalho no campo. Não faltam exemplos bem sucedidos em países mais pobres do que o Brasil (Quênia e África do Sul são bons modelos a emular) que poderiam ser adaptados à nossa realidade.

É fundamental a introdução de um plano de carreira que permita a rotação dos funcionários, especialmente os de nível superior, pelo Brasil, emprestando-lhes um maior sentido de conjunto do país e uma visualização mais fácil do SNUC. Também é desejável a criação de uma estrutura de promoções que lhes proporcione um horizonte profissional e que esteja atrelada à aprovação em cursos de especialização e a tempo de serviço despendido em postos de sacrifício, o que pode servir de incentivo para lotar melhor as unidades de conservação da Amazônia. Como o estudo Aperfeiçoando a Cooperação Internacional para Áreas Protegidas no Brasil assinalou, não se trata de ideia nova. Pelo contrário já foi testada com sucesso no Itamaraty e nas Forças Armadas, entre outros órgãos...

Itens simples, como uniformes, hierarquia e escalas de trabalho nos fins de semana são fundamentais em uma atividade que pede certa disciplina e que envolve fiscalização, porte de armas e a imposição da Lei. Assim, faz sentido avaliar se vale a pena que o Instituto Chico Mendes seja uma agência fardada e hierarquizada, com progressão funcional definida, como são os Serviços de Parques que vi funcionarem exemplarmente no Quênia, Estados Unidos, Austrália, África do Sul, Uganda, Argentina, Chile e tantos outros lugares onde as Unidades de Conservação apresentam bons resultados de manejo.

Não vislumbro uma militarização do Instituto mas sim um perfil organizacional adequado à sua atividade fim. Mesmo no Brasil há diversas profissões que, apesar de civis, têm esse perfil porque é o que melhor se presta ao desempenho de suas funções. Para citar apenas alguns casos, assim são estruturadas as Guardas Municipais, a Aviação Civil, a Receita Federal, a Marinha Mercante e o meu órgão de origem, o Itamaraty.

Idealmente, na minha opinião, o Instituto Chico Mendes teria duas carreiras com fluxos próprios. Uma de nível básico, cujo requisito para admissão deve ser o segundo grau completo, vigor físico e conhecimento prático de mato. Não se pode pensar em um guarda-parque que não saiba montar uma barraca, encontrar seu caminho em uma trilha ou que tenha medo de caminhar ao ar-livre embaixo de uma chuvarada. Essa gente constituirá o grosso da força de guardas parques, fiscais, brigadistas de incêndio, mantenedores de trilhas e motoristas e poderia ter de três a cinco níveis hierárquicos diferentes. A segunda carreira, de nível superior, deve exigir curso universitário completo, vigor físico (pelo menos quando da admissão) e também conhecimento prático de mato.

Essa última carreira constitui a massa crítica pensante de onde sairão os gestores dos parques. Após concurso de admissão, a exemplo das academias da Polícia Federal e do Ministério das Relações Exteriores, os novos técnicos ambientais freqüentariam uma academia ambiental em alguma cidade grande onde haja unidades de conservação que possam servir como parque-escola.

Na salas de aula, estudariam disciplinas como manejo, pesquisa, erradicação de espécies exóticas, reintrodução de espécies nativas, relações com a comunidade, implantação e manutenção de trilhas, controle e mitigação de impactos ambientais, prevenção e combate a incêndios florestais, legislação ambiental, educação ambiental (de escolares do entorno e de visitantes) uso público, tursimo e administração pública. No parque-escola poriam em execução o que foi ensinado, adequando o aprendizado teórico à experiência prática.

Ao graduarem-se, escolheriam sua primeira lotação em Unidade de Conservação de sua preferência de acordo com a classificação obtida no curso. Assim como no Itamaraty, ou como no Serviço Guarda Parque do Quênia, ficariam (idealmente e de acordo com a realidade orçamentária) no máximo quatro anos em cada unidade, salvo por vontade própria quando lotados em Postos considerados de sacrifício.

Os parques (UCs) poderiam ser classificados em categorias “A”, “B” e “C” (e eventualmente “D”). Essa classificação levaria em conta a complexidade administrativa e de manejo da UC,.o número de visitantes que recebe, a quantidade de servidores ali lotados e o grau de sacrifício exigido ao funcionário ali lotado. UCs em locais ermos e sem estrutura seriam “C” ou “D”. UCs próximas a cidades grandes seriam “A”.

Após servir em uma UC “C” o funcionário teria direito a servir em uma “B” e depois em uma “A”, só sendo obrigado a voltar a uma “C” depois de servir em uma “A”. Trabalhar em postos de sacrifício, como UCs na Amazônia ou lugares muito isolados, também deveria ser requisito para as promoções. Como já citado, o estudo Aperfeiçoando a Cooperação Internacional para Áreas Protegidas no Brasil assinalou que esse modelo já foi testado com sucesso no Itamaraty e nas Forças Armadas [1].

Analogamente, entre cada promoção, o funcionário deveria voltar à Academia para fazer cursos de aperfeiçoamento, reciclagem ou especialização em áreas tais como uso público e geração de renda para o ICMBio, manejo de mosaicos, administração de Parques Transfronteiriços, manejo de Parques Marinhos, manejo de Parques de Cerrado e assim por diante.

Após cerca de dez anos na instituição e duas ou três promoções o técnico ambiental poderá ser promovido a “Chefe de Parque “C” ou “D”, cargo para o qual, além da experiência acumulada e de critérios de merecimento a serem estabelecidos, será exigida também a preparação e posterior aprovação de uma monografia sobre tema de interesse do Instituto Chico Mendes. Após ser “Chefe de Parque “C” ou “D”, seguir-se-ão os postos de “Chefes de Parque “B” e “A” e finalmente os cargos de diretor dos diversos ecossistemas e diretorias reginais, técnicas ou burocráticas a serem desempenhados na capital federal e demais escritórios do Instituto.

Por fim, creio que até 5% dos cargos de Chefe de UC poderiam ser de livre provimento, mas não mais que esse percentual. Assim como no Itamaraty, onde o cargo de Embaixador é de livre provimento, uma pequena parcela de servidores extra-quadro, se bem escolhida dentre pessoas com notório saber no assunto, tais como alguns acadêmicos, ongueiros, ou profissionais de instituições afins, pode servir para arejar idéias, levantar discussões e questionamentos saudáveis e introduzir técnicas novas no Instituto.

A Academia, hoje localizada na Floresta Nacional de Ipanema, a meu ver deveria ser no Rio de Janeiro ou em Brasília, duas cidades com ampla oferta de acomodação, diversos professores universitários e pesquisadores já qualificados e com Parques Nacionais na própria área urbana. O exemplo do Rio de Janeiro é paradigmático pois além do Parque Nacional da Tijuca, sedia nas Ilhas Cagarras uma UC marinha.

Há no Alto da Boa Vista, junto à Floresta da Tijuca, vários prédios pertencentes à União vazios com proporções suficientes para abrigar a Academia, entre eles o Hotel das Paineiras, de propriedade do Governo, hoje desativado. Os professores poderiam ser recrutados na UFRJ, no Grupamento Florestal do Corpo de Bombeiros, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, na Faculdade de Turismo da Cidade, na Universidade Rural, na UFRRJ, na UERJ, na UFF na Embrapa e na PUC-Rio para citar apenas algumas instituições de um vasto naipe que a cidade provê.

Por outro lado, o Parque Nacional da Tijuca com uma freqüência de mais de um milhão de visitantes por ano seria um excelente campo prático para o aprendizado dos futuros gestores de Parques do Brasil. Ali aprenderiam a manejar trilhas, gerir locais de visitação de massa como o Corcovado, mediar conflitos com a iniciativa privada e com as comunidades do entorno, administrar mosaicos como o que a Tijuca forma com a Pedra Branca e com o Parque Estadual do Grajau, apagar os repetidos incêndios provocados pelos balões de São João e cooperar com o Município e com o Estado em questões como as captações ilegais de água, o recolhimento de lixo, a administração das estradas que cortam o Parque e o planejamento das atividades de segurança pública. Nas Ilhas Cagarras poderiam ser adestrados em assuntos de manejo em UCs Marinhas. Junto aos pesquisadores das universidades da antiga capital poderiam desenvolver planos de reflorestamento, de pesquisa botânica, de erradição de exóticas invasoras e de reintrodução de espécies nativas.

Bem administrada essa academia serviria para formar não apenas os funcionários do Instituto Chico Mendes, mas também poderia capacitar técnicos dos Institutos e Fundações Florestais dos Estados e Secretarias Municipais de Meio Ambiente bem como oficiais das polícias ambientais e bombeiros florestais dos diferentes Estados da Federação.

[1] Cristoph Diewald, Analuce Freitas, e Ana Cristina Barros. Op cit pp. 21-22
A recente crise econômica que se instalou na Europa abateu primeiro Grécia e Irlanda. Logo depois atingiu Portugal. Em terras lusas chegou com força, derrubou o Governo socialista e obrigou a administração do país a fechar um acordo de austeridade fiscal e financeira muito rigoroso com a tróica formada pelo Fundo Monetário Internacional, pelo Banco Central Europeu e pela Comissão Europeia, para fiscalizar os empréstimos concedidos a Lisboa.

O acordo, reclamam alguns portugueses, é draconiano. Inclui a redução de salários e do 13º do funcionalismo, a demissão de funcionários temporários, o aumento de impostos, o corte nos gastos públicos e a fusão, a venda ou a extinção de muitas autarquias e repartições governamentais.

No bojo dessa última medida, o Governo português recentemete sugeriu reunir o Instituto português da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICN) com a Autoridade Florestal Nacional. O raciocínio é que juntos os órgãos custarão menos aos cofres públicos, pois haverá racionalização de gastos e uso compartilhado de equipamentos.

A medida vem justamente no momento em que o Brasil trilha o caminho inverso, separando cada vez mais o Instituto Chico Mendes do Serviço Florestal Brasileiro. Quem está com a razão, nós ou eles?

Em princípio, unidades de conservação de uso direto e de uso indireto podem ser bem geridas dentro de um mesmo órgão, como é o caso da África do Sul. Entretanto, a vasta maioria dos países que manejam bem suas áreas protegidas, tanto ricos como pobres, têm optado por separar aquelas que têm características extrativistas das de proteção integral. Para citar alguns exemplos que tive a oportunidade de estudar de perto, é assim na Austrália, na Namíbia e em Portugal. Nos Estados Unidos e no Quênia os dois grupos de unidades de conservação não pertencem sequer ao mesmo Ministério.

"Cabe ao Ministério, e não ao IBAMA nem ao Instituto Chico Mendes, dar o rumo da política ambiental brasileira e, por conseguinte, zelar para que suas autarquias a implementem de forma coordenada e em sintonia."
As atividades de gestão atinentes aos dois grupos são bem distintas. O Grupo extrativista para atingir seus objetivos tem por imperativo o aproveitamento econômico dos recursos ambientais. Seu manejo deve ter um norte sócio-econômico. Tal não é o caso das UCs de proteção integral, onde o principal objetivo não é econômico mas de conservação da biodiversidade. Têm como objetivo secundário proporcionar oportunidades de recreação para a população. Ora, embora os dois grupos façam parte de um mesmo sistema –que no Brasil é o SNUC- são regidos por paradigmas diferentes, têm lógicas administrativas diversas e, por conseguinte, exigem profissionais com treinamentos específicos e díspares.

No Brasil, ambos os modelos já fizeram sentido. Inicialmente, quando da criação do IBAMA não havia um Ministério do Meio Ambiente. Era então aconselhável que o novo órgão tivesse musculatura suficiente para ser capaz de enfrentar os desafios da gestão ambiental,com densidade que o capacitasse a peitar ministérios da área da infraestrutura, mas que fosse também forte o bastante para ser um formulador relevante da política ambiental brasileira. Essa realidade temporal justificou a reunião em só órgão de setores outrossim díspares como a Superintendência de Desenvolvimento da Pesca, a Superintendência da Borracha, o IBDF e a SEMA.

O modelo cumpriu seu objetivo, mas começou a ser anacrônico após a criação do Ministério do Meio Ambiente. Com efeito, a partir daí toda a formulação de políticas deveria ter ido para o Ministério, que é a instância representativa da vontade do povo, através do voto concedido ao Governo do dia, cabendo ao IBAMA somente a execução dessas mesmas políticas. Mas o uso do cachimbo entorta a boca e o tamanho e orçamento do órgão, desproporcionalmente maiores do que os do Ministério ao qual está subordinado, criaram uma competição pela formulação, prejudicial à área ambiental no Brasil.

Cabe ao Ministério, e não ao IBAMA nem ao Instituto Chico Mendes, dar o rumo da política ambiental brasileira e, por conseguinte, zelar para que suas autarquias a implementem de forma coordenada e em sintonia. As autarquias, por sua vez, devem ter corpos de funcionários cada vez mais profissionalizados (evitando-se a ocupação exagerada de cargos em DAS por funcionários extra-quadro) e focados na atividade fim, qual seja a implementação das políticas emanadas do MMA. Cabe sim às autarquias suprirem o MMA com subsídios e opiniões acerca de tais políticas, inclusive com a cessão de servidores, mas nunca a usurpação da prerrogativa.

No caso Português, a discrepância é ainda maior. No Brasil, substancial parte das Florestas é de mata nativa, o que lhes confere grande importância como repositórios de biodiversidade. No caso de nosso irmão d´além mar, a mesma máxima não é verdadeira. Ali a maioria da florestas é constituída por eucaliptais e pinheirais e têm grande importância como geradores de emprego e renda para o país. Colocar sua gestão sob a mesma égide, movido pela pressão da Tróica para enxugar as finanças do Estado, embute o risco de drenar recursos da proteção e gestão ambiental (que não dá lucro) para adubar a atividade florestal, buscando assim melhorar o desempenho da economia como um todo.

O barato arrisca sair caro...

 
 

No norte da Europa existe uma pequenina nação cujo nome oficial é “Países Baixos”. Trata-se de um lugar aprazível (ainda que frio), de gente bonita, alto índice de desenvolvimento e um futebol tri-quase campeão do mundo. O nome não é desprovido de razão. Cerca de 20% do seu território estão abaixo do nível do mar, em terras que foram subtraídas aos oceanos por meio de um elaborado sistema de canais e diques.

Ser montanhista na Holanda é mais ou menos como se meter a esquiador no Brasil. É necessário ter grana e disposição para viajar ao estrangeiro. A maioria dos trilheiros flamengos vai aos Alpes, alguns buscam a Ásia, uns poucos se deslocam até o Caribe. Só esses últimos poderão assinar seu nome no livro de cume do ponto mais alto de seu próprio país. Isso mesmo, o ponto culminante do Reino dos Países Baixos fica em uma ilha das Caraíbas, mais precisamente em Saba, que juntamente com Santo Eustáquio e São Martinho forma um dos dois conjuntos de territórios neerlandeses na América, conhecido como “3S” (o outro conjunto é formado pela tríade Aruba, Bonaire e Curaçao: o ABC.

E os sabões (ou seriam os sabidos?) não se fazem de rogados. Transformaram esse pico em um dos maiores atrativos da ilha. Aliás, não somente o o Monte Scenery e os seus 877 metros de altitude, mas praticamente toda a rica natureza de Saba, acima e abaixo d´água, é hoje a principal provedora local de emprego e randa.

Saba é uma ilhota vulcânica de apenas 13 km² e 1.500 habitantes. A parte saborosa que está acima do nível do mar é o topo de um enorme vulcão adormecido, mas ainda jovem. Ainda não houve tempo para que a ação erosiva dos elementos esculpisse nele praias e vales profundos. Saba caracteriza-se pelas suas formas abruptas. Ali a terra encontra-se com o mar em falésias de até 100 metros altura. Há escassez de água doce corrente e poucas áreas planas onde seja possível arar ou construir habitações. Grande parte da ilha é formada por encostas que, em sua maioria, têm até 60º de declive.

Por isso mesmo tudo é difícil em Saba. A sua geografia impôs-lhe um processo de desenvolvimento muito mais vagaroso que o do mundo em geral. Sem rios que possibilitassem a construção de barragens ou grandes espaços para a edificação de uma usina térmica, Saba teve que esperar até a década de 1960 para poder iluminar suas casas e escritórios com luz elétrica, mesmo assim apenas durante a noite. Somente em 1970, a eletricidade passou a ser fornecida 24h por dia.

A primeira e única rodovia do território, conhecida localmente como “A Estrada Impossível” só foi construída em 1943. Até então considerava-se fora de questão conectar o norte e o sul de Saba com uma via carroçável. Apesar disso, como o atracadouro da ilha é muito pequeno e bastante suscetível a qualquer mar um pouco mais revolto, ainda demorou mais quatro anos até que o primeiro carro desembarcasse na ilha, o que só ocorreu em 1947.

Já, o primeiro avião pousou em 1959. O aeroporto local, cuja pista tem curtos 400 metros de extensão, é o menor aeródromo comercial do mundo (veja aqui ou aqui). Aterrissar em Saba é a primeira aventura de quem visita a ilha. Da janela da aeronave é impossível ficar calmo. Ao leigo parece que, na pior das hipóteses, o avião vai se espatifar contra os contrafortes rochosos sabáticos. No melhor dos casos, o passageiro prepara-se para nadar, pois parece impossível que o avião consiga terminar o pouso dentro da pista, sem acabar dentro d´água.

Embora Saba tenha sido avistada por Cristóvão Colombo em 1493 e, como tal, incorporada ao império espanhol, sua colonização só começou em 1640, quando a Holanda, então em guerra contra Madrid, enviou um punhado de agricultores à ilha.

Daquele ano até até a década de 1920, todos os gêneros importados e exportados eram transportados por trabalhadores do cais, no nível do mar, até as pequenas vilas na parte alta de Saba, por trilhas íngremes e escorregadias. Em 1925, o governo introduziu jegues cujo lombo passou a fazer essa tarefa árdua. Hoje esse complexo de 14 trilhas abertas pelos colonos desde o princípio da ocupação européia ainda é usado como meio de ligação entre os diversos pontos de Saba, formando uma rede viária sui generis. Com a criação da Saba Conservation Foundation, em 1987, essas picadas históricas foram recuperadas com recursos doados pelo WWF da Suíça. Hoje, as trilhas estão em estado impecável, pois sua manuntenção é assegurada por um pedágio de US$ 3, pagos pelos turistas para percorrê-las. Os caminhos percorrem a totalidade de Saba e são uma marca registrada da Ilha, cujo relevo proporciona vistas de tirar o fôlego (infelizmente vou ficar devendo fotografias ao leitor, pois perdi minha câmera com as fotos da parte terrestre dessa viagem).

Trilhar os caminhos sabichões é um dos grandes prazeres da ilha. Embora seja pequena, Saba abriga 60 espécies de pássaros e uma espécie endêmica de lagarto, o anole (Anolis sabanus) além de várias espécies de fauna e flora endêmicas do Caribe. Diferentemente do arquipélago “ABC” que é muito seco, o “3S” caracteriza-se por uma vegetação luxuriante e com grande bio-diversidade, ainda que seriamente impactada por uma profusão de exóticas invasoras, introduzidas pelos colonizadores.

Enquanto a Saba Conservation Foundation se esforça para lidar com o impacto das espécies exóticas, há uma parte do território onde sua presença ainda não se faz sentir. Trata-se do Parque Nacional Muriel Thissell, que tem 43 hectares doados em 1998 pela companhia mineradora McNish Sulphur, antiga proprietária do pedaço de terra. A empresa adquiriu aquela parcela da ilha em 1875 para extrair enxofre de suas encostas, mas a dificuldade de transporte do minério logo tornou o empreendimento pouco rentável, e a extração foi abandonada em 1915. Embora pequeno, o Parque abriga em bom estado de conservação todos os seis tipos de vegetação que ocorrem naturalmente em Saba e merece uma visita.

O Monte Scenery, que afinal é o topo da Holanda, também vale a pena de sua subida. Trata-se de cabritada para gente grande, posto que é bastante íngreme. Mas já foi pior. Até quarenta anos atrás era uma picada erodida e escorregadia. Em 1967, seus trechos mais inclinados foram pavimentados com 1064 degraus. Quem os galga até o alto tem direito a receber um certificado de “Conquista do Cume do Reino da Holanda”, concedido pela Saba Conservation Foundation.

Dito isso tudo, é imperativo avisar que a atração rainha de Saba não está acima do mar, mas abaixo dele. Com efeito o ponto culminante da natureza sábia é seu Parque Nacional Marinho. O Parque Marinho de Saba envolve completamente a ilha, somando uma superfície de 1.300 hectares e uma profundidade máxima de 60 metros. Foi proclamado em 1987. Pesquisadores holandeses indentificaram que Saba tem a maior biodiversidade marinha do Caribe, que ademais de uma míriade de corais grudados a paredões de até 300 metros de profundidade, pináculos e túneis de lava, inclui mais de duzentas espécies de peixes, duas das quais endêmicas. Em um mergulho normal o visitante verá também duas espécies de tartarugas e outras tantas de arraias, além de moréias, barracudas e cinco espécies de tubarões, que incluem o martelo e o tubarão baleia. Como não existem rios permanentes em Saba e nem sequer um mililitro de esgoto é descarregado no mar, a água é muito limpa. A visibilidade costuma exceder os 20 metros, o que torna o mergulho em Saba, a a jóia da coroa local.

Além de ser proibido lançar âncora dentro do Parque (os barcos de mergulho contam com diversas bóias fixas onde podem ser amarrados), os instrutores das duas únicas agências de mergulho locais zelam para que nenhum turista danifique ou toque nos corais.

Mergulhar em Saba, apesar do isolamento da Ilha, é muito seguro. Em 1990, o governo neerlandês doou á Administração do Território uma câmera hiperbárica de recompressão. Além disso, emergências médicas estão bem cobertas. Depois do turismo, a segunda grande fonte de recursos externos da ilha provém de uma faculdade de medicina, ali instalada em 1992 para a ensino curricular dos primeiros cinco semestres a aspirantes a médicos estrangeiros, sobretudo norte-americanos e canadenses. Essa aglomeração de doutores e quase-doutores soma 300 pessoas entre professores e estudantes, o que equivale a um quinto da população sabedoura.

Desde 1993, o Parque Nacional Marinho de Saba alcançou a autosuficiência financeira e não depende mais de nenhum centavo dos cofres governamentais. Os US$ 4 cobrados por cada mergulho recreativo, somados à taxa ambiental de US$ 1 por dia de estada nos hotéis da ilha, aos recursos provenientes da venda de lembranças e camisetas com o logotipo da unidade de conservação e às doações de visitantes e grupos ambientalistas têm sido, desde então, suficientes para sustentar os custos de administração e manejo.

O mergulho começou a ser explorado comercialmente na ilha em 1980. Rapidamente tornou-se um dos principais motores da economia sábada. Com efeito, Saba é hoje considerada um dos principais destinos de turismo subaquático do mundo. Quem visita o território precisa fazer reserva com antecedência pois, somente com mergulhadores, seus poucos hotéis e quinze restaurantes costumam ficar lotados o ano inteiro.

Tanta dependência das riquezas naturais para o bem estar ilhéu, põem a Saba Conservation Foundation sob imensa pressão para bem administrar o meio ambiente local. Além da manutenção das trilhas e do manejo das espécies exóticas terrestres, a Fundação é reponsável pela fiscalização do Parque Marinho, onde coíbe a pesca e a ancoragem ilegais, além de patrocinar pesquisas, censos populacionais das espécies e de monitorar a temperatura da água e a saúde dos corais. No momento, a maior preocupação de seus funcionários é com o Peixe Leão Vermelho do indo-pacífico (Pterois volitans).

Desde 2010 o “Lion Fish”, nome pelo qual o peixe é conhecido localmente, começou a aparecer nas águas do Caribe. Acredita-se que tenha vindo junto com o lastro de navios provenientes de portos do Oceano Pacífico. Primeiramente o peixe foi observado na Flórida, mas logo começou a descer. Ainda em 2010 chegou às costas das Bahamas, de Cuba e da República Dominicana e, no início desse ano, sem ser convidado, adentrou o Parque Marinho de Saba.

Quando atingem a idade adulta os peixes leão não têm predadores nas águas caribenhas. Por outro lado, essa espécie exótica se alimenta de larvas e espécimes jovens de peixes nativos, cujo habitat é o ambiente coralíneo . Sua voracidade é impressionante. Por isso mesmo representa séria ameaça à sobrevivência de algumas espécies locais.

Todos os meses a fêmea do peixe-leão expele até 30 mil ovos, que são carregados pelas correntes marítimas, causando a rápida expansão do território dessa espécie. Em Saba há um grande esforço para evitar a proliferação desse novo e indesejado habitante. Além de criar uma equipe de guardas-parques mergulhadores especialmente focados na tarefa de encontrar e eliminar todos os peixes-leão existentes no parque, o governo forneceu arpões de ar comprimido para que os mergulhadores e dive-masters da ilha também participem nesse hercúleo esforço de pesca. Assim que um desses peixes é localizado, imediatamente Governo e emprseas de mergulho somam esforços para fisgá-lo.Não há dia sem que dois ou três deles sejam retirados das águas sabinas.

Não se trata de uma atitude preconceituosa mas, considerando que na ilha a preservação da biodiversidade se confunde com a geração de emprego e renda, ninguém quer que o leão passe de rei dos animais à rainha de Sabah.


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Com participação de Sandra e Ivan Amaral
 
O café da manhã é tomado na varanda do abrigo de Overseers. A luz do sol, ainda baixo, tinge o topo da montanha de uma coloração alaranjada e dá à fina bruma que cobre as águas das represas de Woodhead e Helly-Hutchinson uma tonalidade mágica.

É nosso último dia de Hoerikwaggo. O trajeto oficial recomenda a descida pelo bondinho ou pela Platerklip Gorge. A infraestrutura do Parque, porém, permite explorar uma diversidade de outras vias. Uma opção tentadora é baixar pela Ravina do Esqueleto, também conhecida como Caminho de Smuts. Coberto por floresta de galeria, esse é um dos acessos mais bonitos à Mesa. Se escolhessemos prosseguir por ali, poderíamos visitar o Jardim Botânico de Kirstenbosh, dormir em alguma pousada nas redondezas e depois seguir caminho pelo Contour Path, uma trilha que, como o nome diz, contorna a montanha inteira  à meia encosta sempre acompanhando a linha de cota. Essa escolha, entretanto, implicaria em trilhar mais dois dias, tempo de que não dispúnhamos.

Elegemos subir em diagonal pelo Vale do Eco até Mac Lear´s Beacon que, com 1.088 metros de altitude, é o ponto culminante da Península do Cabo. Dali, avançamos junto ao paredão frontal da mesa, mesmo à beira do precipício até a estação do bondinho. À medida que nos aproximamos a diferença no manejo chama atenção. Saímos, ontem pela manhã, de uma área intangível, pratricamente sem sinalização e com um manejo mínimo, apenas visando a manter o caminho desobstruído e livre de erosões. Ao chegarmos ao topo da Montanha, começamos a nos deparar com sinalização frequente.

Todos os anos a Montanha recebe cerca de 2 milhões de excursionistas, boa parte deles de fora da cidade. Muita gente sobe suas encostas sem o preparo nem o equipamento adequados. Isso em uma cidade onde o clima pode mudar radicalmente em menos de uma hora, causando quedas bruscas de temperatura e virando o tempo de ensolarado para completamente nublado. Não são poucos os aventureiros que precisam ser resgatados e cerca de uma dúzia de pessoas perde a vida na Mesa a cada ano.

Não se pode dizer que sejam desavisados. Nos acessos às subidas sobram placas alertando para as agruras da montanha e para a imprevisibilidade do clima. Lá em cima, como bem notamos, muitas placas de sinalização reflexiva mostram o caminho aos excursionistas. Para quem fizer o percurso inverso ao nosso, saindo da base da Montanha, no Centro da Cidade, ou da estação superior do bondinho, o manejo foi pensado de modo a desestimular grandes voos.

Junto à estação há um espaço de cerca de cem hectares com trilhas dotadas de corrimão, superfície concretada para cadeirantes e sinalização abundante. A partir daí, até MacLear´s Beacon e às represas, acabam-se os corrimãos, mas a sinalização ainda é abundante. Daí para frente, a sinalização induz o excursionista de primeira viagem a voltar em direção ao bondinho por trajetos diferentes. Se ele insistir em avançar, perceberá que a sinalização começa a rarear. Isto é feito com o propósito de desencorajar excursionistas menos experientes a continuar. Passado um espaço de cerca de meia hora a partir do ponto em que a sinalização começa a rarear, ela reaparece com o mesmo esmero e cuidado de antes (exceto na área intangível de Orange Kloof).

Voltando ao nosso périplo. Paramos por meia hora para tomar um café, enquanto contemplamos, do Restaurante do Bondinho, a magnífica vista. Daí, escolhemos baixar pela trilha de India-Venster. É uma rota exposta e um pouco perigosa, que deve ser evitada por trilheiros inexperientes. Seu nível de exposição, por outro lado, proporciona aos excursionistas vistas sem rival em nenhum outro acesso à Mesa.

Demoramos cerca de uma hora até a base da Montanha. Andamos mais uns cinco minutos no asfalto e enfiamos por outra trilhinha em direção à Lion´s Head. Se quiséssemos poderíamos evitar essa útima ascensão e seguir direto até o fim da Hoerikwaggo pelo Dorso do Leão. Decidimos que, depois de sete dias de ralação, valia a pena esse derradeiro esforço. Subimos sem pressa, filmando, fotografando e aproveitando os últimos momentos de nossa caminhada.

Chegamos ao cume (669m) com o dia já querendo terminar. Descemos às carreiras. De volta ao Dorso, marchamos meia hora com direito a novas paradas para fotos da cidade e do belo Estádio Green Point erigido para a Copa do Mundo de 2010. Finalmente, chegamos ao Mirante de Signal Hill, onde mais de cem pessoas assistiam ao pôr do sol. Dali, jogamos para baixo e em mais quarenta minutos, chegamos às casas coloridas do bairro histórico de Bo Kaap.

Ao fim tínhamos as pernas cansadas, os pés doloridos, os ombros tensos e a cabeça absolutamente satisfeita. Mal terminamos e já estávamos planejando a próxima trilha.


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Ao chegar em Campinho, Guimarães desviou o cavalo.até a mangedoura. Chovia muito e fazia um frio úmido, desagradável. Entrou na estalagem e pediu um prato de sopa quente. Sorveu aos golinhos enquanto meditava. Lá fora a chuva engrossou saltou de garoa para temporal. Os pingos começaram a cair gordos. Rapidamente a estrada foi tomada por uma torrente marrom que fluia como se fosse um rio.

Terminado o caldo, Guimarães solicitou um copo de parati e foi aboletar-se junto ao fogo que crepitava na cozinha. O aguaceiro não estiava. Por fim decidiu pernoitar ali mesmo. Pagou uns trocados e estendeu sua rede o mais próximo da lareira que conseguiu.

Despertou com o raiar do dia. Tomou um café fumegante em que o sabor do açúcar predominava sobre o do líquido. Arreiou a montaria e seguiu viagem. Chegou em Guaratiba com o sol já baixo. Encontrou o Major sentado na varanda, concentrado nas páginas de um livro estrangeiro. Esperou até que o homem interrompesse a leitura e o mandasse subir as escadas que separavam o sobrado do terreiro de secagem de café.

-“Guimarães, que bons o ventos o trazem?”

-“Boas tardes Sr. major, venho a mando do Sr. Barão. Trago uma mensagem para Vossa Mercê..”

Archer abriu o envelope lacrado e começou a ler a caligrafia redonda de Couto Ferraz. Era uma carta breve, quase telegráfica. Dizia assim: “Processo de desapropriação das primeiras fazendas concluído. Decreto de criação será publicado em breve. Vsa. Senhoria será nomeado administrador. Favor vir à Corte à brevidade possível”.

Archer amassou o papel da missiva enquanto contemplava o horizonte. Não havia chovido desde o meio dia, mas agora nuvens negras, novamente assomavam para os lados de Itaguaí. Mais um pé d´água anunciava-se próximo. Ficou ali inerte sem saber se gostava ou não da notícia. Sua vida ia mudar muito, seria para melhor? Afinal deu-se conta que deixara Guimarães esperando de pé uma resposta. Gritou por uma escrava. Mandou que lhe arranjassem quarto e convidou-o a partilhar sua mesa ao jantar.

Partiu para o Rio de Janeiro duas semanas depois. Quando chegou, foi logo ter com o Barão em sua residência na cidade. Couto Ferraz o recebeu com um sorriso largo e um abraço apertado. Eram amigos de longa data. Conversaram ao redor de uma garrafa de vinho português. Não houve rodeios, o anfitrião foi direto ao assunto:

“O Imperador finalmente decidiu comprar a briga para valer. Vai desapropriar tantas quintas quanto forem necessárias. Está decidido a resolver o problema da seca na cidade. Vai incomodar muita gente poderosa. Não há espaço para fracassos. Sua Alteza quer vê-lo à frente dos trabalhos de reflorestamento.

Archer respirou fundo. Materializava-se ali a oportunidade de colocar em prática os pensamentos que desenvolvera ao longo dos últimos anos, baseados nas leituras que fizera dos pensamentos em voga nos Estados Unidos e na Europa. Mesmo assim hesitava, pois sabia tratar-se de terreno complicado. Não bastasse o tamanho do trabalho de revegetar uma montanha inteira, ainda teria pela frente um poderoso exército de inimigos O reflorestamento havia de ser feito em fazendas pertencentes à nobreza: a fina flor da Corte. Depois que a praga da borbotelinha abatera-se sobre os cafezais, a maioria estava inaproveitável como empreendimento, econômico, mas as propriedades ainda eram utilizadas para lazer. Sobretudo no verão, quando o calor no nível do mar tornava-se insuportável e insalubre, grassando todo tipo de doenças como o cólera, toda a gente de posses subia à Tijuca. A própria família real tinha o costume de passar alguns dias no palacete Itamaraty. Era tarefa dura, mas irrecusável. Tinha o apoio do ministro mais prestigiado do Império e do próprio monarca. Archer disse sim.

O que o leitor leu acima é ficção, Não chega a ser pura obra da cabeça do autor, mas é uma história inventada a partir de documentos e relatos de época que chegaram aos nossos tempos. Poderiamos talvez chamar de arremedo de romance histórico. Livro, aliás, que seria muito bem vindo neste ano em que comemoramos o sesquicentenário da Floresta da Tijuca e seu reflorestamento, que talvez seja o feito mais épico do ambientalismo brasileiro.

A história desse reflorestamento, começa, na verdade quase meio século antes, com o desmatamento da Tijuca. Como resultado do rearranjo internacional de forças, advindo da ascenção de Napoleão ao trono da França, Portugal ficou espremido entre seu tradicional aliado, a Inglaterra, e as exigências do Bloqueio Continental imposto pelos franceses. Enquanto pôde, o Príncipe Regente D. João fêz uma política neutra; ora agradando a uma, ora a outros. Em fins de 1807, no entanto, seus esforços de não comprometimento com nenhum dos lados acabaram por provocar profunda insatisfação em Napoleão, que ordenou ao General Junot a invasão de Portugal. Para não cair prisioneiro dos franceses, só restou a D.João rumar em direção ao Brasil.

Aqui chegou em princípios de 1808, cercado de nobres e cortesãos. Foi um caos completo no Rio de Janeiro, que não estava preparado para receber tanta gente de uma só vez.

Logo depois de instalado, um dos primeiros atos do futuro Rei de Portugal foi mandar abrir os portos do país às nações amigas, permitindo aos estrangeiros fixar residência no Brasil; o que até então era vedado. Desde então, a Floresta da Tijuca nunca mais foi a mesma.

Logo na primeira leva, acompanhando a Família Real, vieram os marinheiros da frota inglesa que a escoltava, os representantes diplomáticos e os comerciantes estrangeiros que viviam em Lisboa por ocasião da invasão de Portugal. Em seguida, chegaram nobres anti-bonapartistas e, depois, fazendeiros franceses expulsos do Caribe espanhol e do Haiti, então sublevado pelo general-escravo Toussaint de L’Ouverture.

Nessa ocasião, o café já era importante para a agricultura brasileira. Desde 1779, o Rio tornara-se centro exportador desse produto cuja importância não parou de crescer nos anos subseqüentes. Em 1796, foram embarcadas com destino ao exterior 8.495 arrobas do produto. Dez anos mais tarde, em 1806, a quantidade decuplicou, atingindo a marca de 82.245 arrobas. Seu cultivo era feito sobretudo em Santa Teresa, no Andaraí (atual bairro da Tijuca) e no Mendanha.

Entre os imigrantes franceses vindos nessa primeira leva, destacava-se um jovem de 24 anos, o Conde Aymar Marie Jacques Gestas que chegou ao Rio em 1810, com algum dinheiro para investir. Gestas deixou-se entusiasmar por convincentes histórias sobre o potencial do café. Ao procurar terras para iniciar uma plantação, entretanto, encontrou um mercado imobiliário inflacionado pela explosão populacional sofrida no Rio com a chegada da Família Real e seu séquito. Não havia moradia para todos, muitas residências de brasileiros haviam sido requisitadas para atender as necessidades da Corte e galpões e quartéis foram erguidos às pressas para a tropa que acompanhava a realeza. Era a época do infame “PR”, iniciais de Príncipe Regente, que eram constantemente afixadas nas portas das casas de brasileiros e que logo ficaram conhecidas, pelos cariocas, como “Ponha-se na Rua”.

O valor de um terreno na cidade, então restrita aos atuais bairros do Centro, Glória e Catete, ou mesmo nas áreas próximas era, àquela altura, proibitivo. Gestas foi, então, aconselhado a procurar os herdeiros do Visconde de Asseca, proprietário de toda a área onde está hoje a Floresta da Tijuca, com quem fez negócio. Ainda no ano de 1810, o Conde se instalou em um terreno de 11 alqueires, logo acima da Cascatinha.

Tudo estava por fazer, não havia nem mesmo estrada, apenas picadas íngremes e mal cuidadas. Gestas não desanimou. Construiu imediatamente uma formosa casa, dominando majestoso mirante, a qual denominou Boa Vista, nome que, ao longo dos tempos, iria batizar o bairro inteiro.

Sua fazenda virou modelo para os brasileiros. Aproveitando-se do clima ameno para os padrões cariocas, Gestas introduziu na Boa Vista frutos europeus como maçãs, pêras, uvas e morangos. Com estes últimos, misturados a um creme de leite tirado de vacas especialmente importadas da França, o Conde conquistou o apetite e a amizade de D. Pedro I, que tornou-se seu hóspede freqüente.

Da casa de Gestas, após refestelar-se, o Imperador tinha o hábito de subtrair os itens de decoração que lhe agradassem, ao que a Imperatriz, tão logo tomava ciência, vexada, mandava devolver com uma nota de desculpas.

Aberto o caminho, diversos outros franceses o percorreram. O padrão era comprar, desmatar, vender a madeira como carvão vegetal e plantar café no terreno “limpo”. Escassos anos depois, em 1813, um viajante inglês, John Luccok, relatou que em um piscar de olhos muito da Floresta se convertera em carvão para que seu solo pudesse ser aproveitado para a produção do café. Outros viajantes contam que as nuvens de fuligem das queimadas na Tijuca chegavam a encobrir, por vezes, o sol do meio dia.

A Tijuca é loteada com rapidez impressionante. São sobretudo europeus, expatriados das guerras bonapartistas. Ao contrário de Gestas, que era realista, alguns de seus companheiros mais famosos como Mocke e o General Hogendorp, este último morador da encosta do Corcovado, haviam ocupado posições de destaque nos exércitos de Napoleão. Havia lugar para todas as correntes ideológicas na Tijuca, que foi retalhada em pequenas e médias propriedades, cuja produção oscilava em média, entre cinco e dez mil pés de café cada uma.

Um desses novos fazendeiros chegou ao Rio em 1816, na Missão Artística Francesa, chefiada por Lebreton. Trata-se do pintor Nicolas Antoine Taunay, que escolheu ser vizinho de Gestas e comprou um terreno ao pé da Cascatinha. Ali, desenvolveu seu trabalho artístico ao tempo em que tocou uma pequena lavoura de café.

Em menos de dez anos, a fúria cafeeira transbordou a Floresta e se espalhou por todo o resto do atual Parque Nacional da Tijuca. A Serra da Carioca também foi logo devastada. Apenas sua parte superior foi, de certa forma, menos atingida, em função de abrigar as nascentes do Rio Carioca que, como vimos anteriormente, já naquela época abastecia o Rio de Janeiro. Em função disso, em 1817, foi editado um Decreto sustando todo corte ou derrubada de mata em torno dos mananciais que abasteciam o Aqueduto. A Lei, contudo não compreendia o Cosme Velho, onde instalou-se o General Hogendorp, iniciando ali pequena plantação. Mais acima será encontrada a lavoura do Dr. Silvestre.

Nas encostas da Vista Chinesa também se desmata com fins de agricultura. Experimenta-se ali a plantação de chá, com trabalhadores chineses trazidos de Macau, em 1812, pelo Conde de Linhares.

Era um sonho do Príncipe Regente transformar o Brasil em grande produtor e exportador da erva asiática, então com valor de mercado aparentemente mais promissor do que o café. D. João chegou a acalentar a esperança de que o Rio um dia pudesse vir a ser o maior fornecedor mundial de chá para o mercado europeu.

Sob a supervisão do Jardim Botânico, fundado em 1808 com o objetivo de ser uma instituição voltada para a aclimação de espécies exóticas no Brasil, foram plantados naquela encosta do Parque cerca de seis mil pés de chá, colhido em três safras anuais.

Diversos relatos dessa malograda experiência chegaram aos nossos dias, já que o Jardim Botânico era um dos passeios preferidos dos estrangeiros na Corte. Ainda em 1817, Spix e Von Martius mostram pouco entusiasmo com suas chances de sucesso pois, apesar da bela aparência, o gosto do chá carioca lhes tinha parecido detestável. Ainda assim, em 1822, a plantação ia de vento em pôpa como podemos comprovar pelo famoso quadro de Rugendas, onde estão retratados chineses em plena faina de plantar.

O chá, todavia, não vingou. Alguns autores atribuem o fracasso à má qualidade da mão de obra proveniente da China, outros à pouca competitividade do produto face à já estabelecida produção asiática. Seja como for, por volta de 1828 o chá começou a dar sinais de esgotamento no Rio. Naquele ano, o reverendo Walsh visitou o Jardim Botânico e viu apenas arbustos raquíticos, apodrecidos e cobertos de musgo.

Embora contasse com o patrocínio Real, em nenhum momento o chá foi absoluto na Serra da Carioca. Nem mesmo durante os experimentos feitos pelos chineses junto ao Jardim Botânico. Ali ao lado, no vale do Rio Cabeça, nos relata Maria Graham, preceptora dos filhos de D. Pedro I, que já haviam “extensos cafezais, intercalados por numerosas laranjeiras, limoeiros e outros arbustos que parecem antes uma variedade das matas do que a mescla de terreno cultivado com terreno selvagem...”.

A grande revolução da cultura do café, contudo, Não se deu nem na Floresta da Tijuca, nem nas encostas da Serra da Carioca mas na Gávea Pequena, onde o conceito de pequenas plantações com no máximo vinte mil pés de café, foi substituído pelo de grandes plantações dotadas de métodos modernos de colheita e beneficiamento, inclusive com o uso de maquinário. Ali se instalaram Louis François Lecesne e Charles Alexander van Mocke. O primeiro, experimentado cafeicultor, expulso de Cuba por conta de sua nacionalidade francesa quando da tomada da Espanha por Napoleão em 1801, chegou ao Rio após alguns anos tentando a vida em diversas partes do mundo. O segundo, médico do exército bonapartista, com alguma experiência em procedimentos modernos de agricultura, sobretudo adubamento.

Lecesne apostava tanto no futuro promissor do café, que recusou terras e dinheiro a ele ofertados por D. João VI, desde que se dedicasse ao cultivo do trigo. Montou sociedade com o Duque de Luxemburgo e, a partir de 1817, começou a produzir café na Gávea Pequena em propriedade recém adquirida, a Fazenda São Luiz. Trabalhou rápido. Guilherme von Theremin esteve na propriedade em 1818, quando a retratou a lápis. No desenho, pode-se ver que praticamente todo o vale ao redor da sede da fazenda já estava destituído de sua mata original e coalhado de cafeeiros. Também nessa época, visitaram a propriedade de Lecesne, em ocasiões separadas, os naturalistas Spix e von Martius e o almirante russo Golovnin. Seus relatos coincidem em calcular que o cafezal alcançava perto de 50 mil pés.

Mocke chegou à Gávea Pequena um ano depois de seu vizinho, em 1818. Possuidor de algum capital, comprou dezenas de escravos e rapidamente modificou a aparência de suas terras. Preparou e adubou o solo, canalizou rios, retificou encostas, escavando patamares para o plantio do café, e introduziu avanços tecnológicos no processo produtivo. Em sua fazenda havia uma despolpadora mecânica e uma máquina de polir café movidas por uma roda d’água. Além disso, contrariamente à tradição brasileira, no cafezal de Mocke passou-se a colher os grãos antes do apodrecimento da polpa, colocando-os em seguida para secar por cerca de quatro semanas em plataformas de até 900 m2, o que aumentou a produtividade.

Em seis anos a Fazenda Nassau já tinha 100 mil cafeeiros plantados e era considerada a melhor e mais moderna do Brasil. Ali, colhia-se três safras anuais.

Ernst Ebel, um viajante que visitou Mocke em 1824, nos deixou relato informando que, fora o café, a fazenda produzia comercialmente diversas qualidades de legumes, entre os quais destacavam-se aspargos, couves-flores, repolhos e bananas, além de mandioca e feijão para consumo da escravaria.

Mocke faleceu em 1828, ano em que Emeric Essex Vidal pintou a aquarela Nassau Coffe Plantation in the Happy Valley of Tijuca, onde pode-se ver que não apenas o vale da Gávea Pequena mas também as encostas do Morro do Cochrane encontravam-se àquela altura completamente desprovidas da Mata Atlântica e tomadas por infindáveis pés de café.

Após a morte do holandês, a fazenda Nassau continuou produzindo sob a supervisão de sua esposa, a inglesa Henriette e, durante muitos anos, permaneceu como uma referência para a cidade. Em 1872, com o reflorestamento já em curso há mais de dez anos, apesar de decadente e improdutiva, a propriedade de Mocke ainda era importante o suficiente para merecer inserção no romance de José de Alencar, Sonhos D’Ouro:

“os olhos desafogados do arvoredo que vestia a orla do caminho se desdobraram ávidos pelos horizontes abertos, (em oposição à frondosa mata que agora ali existe) recreando-se com a paisagem de várias chácaras derramadas no vale, ou alteadas pelas assomadas das fronteiras colinas. Entre essas notam-se principalmente duas, a do Mocke, por ser das residências mais antigas que se estabeleceram nesse aprazível sítio, e a do Dr. Cóchrane.”

Ainda hoje, impressiona a magnitude do emprendimento que foi a fazenda Nassau. Suas ruínas grandiosas incluem os remanescentes de um moinho, das canalizações e retificações dos rios e córregos, de alguns trechos de calçamentos dos caminhos, de uma queijaria, de plataformas para secagem de café, de habitações comunais para os escravos, de uma mansão de dois andares e de dois outros edifícios que lhe são contíguos.

Muito breve, também o topo da Pedra Bonita, até aquela data incólume, seria completamente devastado. O naturalista britânico George Gardner de visita ao Rio, em 1836, deixou registrado no livro Viagem ao Interior do Brasil ter visto a derrubada de toda sua floresta para uso como carvão vegetal em apenas um ano.

De fato, quando Gardner nos visitou, praticamente todo o atual Parque Nacional da Tijuca já estava tomado por lavouras. Nas proximidades do Alto da Boa Vista, havia os Beaurepaire-Rohan, os Scey-Montbéliard, Marie Delvel e Guilherme Midosi, além de vários brasileiros; no vale dos Ciganos também eram inúmeros proprietários, entre os quais sobressaíam a Fazenda Cantagalo de Ramalho Ortigão, cujas ruínas subsistem majestosas até hoje no meio da Floresta e o Engenho da Serra, do Coronel Thedim Siqueira; no Andaraí Pequeno estava a fazenda Murumbi do inglês John Rudge, no sopé da Pedra da Gávea havia o sítio Sorimã de Aldo Bonardi e, na vertente Jacarepaguá, destacavam-se o sítio do Sertão, pertencente a Bartholomeu José de Campos e a Fazenda do Quitite, pujante propriedade que a partir de 1853 foi adquirida por Marcos Dellesderrier.

Hildebrant nos deixou excelentes quadros retratando esta última fazenda que, posteriormente, chegou a pertencer ao Presidente João Goulart. O caminho em pé de moleque que a ligava ao Alto da Boa Vista ainda existe parcialmente intacto.

Os resultados dessa ocupação tão intensa por médias e pequenas propriedades são óbvios ainda hoje ao excursionista do Parque. Ali não se caminha meia hora sem deparar com a ruína de uma construção, os restos de uma trilha histórica ou a planura de um patamar escavado em alguma encosta para a plantação.

Os mesmos europeus que revolucionaram o cultivo do café na Tijuca, trouxeram ao Rio de Janeiro, na mesma época, um hábito que iria marcar a história da Floresta e do Parque da Tijuca até nossos dias.

Eram cientistas e botânicos de passagem pela cidade, tais como Burmeister, Spix, von Martius e Darwin, ávidos de ver um pouco da Mata Atlântica, que subiam ao Corcovado ou aos píncaros da Tijuca, onde a inclinação não permitira o café chegar; eram aquarelistas e pintores em busca de belas paisagens a retratar; ou, mais comumente, eram apenas cidadãos comuns em busca de lazer. Uma alegre cavalgada, um apetitoso pic-nic, uma visita às fazendas onde era possível comer frutas européias e uma fuga das agruras do clima tórrido da baixada Carioca compunham esse passeio que, a partir da chegada da Família Real, incorporou-se à rotina do Rio de Janeiro. Raro é o relato de viajante europeu de passagem pelo Rio na primeira metade do século XIX que não inclui uma visita à Tijuca.

Até mesmo a Família Imperial passeava. D.Pedro I era assíduo visitante de Gestas e esteve algumas vezes com Mocke. Sua Esposa, a futura Imperatriz Leopoldina, escandalizava o Rio em longas cavalgadas quando, vestida de amazona, recusava o silhão feminino e montava como homem. A Princesa ia amiúde à Tijuca fugir dos mosquitos e do calor tórrido, únicos fatores que a impediam de considerar o Rio o paraíso na Terra. Um dos seus destinos favoritos era o Jardim dos Manacás, onde reunia em agradáveis pic-nics as damas da nobreza luso-brasileira.

Já, D. Pedro II gostava de ir à Mesa do Imperador e, mais para o fim do Século XIX, ao próprio Alto da Boa Vista, onde se hospedava seguidamente no Palacete Itamaraty— ainda hoje de pé— o que acabou por valer à sua proprietária, como prova do agradecimento de Sua Majestade, o título de Viscondessa.

No outro extremo do Parque, ainda em 1824, uma trilha foi aberta até o Corcovado por D. Pedro I em pessoa, tendo logo se tornado o grande passeio da Corte. Desde então e até hoje, o Corcovado tem sido um dos pontos turísticos mais visitados do Brasil. Os próprios Imperadores faziam questão de recomendar a empreitada a quem estivesse de visita à cidade. O diplomata francês Gobineau, chegou a reclamar da insistência de D. Pedro II para que lá fosse.

Quem subiu, não se arrependeu. Seria possível encher um livro inteiro com citações de regalo dos turistas. Um dos primeiros e mais famosos a fazê-lo, Darwin, ali esteve em 1832:

“ Nessa elevação (o Corcovado) a paisagem enfeita-se com tintas tão brilhantes, as formas e as cores sobrepujam tanto em grandeza tudo o que o europeu viu em suas terras, que lhe faltam expressões para descrever o que sente”

Durante muitos anos, subir ao Corcovado aos domingos tornou-se hábito. As senhoras, por vezes paravam pelo caminho a lanchar em Dois Irmãos, na altura da rua Almirante Alexandrino, enquanto os homens prosseguiam até o topo do morro. Tal rotina só foi interrompida durante breve período, quando a área andou infestada de bandidos e desertores do Exército, ademais de servir como refúgio para um quilombo, mas a procura pelo pico era tanta que a polícia se sentiu pressionada a resolver o problema, o que fêz, reabrindo a trilha em 1829.

Em pouco tempo, os passeios começaram a ser feitos cada vez mais sob o sol e a vista desabrida revelava sempre mais desolação e abandono. O café cedo cobrou seu preço ao Rio de Janeiro. Os mananciais assorearam-se e, sem ter as copas das ávores para amortecer a queda dos pingos de chuva, a erosão do solo aumentou muito, carreando barro para os córregos e rios e fazendo chegar aos chafarizes na cidade uma água cada vez mais turva, cheia de impurezas e menos potável.

Já em 1824, uma forte seca atingiu o Rio. Repetiram-se problemas de abastecimento d’água em 1829, ensejando a edição de leis para obstar o corte de árvores em 1830, 1833 e 1834. As duas últimas sancionadas no decorrer da sede provocada pela estiagem de 1833. Não adiantou. Em 1844, mais uma seca causaria transtornos à população. O desmatamento da Tijuca era sempre apresentado como vilão e a solução apontada por todos era o reflorestamento das cabeceiras dos rios.

Não havia, contudo, dinheiro suficiente para desapropriar as fazendas de café, cujo valor de mercado era proibitivo, até que, em 1843, houve um mal que veio para o bem. Naquele ano, a borboletinha, uma praga fortíssima, tomou conta dos cafezais da Tijuca, destruindo plantações inteiras e levando muitos fazendeiros à falência.

Talvez a desapropriação das primeiras plantações para fins de reflorestamento houvesse ocorrido já naquele momento, não fosse uma séria epidemia de febre amarela que grassou no Rio, ceifando centenas de vidas e acarretando a fuga das classes abastadas para as altitudes mais saudáveis da Tijuca nos meses de verão. Essa tendência fêz com que muitas das antigas fazendas fossem retalhadas em chácaras e vendidas a bom preço para compradores pertencentes à mais estratificada elite imperial.

Acabariam por adquirir sítios na Tijuca nesse período, ou pouco depois, gente da estirpe do Barão de Mauá, do Conde de Bonfim, do Barão de Itamaraty e do Dr. Cochrane. Com eles, muda o perfil da propriedade, que diminui de tamanho e muda a rotina da Tijuca, que passa a ser encarada como uma grande estação de veraneio. Exarcebam-se os costumes inicialmente lançados pelos europeus. Passa a ser comum encontrar jovens passeando pelas trilhas da Tijuca a cavalo ou a pé. A Mesa do Imperador e a Pedra Bonita impõem-se como destinos de pic-nic à juventude. Se antes era moderno visitar a Tijuca, agora é moda. Não há família de posses ou com alguma aspiração social que não o faça a cada verão. Para os menos abonados, desde 1854 já há o Hotel Bennett.

A demanda parecia ser tanta que houve até quem quizesse investir na melhoria do transporte coletivo entre a Cidade e o Alto da Boa Vista. Em 1857, o doutor Cochrane, sogro do político e romancista José de Alencar, faliu ao tentar implantar uma linha de bondes ligando o Centro ao Alto, via Jardim Botânico. Pelo lado da Tijuca, o bonde chega à rua Conde de Bonfim em 1859 e à Muda em 1870. Sua propaganda nos jornais da Cidade conclamava o cidadão a despender um dia nos climas salubres da montanha, pegando “o primeiro tramway ainda ao raiar da madrugada”.

Enquanto a cidade se esgoelava à mercê da falta d’água e das epidemias, a Tijuca cavalgava de dia e bailava à noite. Raro é o romance da literatura nacional que tenha feito história naquele período sem levar seus personagens à Tijuca. Em Machado, se o Conselheiro Ayres mais tarde será um comensal do Hotel das Paineiras, Capitu e Bentinho elegem a Tijuca para passar a lua de mel. José de Alencar, verdadeiro amante da Floresta, a retrata mais do qualquer outro escriba e dedica um romance inteiro, Sonhos d’Ouro, aos passeios, festas e namoros no Alto da Boa Vista. Em Aluísio de Azevedo, o estudante maranhense Amâncio, personagem principal de Casa de Pensão vai à Tijuca esticar a pândega e Leandro de Oviedo, o genro do Livro de Uma Sogra, reside na Tijuca em uma “deliciosa chácara, com seu cottage ao fundo, na fralda da montanha, escondido entre árvores floríferas e cercado por um jardim de rosas e camélias” onde “livre de qualquer febre...dá magníficos passeios, a cavalo e de carro pela Floresta, à Vista Chinesa à Gávea” pelos “brancos caminhos serpeados entre montanhas de veludo verde; árvores patriarcais, de longas barbas venerandas, em que se engripam e dependuram orquídeas e parasitas; o lago quieto e melancólico, em que as taquaras e samambaias se miram furtivamente, por entre a esparsa e mergulhada cabeleira de algas e nenúfares; a música plangente das águas rebatidas, de cascata em cascata, a sombra amorável e doce das grutas escondidas; tudo isso, todas essas paragens encantadas...Palmira e Leandro seguiam cavalgando emparelhados, a rir e a conversar donairosos, resplendentes e soberbos no orgulho do seu amor”.
 
Foi nesse clima de bailes, cavalgadas, carteado e namoricos que as primeiras desapropriações na Tijuca com fins de reflorestamento ocorreram.
 
Era o ano de 1856, a situação do abastecimento de água na Cidade seguia crítica. Na Tijuca, todas as terras propícias à agricultura estavam tomadas pelo café, ainda que sem a produtividade de outrora. Só restava mata nos topos dos morros e nas encostas demasiadamente inclinadas.
 
Ainda assim, foi necessário que um político de peso de colocasse à frente do processo para que as expropriações ocorressem. Tratava-se de Luís do Couto Ferraz, futuramente Barão e, depois, Visconde do Bom Retiro, agricultor, deputado, ministro de Estado, empresário de relevo, presidente do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura e morador da Floresta da Tijuca. Bom Retiro era um intelectual refinado e amigo pessoal do Imperador. Sem seu empenho pessoal, talvez não tivéssemos hoje o Parque Nacional da Tijuca.
 
À frente do Imperial Instituto, patrocinou a reflexão intelectual entre a elite brasileira acerca da serventia das florestas como mantenedoras dos mananciais, reguladoras do clima, fontes de saber botânico e áreas de lazer. Bom Retiro era um homem sintonizado com o seu tempo. Seguia uma corrente de pensamento em voga na Europa, sobretudo na França e Inglaterra, que estava pondo em questionamento os efeitos deletérios da Revolução Industrial sobre a qualidade de vida. Espalhavam-se, então, parques pelas capitais do mundo civilizado como forma de tornar a vida urbana mais saudável. Na Alemanha, surgia o movimento defensor da identidade cultural germânica, que clamava pela destruição das cidades e pela volta aos campos. É a época de ouro dos paisagistas que remodelam o Bois de Boulogne em Paris e desenham dezenas de novos parques na Inglaterra.
 
A visão é hegemônica entre as classes pensantes e, pela primeira vez na história do homem, trata a natureza como algo mais que um inimigo, um estorvo a ser removido ou apenas um bem econômico. A idéia de que uma floresta é um bem a ser preservado pelo seu valor botânico e por razões estritamente ligadas ao lazer e à recreação são absolutamente novas mas ganham rapidamente força, mesmo fora da Europa.

Nos Estados Unidos, acabam por desembocar, em 1872, no estabelecimento do primeiro Parque Nacional do mundo, Yellowstone. Na Austrália, em 1879, é criado o Royal National Park que, na visão do então Primeiro Ministro da Província da Nova Gales do Sul, John Robertson, era “uma necessidade para que os habitantes de Sydney pudessem escapar das agruras da vida urbana e ter acesso à recreação em um ambiente natural”. É importante notar, entretanto, que as primeiras intervenções nesse parque australiano seriam consideradas sacrilégio em dias atuais. Aterraram-se manguezais para o plantio de gramados e introduziram-se animais exóticos—coelhos, raposas e veados — para que fosse possível ao visitante a visualização da fauna. Outro exemplo interessante é o do Parque Nacional Kruger, na África do Sul, criado no fim do século XIX ao redor de Skukuza, uma pequena vila cuja principal atividade econômica era abrigar turistas em busca da oportunidade de ver em seu habitat natural os Big Five— leão, leopardo, elefante, hipopótamo e rinoceronte.

Ao contrário do que se tem defendido na linha historiográfica tradicional, recente tese da pesquisadora Cláudia Heynemann nos mostra que também a Floresta da Tijuca nasceu com a dupla função de preservar os mananciais e de funcionar como área de lazer para os cariocas, elevando assim a capital do Império à categoria de metrópole civilizada.

Para o próprio Bom Retiro essa idéia estava muito clara, como demonstra Heynemann ao reproduzir relatório do Barão sobre o reflorestamento da Tijuca, naquele momento, já em curso: “(quando estiver concluído o reflorestamento) nossas florestas ocuparão uma área assaz extensa, tornando-se ao mesmo tempo excelentes lugares de recreio e passeio público...”.

Os primeiros anos em que o governo iniciou o processo de indenizações com fins de expropriação foram difíceis. Alguns proprietários resistiram, tentando obstar a tomada de suas terras, ao tempo em que o governo foi acusado pela oposição de estar pagando preço demasiado alto por terras arruinadas. Em meio à controvérsia, sendo dono de mais de um lote na Tijuca, Bom Retiro fêz questão de dar o exemplo, submetendo à desapropriação, em 1859, de um sítio que havia adquirido para residência do filho.

Finalmente, em 1861, é criada a Floresta Nacional da Tijuca, a ser formada por propriedades que o Estado desapropriara mediante indenização, naquela altura, já uma extensão significativa de terras. Percebe-se daí a origem de um nome que se transformará para sempre em toda sorte de confusão para os cariocas. O termo Floresta, quando referente à Tijuca, desde seus primórdios não guarda relação com uma parcela de mata mas com uma unidade administrativa, que era diferente da Floresta das Paineiras ou da Floresta do Andaraí Grande, hoje também partes do Parque Nacional da Tijuca. Novamente, recorremos a Aluísio de Azevedo, que em Livro de Uma Sogra mostra bem que a Floresta da Tijuca, em sua concepção, era uma área bem delimitada que sequer abarcava os terrenos que incluem a Cascatinha: “Realizamos um belo passeio à Floresta da Tijuca,..foi deliciosa a subida até o alto da serra, por entre as vegetações e os penhascos da estrada. Não quisemos nos deter na Cascatinha, e continuamos a subir para a Floresta”.

Também é interessante a passagem do romance Sonhos d’Ouro de José de Alencar, publicado em 1872, no qual podemos ver claramente que o termo Floresta da Tijuca sequer designava uma porção de selva existente, mas sim uma mata a plantar: “ lembrou-se o moço de subir até A Floresta, um dos mais lindos sítios da Tijuca. O nome pomposo do lugar não é por hora mais do que uma promessa; quando porém crescerem as mudas de árvores de lei, que a paciência e inteligente esforço do engenheiro Archer têm alinhado aos milhares pelas encostas, uma selva frondosa cobrirá o largo dorso da montanha onde nascem os ricos mananciais.

Há 145 anos atrás, a bela Floresta da Tijuca que deu origem ao Parque não existia. Em lugar das árvores havia uma centena de pequenas e médias chácaras, algumas para o veraneio das famílias ricas da Corte, outras o retrato da decadência das outrora opulentas plantações de café que transformaram a Tijuca no motor econômico do Império. Hoje, o reflorestamento já deu resultado e ligou em uma só mata as diversas florestas da Tijuca, da Gávea Pequena, do Andaraí, dos Ciganos e das Paineiras. Para o habitante contemporâneo do Rio, ela é uma só, basta olhar para qualquer morro da cidade e ver árvores que pronto: lá está a Floresta da Tijuca. Para os cariocas, tudo é Floresta da Tijuca, a ponto de o site de um dos maiores jornais do Rio de Janeiro afirmar que “Entre os destaques da Floresta da Tijuca estão as Paineiras, o Corcovado, o Mirante Dona Marta....”. Apenas a administração do Parque insiste em achar que a luxuriante Floresta da Tijuca do século XXI segue tendo os acanhados limites da desbastada Floresta da Tijuca de meados do século XIX.

O Decreto de criação da Floresta Nacional da Tijuca, de 1861, também cria a Floresta das Paineiras— naquela época, uma floresta diferente e sem a relação de subordinação administrativa que tem hoje— e determina que ambas sejam reflorestadas. Foram designados para dirigí-las, respectivamente, o major da Guarda Nacional, Manuel Gomes Archer e Tomás Nogueira da Gama.

Interessante é que, na sua origem, o Decreto, no seu artigo 10, dá a solução para o sempre presente problema da gestão do futuro Parque Nacional da Tijuca. Ao determinar que os administradores das Florestas da Tijuca e das Paineiras fossem nomeados pelo Ministério, enquanto os outros empregados deveriam pertencer aos quadros do Município da Corte, o Decreto criou o Parque Nacional da Tijuca tal qual o conhecemos hoje. Inaugurou-se na fonte o regime de Gestão Compartilhada entre o governo central e o poder local, fórmula administrativa de sucesso a qual se retornou em 1999, após anos de turras que resultaram em abandono e decadência do Parque.

A primeira muda do reflorestamento foi plantada em 4 de janeiro de 1862. Daí em diante, o trabalho de Archer foi enormemente facilitado pelo apoio de Bom Retiro no que se refere a sustentação política contra os proprietários locais (um dos descendentes de Taunay chegou a processá-lo) e quanto a recursos financeiros e humanos. Na reconstrução da Floresta, o Major deu preferência a espécies nativas de Mata Atlântica, cujas mudas mandava buscar nas Paineiras, mais bem conservadas que a Tijuca, e em Guaratiba, onde era ele mesmo proprietário da Fazenda Independência. Se encontrou alguma oposição entre os fazendeiros que teimavam em permanecer em terras marcadas para desapropriação, teve a simpatia da burguesia citadina, que via o reflorestamento pelas lentes de Bom Retiro.

Nesse sentido, é paradigmática a doação de mudas de aroeira, pinho e erva mate, trazidas do interior do Paraná, pelo comerciante Bernardo de Oliveira.

O trabalho de reflorestamento foi feito inicialmente com seis escravos da nação, cujos nomes Constantino, Eleutério, Leopoldo, Manuel, Maria e Mateus entraram para a história da ecologia nacional.Com o tempo, porém, cada vez maior era o número de trabalhadores assalariados sob a supervisão do Major, o que o permitiu levar a contento a tarefa dupla de reflorestar os mananciais e de construir uma área de lazer.

Para dar cumprimento a essa segunda missão, Archer escolheu meticulosamente uma pequena diversidade de espécies exóticas pelo critério de seu valor ornamental. Estudou e aprendeu os melhores conceitos de paisagismo da época, refez trilhas e caminhos, procurando embelezá-los com uma mistura de plantas locais e estrangeiras em um arranjo que privilegiava o impacto visual à retilinidade da rota. Onde pôde, substituiu os caminhos coloniais, meras serventias de transporte, por percursos que não levam nada a lugar algum mas são um fim em si mesmos, belos e aprazíveis. Aliás, nesse sentido, deliberadamente contrariou o Decreto de Reflorestamento que determinava o plantio “em linhas paralelas retas entre si, sendo as de uma direção perpendiculares às de outras”. Nas palavras de Escragnole, seu sucessor, reproduzidas por Heynemann, graças a Archer: “as árvores são plantadas promiscuamente e não por grupos, o que tornaria monótono o aspecto da floresta”.

A faina de reflorestamento deu-se de forma paralela a novos processos de desapropriação que, à medida que iam sendo concluídos, aumentavam a área a ser trabalhada pela equipe do Major.

Archer esteve à frente do reflorestamento durante doze difíceis anos, seja por conviver in loco com futuros ex-proprietários, seja por que as promessas de novos recursos humanos e financeiros que lhe faziam nunca fossem cumpridas a contento. De fato, não fosse a amizade pessoal de Bom Retiro com D. Pedro II e o prestígio pessoal do próprio Archer junto ao Imperador, a quem chegou a acompanhar em viagem à Exposição da Filadéfia, o reflorestamento talvez não tivesse tido continuidade.

Embora o número de funcionários à sua disposição tenha sido sempre crescente, o advento da Guerra do Paraguai drenou recursos humanos e materiais aos cofres da nação em cifras jamais igualadas, antes ou depois, na história do Brasil. Naturalmente, esses anos de penúria, de 1865 a 1870, tiveram seus efeitos sobre o orçamento dos trabalhos da Tijuca. Crise que, apesar de geral, muitos historiadores contemporâneos confundem com descaso para com o reflorestamento.

Ainda assim, os avanços de Archer foram impressionantes. Segundo números anotados pessoalmente por ele, ao iniciar sua tarefa havia na Tijuca 16.075 árvores. Seu trabalho adicionou cerca de 80 mil novas mudas, das quais 45.777 vingaram.

Em 1874, Archer é exonerado, o que atualmente, muitos vêem como uma derrota do projeto de recuperação ambiental que dirigia. Na verdade, tratou-se de uma promoção: D. Pedro II o levava para administrar a Quinta Imperial em Petrópolis. Quanto à sua missão na Tijuca, Archer a dá por terminada porque cumprida, dependendo os benéficos resultados do reflorestamento, em suas próprias palavras, “muito mais da ação do tempo do que dos cuidados do homem. Archer não errou, 150 anos depois de plantada a primeira muda do reflorestamento, o tempo agiu sobre o trabalho do homem e legou ao Brasil a melhor floresta urbana do mundo. Cabe a nós agora zelar para que essa Mata espetacular dure pelo menos mais um século e meio.

 


Hoerikwaggo é o nome que os koi koi, primeiros habitantes da África do Sul também conhecidos por bosquímanos em português, davam à Montanha da Mesa em seu idioma nativo. Pouco se sabe, entretanto, da história do morro antes da chegada dos europeus ao Cabo da Boa Esperança. Por isso mesmo, cabe ao Almirante português Antônio de Saldanha o crédito de ser o primeiro homem a antingir seu cume. Também foi Saldanha quem batizou a montanha, de Tábua do Cabo, nome que perdura até hoje.

Desde então, a Montanha da Mesa tem figurado como o principal ícone da África do Sul. Assim como acontece com o Cristo Redentor no Brasil, não há campanha turística ou reportagem sobre o país que consiga contornar a imperiosa necessidade de mostrar seu imponente relevo.

Não é de surpreender portanto que a Montanha funcione como um imã para todos os montanhistas que habitam ou visitam a Cidade do Cabo. Dezoito trilhas sinalizadas ligam o asfalto aos mais de 1.000 metros de altitude do tabuleiro da mesa. O sexto dia da Hoerikwaggo começa pelo menos conhecido e menos utilizado desses acessos. Trata-se da Disa Gorge, que liga o abrigo de Orange Kloof à área das represas da Montanha da Mesa.

Orange Kloof é o último remanescente da Floresta Afromontana no Cabo. Não é uma mata com grande diversidade, pois só conta com 33 espécies de árvores, mas é a única floresta nativa primária da região e sua copa fornece proteção do sol a várias espécies endêmicas de vertebrados. Por isso mesmo, no Plano de Manejo do Parque Nacional da Montanha da Mesa, Orange Kloof foi zoneado como intangível.

Quando a trilha Hoerikwaggo foi planejada, contudo, decidiu-se que seu traçado aproveitaria um caminho utilizado pelos guardas parques para a rotina de fiscalização e, por meio dele, daria aos excursionistas (somente aqueles que estiverem percorrendo a Hoerikwaggo, até um limite máximo de doze pessoas por dia) a oportunidade única de conhecer essa bela floresta. Assim foi feito. A partir do abrigo de Orange Kloof, a trilha sobe em meio à mata em direção à Montanha da Mesa.

Começamos nosso dia um pouco tarde, pois tomamos um belo café da manhã e aproveitamos o aconchego do esplêndio abrigo de Orange Kloof. Quando nos pusemos a caminhar, após hora e meia deixamos a cobertura da floresta e entramos no vale apertado do Disa, onde resolvemos fazer nossa primeira parada para um rápido banho em uma pequenina represa desativada. Daí para a frente, voltamos a subir, subir, subir, subir, sempre com o sol na cabeça, até, depois de cerca de cinco horas de cabritada, chegarmos ao que os sul-africanos chamam de Back Table, a parte posterior da Montanha da Mesa, onde há cinco grandes represas.

 

Os reservatórios d´água da Montanha da Mesa foram construídos no final do século XIX com pedras extraídas das redondezas. Até hoje abastecem a Cidade do Cabo, por isso, apesar do calor não tomamos banho neles. São uma das grandes atrações da Montanha. Antes de seguirmos para o abrigo de Overseer´s Cottage que fica na margem da represa de Wood Head, sentamos junto ao seu espelho d´água para comer um sanduíche. Depois ainda andamos pelo leito da represa de Helly Hutcherson cujo muro de retenção de 532 metros de comprimento por quinze de altura é capaz de guardar 924 megalitros de água. Quando passamos por ela, entretanto, parecia um deserto de areias brancas. Após quase quatro meses de estiagem, Helly Hutcherson estava completamente vazia, sem um pingo de líquido sequer. Uma cena bonita, mas preocupante para quem precisa daquela água para sobreviver.

A partir das represas, o trajeto oficial da Hoerikwaggo sugere que o caminhante siga até a estação do bondinho e desça por ele até a Cidade. Aceitar a dica, entretanto, tiraria do trilheiro a experiência soberba de pernoitar no topo da Montanha e de explorar um pouco algumas das trilhas ali existentes, cujas variadas vistas têm incentivado cerca de um milhão de pessoas a galgar a Mesa todos os anos.

Por isso, vale encerrar o sexto dia mais cedo, aproveitar o pôr do sol em algum lugar bonito da Montanha, como seu pico cuminante (MacLear´s Beacon) ou na encosta dos Doze Apóstolos com vista para Camps Bay e o Oceano Atlântico. Depois é aproveitar o aconchego do Overseer Cotage, antiga casa do zelador das represas, reformada pelo Parque para servir de abrigo.

Na próxima postagem conto como foi o último dia.

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O trajeto oficial da trilha Hoerikwaggo entre Sivermine de Orange Kloof vai pela encosta oeste da Montanha de Constantia, com uma esplêndida vista do Atlântico. Resolvemos, contudo, ir pela vertente leste, cujas trilhas levam ao mesmo destino, mas avançam sob maior proteção do sol. Também queríamos ver o processo de substiuição das florestas de pinheiros pela vegetação nativa de fynbos que está ocorrendo na Floresta de Tokay.

Qualquer que seja o traçado escolhido, é bom sair cedo por que trata-se de um dia longo. No nosso caso, demoramos mais de sete horas para vencer os 17 quilômetros até o abrigo de Orange Kloof.

Começamos com um banho na Represa de Silvermine. Este reservatório d`água abasteceu a Cidade do Cabo durante décadas. Recentemente, todavia, foi incorporado ao Parque Nacional da Montanha da Mesa que submeteu a área a intenso manejo: substituiu a vegetação exótica por mata nativa, recuperou as trilhas e construiu uma extensa rede de plataformas ao redor do lago e ao longo do rio Silvermine, onde hoje é possível empurrar um carrinho de bebê ou se locomover em cadeira de rodas. A intervenção ficou tão boa que mereceu aplausos até de frequentadores europeus. Passeando por ali encontramos  Louise uma cadeirante inglesa, cuja felicidade dava a medida do sucesso da passarela: “há tantos lugares na África do Sul onde o cadeirante pode passear na natureza que não me canso de passar férias aqui. Perto do Reino Unido, este país é o paraíso!” Boa parcela da população do Cabo parece concordar. Antes das dez da manhã, as margens do lago já estão cheias de famílias com filhos pequenos se aboletando nas mesas de pique-nique do Parque. Chegam com jeito de quem veio para passar o dia inteiro.


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Não ficamos para conferir. Embora Ivan tenha chegado a sugerir que trocássemos a caminhada por um looooongo dia de dolce far niente na represa, optamos pela opção pé-no-chão.

O primeiro trecho, no platô de Silvermine é relativamente fácil. Só no finalzinho arma-se uma subida íngreme até a Gruta do “Olho do Elefante”, onde paramos para descansar à sombra, enquanto admirávamos a vista da Baixada do Cabo (Cape Flats).

A partir daí, caminhamos cerca de três horas e meia em uma trilha que segue a linha de cota logo acima da Floresta de Tokai (em alguns trechos, ex-Floresta de Tokai). Tokai tem uma longa história como Floresta (no sentido comercial do termo). Suas primeiras árvores datam de 1694 quando o então governador do Cabo, Simon van de Stel, mandou plantar ali 4.379 carvalhos . Em 1884, os carvalhos deram lugar a uma plantação comercial de pinheiros (sobretudo Pinus radiata) e eucaliptos cuja área foi se expandindo ao longo dos anos até cobrir 610 hectares. Como Tokai era uma das plantações comerciais mais próximas de um centro urbano, em 1906 o Governo decidiu instalar no local a primeira escola sul-africana de engenharia florestal.

A Floresta de Tokai, cujos pinheiros são retirados a cada 40 anos é viável financeiramente. Além disso provê sombra para caminhantes e mountain bikers, o que a torna um local de lazer muito procurado no verão. No ano 2000, contudo, Tokai foi incorporada ao Parque Nacional da Montanha da Mesa. Em 2006, o Parque aprovou um novo Plano de Manejo para a área, pelo qual sempre que um lote de árvores antingir a maturidade comercial será cortado e vendido, mas outro não será replantado em seu lugar. Ao contrário, a terra vazia será usada para a regeneração da flora nativa do Cabo, os fynbos.

O procedimento, que já começou, tem sido muito bem sucedido. O micro-clima da encosta de Tokai, mais úmido e com menor insolação que a grande maioria do resto do Parque propiciou a restauração de várias espécies ameaçadas de extinção que não vingavam no resto da área protegida. O meio ambiente respondeu rápido à chance que lhe foi dada e, em menos de cinco anos vários exemplares raros de fynbos de baixada começaram a desabrochar em Tokai.

Nem todos aplaudiram. A sombra benfazeja da Floresta de Tokai dava refresco aos excursionistas do Cabo há mais de um século. A moçada chiou. Choveram cartas nos jornais e protestos com faixas. Até uma associação de amigos da sombra de Tokai foi criada e, por meio dela, foi ajuizada uma ação no Tribunal do Cabo. A peça legal clama pelo direito ao lazer e pede a preservação do “patrimonio cultural” estabelecido pelos pinheiros centenários”.

O Parque tem respondido com elegância e firmeza. Assegurou a continuidade do direito ao lazer em Tokai com a manutenção de toda a rede de trilhas, inclusive aquelas especificamente dedicadas à prática de mountain bike e  comprometeu-se a  plantar árvores nativas em sítios específicos de modo a prover alguma sombra. Mais do que isso, contudo, produziu um sólido documento onde, apoiado na legislação que atribui aos Parques Nacionais a missão pecípua de conservar a bidoiversidade,aponta as vantagens de se garantir um bloco de mais de 500 hectares novos para a proteção dos fynbos de baixada. Claro que haverá perdas, o documento admite. Certos pássaros e macacos que agora frequentam a área terão sua rotina muito afetada e provavelmente desaparecerão de Tokai.  Em termos de biodiversidade, os danos, porém, parecem ser menos grave que os ganhos.

Até o momento as reclamações não têm encontrado maior eco que ouvidos moucos. Lá de cima, enquanto percorremos a Hoerikwaggo dá para ver por que o projeto tem causado tanta celeuma. Mesmo para quem entende e concorda inteiramente com as ações do Parque, ainda assim dói ver tanto desmatamento de uma só vez. O emocional bate forte. É duro.

Aos poucos Tokai fica para trás. Suas encostas são substituídas por outras cujo solo está coberto de parreiras. É Constantia, a mais antiga região produtora de vinhos do país. Dá vontade de tirar uma fotografia e enviar para a Câmara de Deputados do Brasil. Apesar de Constantia estar produzindo uvas há mais de trezentos anos em uma área que hoje é urbana e portanto dona de um metro quadrado caríssimo, suas APPS encontram-se impecavelmente preservadas. Do alto da Hoerkiwaggo é fácil ver as coroas dos morros e as faixas marginais dos rios. Nelas vicejam a mata nativa, onde um verde alegre serve de corredor da biodiversidade, mitiga enchentes e evita o assoreamento dos cursos d´água.

Ainda marchamos cerca de uma hora antes de chegarmos em um pequeno corredor de não mais de dez metros de largura por quatrocentos de comprimento. Esta passagem possibilita a descida do morro de Vlakkenberg, contíguo a Silvermine, em direção a Orange Kloof, onde está o abrigo desta noite.

Foi desapropriado de uma vinícola local. Sem ele não haveria ligação nenhuma entre duas parcelas do Parque Nacional da Montanha da Mesa. Hoje é uma passagem estreita que atende sobretudo aos interesses de excursionistas. Espera-se, entretanto, que sirva de cabeça de ponte para um corredor um pouco mais largo que faculte a migração mais desimpedida de espécies faunísticas.

Vencido o corredor, é preciso atravessar uma rua larga e entrar na área de Orange Kloof, onde está o último remanescente daFloresta Afromontana na Península do Cabo. Orange Kloof , que fica na base da Montanha da Mesa, tem um dos abrigos mais bonitos e acochengantes de toda a Hoerikwaggo. Suas camas e lareira são mais que bem vindas para nossas cansadas pernas.

Na próxima postagem finalmente subiremos a Montanha da Mesa.


*Com participação de Sandra e Ivan Amaral


A Eslováquia é um pequeno país de 49 mil km², na Europa Central que resultou do desmembramento da Tchecosláquia em duas repúblicas em 21 de julho de 1992. Seus cinco milhões e meio de habitantes vivem em uma área mais ou menos equivalente ao estado do Espírito Santo (46 mil km²). 36% dessa superfície estão cobertos por matas, o que torna o país, em termos relativos, o terceiro mais florestado do velho continente, apenas atrás de Suécia e Aústria.

Há mais de 1.000 áreas protegidas no país, cobrindo cerca de 10 mil km², ou pouco mais de 20% da área total do território eslovaco. Entre essas, nove são parques nacionais, quatro deles contíguos a alguma unidade de conservação estrangeira.

Em abril deste ano ((o))eco visitou os parques fronteiriços eslovacos, bem como suas contrapartes do outro lado da delimitação internacional. Entre eles, o mais antigo é o do Alto Tatras, estabelecido em 1949. Os outros são Pieniny, na fronteira com a Polônia, Slovak, Karst contíguo à Hungria, e Poloniny, encostado na Ucrânia e na Polônia. Os dois últimos são Patrimônios Mundiais da Humanidade.

De uma maneira geral, o manejo dessas unidades de conservação é bom e leva em conta a existência de uma projeção ecossistêmica além-fronteira, submetida a leis e soberania diferentes das vigentes na Eslováquia. A fluidez do manejo integrado, contudo, não é uniforme ao longo dos quatro mosaicos internacionais. Embora em todas as situações a integração seja muito maior do que a existente entre quaisquer UCs contíguas brasileiras, em Poloniny a cooperação ainda é incipiente e em Tatras ainda há onde avançar.. Por outro lado os mosaicos internacionais do Pieniny e do Slovak Kras/Aggtelek (Hungria) impressionam pelo tratamento ecossistêmico que recebem, sem que isso implique em sessão alguma de soberania por nenhuma das partes.

Poloniny fica no extremo nordeste da Eslováquia, onde ocupa uma área de 29.805 hectares, cujo estatuto de proteção, existente desde 1977, foi elevado ao de Parque Nacional em 1997. Seu vizinho polonês, que atende pelo singelo nome de Bieszczadzki, foi declarado em 1947 e cobre 27.834 hectares. Já na Ucrânia está o Parque Natural Nacional dos Cárpatos cuja área protegida é de 50.303 hectares. A parte polonesa está classificada como Reserva da Biosfera, enquanto trechos da floresta pristina de faias e pinheiros localizados na Ucrânia e na Eslováquia foram galardoados como Patrimônio Mundial da Humanidade em 2007. A região protege 55 espécies de mamíferos, entre os quais se destacam ursos, linces, javalis, raposas e lobos (esse último animal é o símbolo do Parque). Além disso há 5.000 espécies de invertebrados, 19 de peixes, 13 de anfíbios, 8 de répteis e 199 de pássaros. No que toca a flora há 1.200 espécies de cogumelos, 210 variedades de liquens, 342 de musgos e mais de 1.000 espécies de plantas vasculares.


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O entorno de Poloniny foi palco de muitas batalhas nas duas guerras mundiais. Por isso, sofreu significativa perda populacional e hoje é um dos cantos mais vazios do país, o que facilita as atividades de conservação. O que não é nada propício à proteção em bases ecossistêmicas é o fato de que  Poloniny está na encruzilhada entre a União Europeia e a antiga União Soviética. Além dos sistemas jurídicos muito díspares e da línguas diferentes que sequer usam o mesmo alfabeto, qualquer cooperação mais estreita enfrenta os rigores da Fortaleza Schengen, sempre vigilante contra imigrantes ilegais da Europa oriental. Para se atravessar a fronteira terrestre entre a Eslováquia e a Ucrânia o autor precisou esperar em uma fila de quatro horas, o que segundo as autoridades migratórias ucranianas, é normal por aquelas bandas. Assim, embora haja um esforço de coordenação entre as partes, os encontros e as atividades integradoras acabam sendo esparsas e reduzidas, sobretudo quando comparadas a outras iniciativas que envolvem parques eslovacos.

Pieniny por outro lado é manejado como um perfeito mosaico. O Parque eslovaco é menor do país. Foi declarado em 1932 e tem apenas 3.749 hectares. Já na Polônia, Pieniny foi criado em 1954, com uma área ainda menor: 2.346 hectares. O espírito de colaboração entretanto vem regendo a gestão de ambas unidades de conservação há mais de meio século. Hoje, a malha de trilhas é completamente integrada sendo possível empreender várias caminhadas internacionais. Os mapas mostram o conjunto das unidades de conservação como se fossem um só parque. A sinalização e a folhetaria são sempre bilíngues e têm estampados os logotipos de ambos os parques. A cooperação, entretanto vai muito além das atividades de uso público. Em entrevista ao ECOs os diretores Michael Solowiski (Polônia) e Stefán Danko (Eslováquia) afirmaram se reunir cerca de 30 vezes por ano para coordenar o manejo de seus respectivos parques. Segundo eles, seus funcionários chegam a se encontrar mais de 150 vezes todos os anos. Uma vez por semestre, alternadamente em cada lado da fronteira, acontecem conclaves de pesquisadores e cientistas para discutir as necessidades de manejo do Parque como um única unidade ecossistêmica. O diretor de cada um dos parques é membro do Conselho Consultivo da unidade de conservação vizinha e, a partir de 2011, haverá uma reunião anual conjunta de ambos os Conselhos Consultivos.

Tamanha coordenação gerou dois Planos de Manejo elaborados em estreita complementaridade e um plano de ação comum acordado anualmente. Entre as atividades previstas para 2011 estão o monitoramento da fauna, a remoção de espécies exóticas ao longo do rio Dunajec (que divide os Parques e os países) e um projeto para conservação de borboletas.

Ao flanar entre os dois parques não se vê grandes disparidades de gestão. Mas elas existem. Como bem assinalou Solowiski, cooperação não significa gestão uniforme. Cada Parque continua submetido às suas respectivas leis, quadros de pessoal e orçamento. Nesse sentido, apesar de menor, o lado polonês é mais selvagem, menos antropomorfizado e menos edificado. Explica-se. Na Polônia os Parques Nacionais são unidades de proteção integral inteiramente manejados e geridos pelo Serviço de Parques Nacionais. Na Eslováquia, por outro lado, o Serviço de Parques não administra as unidades de conservação, que são geridas por quem detém a posse da terra, normalmente entidades municipais. Nesse sentido, cabe à Autoridade Ambiental analisar pedidos de licenças, fiscalizar e orientar o trabalho das municipalidades. Tal discrepância legal implica também em grande desbalanço de recursos. Enquanto o Pieniny polonês conta com 50 funcionários e um orçamento de um milhão de euros, o Pieniny eslovaco só tem 10 servidores e recursos financeiros da ordem de 400 mil euros.

Ainda assim, assegura Danko, tem sido possível manejar ambos os parques como uma unidade ecossistêmica com benefícios claros para fauna, flora e visitantes: “Por mais que a história política de nossos países tenha traçado uma fronteira internacional aqui, Pieniny continua a ser um único conjunto natural. Veja só. O Pico das Três Coroas, ponto culminante dos Pieninys, é o lugar mais bonito de todo o Parque. Fica na Polônia, mas para apreciá-lo em toda sua beleza é preciso estar em um mirante localizado na parcela eslovaca do Parque”.

Na fronteira que divide a Eslováquia da Hungria fica o último complexo de unidades de conservação transfronteiriças com alguma parcela na Eslováquia. Trata-se de um dos maiores complexos de grutas calcáreas da Europa, protegido respectivamente pelos parques nacionais de Slovac Kras e Aggtelek.

As 300 cavernas de Aggtelek foram agrupadas em um Parque Nacional com 20 mil hectares, no ano de 1985. Já os 34.611 hectares que protegem as cerca de 1.000 grutas do lado eslovaco da fronteira foram elevados a Parque Nacional em 2002. Antes, em 1995, 12 grutas em ambos os territórios já haviam sido inscritas em conjunto pela UNESCO na categoria de Sítio do Patrimônio Mundial da Humanidade.

Trata-se de uma região linda com rios subterrâneos e cavernas de gelo, que não derretem nem mesmo no verão.Uma delas, a gruta de Domica-Baradla tem 25 km de comprimento e atravessa a fronteira internacional por baixo da terra. Pode ser visitada por entradas em ambos os países, que também são conectados por trilhas internacionais, batizadas localmente de “trilhas da amizade”. Assim como no caso de Pieniny, as administrações de Slovac Kras e Aggtelek trabalham em estreita coordenação para o manejo da fauna e flora com especial atenção para animais cavernícolas, principalmente morcegos e algumas espécies endêmicas de peixes. As normas para visitação das cavernas são padronizadas e a sinalização, mapas e flolhetaria são bilíngues.

Nada disso, contudo, resolve um probleminha básico. A Eslováquia usa o Euro como sua unidade monetária. A Hungria por seu lado ainda vai às compras com o forint. Para quem vem de carro de Slovak Kras para Aggletelek visitar as cavernas húngaras é tarefa complicada, pois não há profusão de casas de câmbio e pouca gente aceita euros (a entrada do Parque definitivamente só pode ser paga em forints). Ainda bem que a bicharada não tem que comprar nada!


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A caminhada entre Kommetjie e Silvermine pede uma alvorada junto com o sol. Caso contrário há o risco de que a empreitada termine no escuro. O trajeto é longo e pesado. São19 km percorridos em quase 8 horas de pé na trilha .

Logo ao sairmos do abrigo, damos de cara com o farol de Slangkop, um dos muitos existentes na Península. A região é um cemitério de navios. Desde que o caminho marítimo para as Índias foi desbravado em 1488 por Bartolomeu Dias, centenas de embarcações naufragaram no litoral de Cape Town, que acabou ficando conhecido pelos marujos como Cabo das Tormentas.

Cinco desses navios podem ser vistos junto ao próprio Cabo. Os restos retorcidos de outro, a barca BOS 400, podem ser observados sobre as rochas de Karbonkelberg, também bem próxima à cidade e acessível por trilha, mas fora do trajeto da Horikwaggo.

Na região de Kommetjie, o último naufrágio ocorreu em 26 de maio de 1900. Naquele dia o comandante do navio holandês Kakapo confundiu Chapman´s Peak, cujo cume é parte da Hoerikwago, com Cape Point e mudou a rota de seu barco em direção a leste cedo demais. Em vez de dobrar o Cabo da Boa Esperança, invadiu a praia de Noordehoek a velocidade máxima, encalhando para todo o sempre. Após o acidente, uma fogueira passou a iluminar as noites de Kommetjie até 1918, quando o farol de Slankop foi erigido para evitar futuros acidentes.

O caminho de hoje, que atravessa todos os 5,5 km da praia de Noordhoek, passa junto aos destroços do Kakapo.Antes de lá chegar, entretanto, nos faz pisar sobre cerca de dois quilômetros de uma passarela de madeira, construída para proteger a frágil vegetação de dunas e de banhados, ambas extremamente ameaçadas na África Meridional.


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A plataforma , que concentra todo o pisoteio dos excursionistas sobre ela própria ao tempo em que permite o crescimento de plantas sob seu madeirame, principia praticamente na saída do abrigo. A seguir avança sobre um costão de pedra junto ao mar, até depositar os caminhantes nas finas areias de Noordhoek. Neste trecho, o Parque é democrático: montanhistas, surfistas, cachorros com seus donos, e cavaleiros dividem o pedaço.

Pois é, por incrível que pareça, em seu Plano de Manejo, o zoneamento do Parque Nacional da Montanha da Mesa.designou cinco áreas onde é permitido o passeio a cavalo. Equinos em um Parque Nacional? Espécies exóticas! Como isso é possível?

O Plano de Manejo da Montanha da Mesa reconhece que há impactos advindos da atividade equestre, tais como: erosão e/ou compactação do solo, causando danos à vegetação por pisoteamento. Também admite impactos de convívio, sobretudo no que se refere a aconflitos de uso entre cavaleiros e caminhantes. O mesmo documento, contudo, não considera nenhum desses impactos suficientemente grande para justificar a interdição de uma atividade que atrai cerca de 800 usuários frequentes e que, por meio de duas empresas de equos-turismo, vem gerando emprego e renda às comunidades do entorno desde 1974.

Como no caso das mountain bikes, sobre o quê ainda vou escrever outra coluna mais elaborada, o Parque Nacional da Montanha da Mesa considera que melhor do que proibir é manejar. Assim, a escolha do solo sobre o qual as cavalgadas são permitidas é fundamental. Nesse sentido, e aqui vai uma lição para os Parques brasileiros, o Plano de Manejo considera que “A maioria dos problemas de erosão nas trilhas do PARNA da Montanha da Mesa tem menos origem no tipo do usuário (excursionista, cavaleiro ou mountain biker) e mais origem no mau planejamento do traçado das trilhas ou na falta de sua manutenção. Trilhas que atravessam áreas úmidas, solos facilmente erosíveis, encostas muito íngremes, ou áreas com vegetação frágil sofrerão erosão acentuada independente do tipo de usuário”. 

Assim, a escolha das trilhas onde a atividade equestre é permitida recai sobre traçados com solo pouco erosível e com traçado bem desenhado, que além de ser razoavelmente nivelado deve ter largura suficiente para que dois cavalos possam se cruzar em direções opostas sem sair do caminho. Além disso, essas trilhas devem dispor de boa sinalização e gozar de manutenção frequente.

Minha experiência prática aponta para conclusões semelhantes, tanto na Serra da Bocaina que já percorri muitas vezes a cavalo, quanto no Parque Nacional da Floresta Tijuca. Neste último a equitação era permitida até algumas décadas atrás. Seu mais famoso ex-diretor, Raymundo Ottoni de Castro Maya, percorria suas trilhas a cavalo e chegou a autorizar a Sociedade Hípica Brasileira a manter uma sub-sede próximo ao Açude da Solidão. Quando fui diretor da Tijuca há cerca de dez anos, levei dois cavaleiros de outrora para almoçar comigo na Floresta. Maurício Memória e meu tio, José Manuel Lutz da Cunha e Menezes, tinham muita história para contar. Haviam sido amigos de Castro Maya e conheciam as fofocas de uma Floresta de antanho que eu tinha interesse em resgatar e deixar registrada. Após o papo, a pedido deles, fomos dar uma volta nas picadas que conheciam de cima do lombo de suas montarias. Ambos se regozijaram com o reencontro com a Mata Atlântica fabricada por Archer, mas concordaram em seu espanto relativo à excessiva erosão das trilhas: “isso não havia naquele tempo. Os caminhos eram uma beleza”. Estranho não é caro leitor? É que na época deles havia cavalos, mas também havia manejo!

Mas e o estrume dos equinos? Estudos feitos na África do Sul apontam para o fato de que os dejetos sólidos do cavalo podem ser dispersores de sementes de espécies exóticas até quatro dias depois do consumo pelo animal. Por outro lado, não existe nenhum caso comprovado de introdução de espécies exóticas no Parque da Montanha da Mesa por esse meio. Ainda assim, trata-se de problema manejável, por meio da obrigatoriedade do uso de fraldões pelas montarias.

Bom, mas já falei demais de cavalos.É hora de voltar à Hoerikwaggo. Terminado o longo périplo pelas areias de Noordhoek, chegamos à base de Chapman´s Peak. Agora vamos sair do nível do mar e ascender até 420 metros de altitude em um ataque só. É hora para dar um tchibum e se refrescar.

A subida para Chapman´s peak, mescla degraus e trechos em zigue-zague pensados para mitigar a erosão. Enquanto isso, esplêndidas vistas de Hout Bay e Noordhoek Beach enganam o cansaço e estimulam frequentes paradas para apreciar  a obra divina.

Ao chegar ao topo de Chapman´s Peak vem a decepção. Há que descer para....subir mais de novo. E tome morro acima! Só depois de topar a cumeeira de Noordehoek com 689 metros acima do nível do mar é que nossas pernas exaustas ganham o direito de acompanhar a força da gravidade enquanto nos levam ao abrigo de Silvermine.

São mais uma hora e meia de dureza nos músculos, temperada por um panorama belíssimo. Quando finalmente chegamo à Represa de Silvermine o dia já vai querendo se fazer noite. É só o tempo de um mergulhão merecido antes de caminharmos os últimos dez minutos até o abrigo.

Na coluna que vem conto sobre a represa de Silvermine, a remoção de exóticas da Floresta de Tokai e a chegada a Orangekloof.

*Com participação de Sandra e Ivan Amaral


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Na pequena estância de Zakopane, nas fraldas da cadeia de montanhas que serve de fronteira natural entre Eslováquia e Polônia, comemos defronte à indefectível televisão, essa praga que de forma epidêmica é cada vez mais comum em todos os restaurantes mundo afora. Mesmo quando não se entende o idioma, como é meu caso com o polonês, as imagens parecem atrair a atenção como se fossem um imã, em um fenômeno que uma amiga minha batizou com o apropriado nome de “chiclete de olhos”. Detesto. Vou a restaurantes para comer, não para ver novelas, mas dessa vez fiquei interessado em um comercial. Na tela, um sujeito está carregando umas toras de pinus em uma trilha. De repente a câmara muda de plano e focaliza esse mesmo camarada construindo uma ponte de madeira sobre um córrego de águas límpidas. Quando termina o trabalho, começa a pintar uma seta de sinalização. Interrompe a tarefa, enxuga o suor do rosto, e abre uma garrafa de água mineral. Nesse momento um grupo de jovens excursionistas atravessa sorridente a pinguela que acabou de fixar sobre o rio. Sorridentes eles se congratulam com o operário. Não percebi nada do que foi conversado, mas compreendi que o herói do anúncio era o cara que fazia a manutenção de uma trilha em algum Parque Nacional polaco. Que inveja!

O sentimento só aumentou no dia seguinte, quando fui caminhar no Parque Nacional do Alto Tatras. Descobri que o amor pela natureza é característico dessa parte da Polônia. Todos os anos, os 21.164 hectares do Alto Tatras atraem três milhões de excursionistas, que têm à sua disposição uma malha de trilhas com 245 quilômetros de extensão. Ali os caminhos impressionam pela boa sinalização, drenagem, muros de arrimo, corrimãos, e pequenas obras de engenharia como pontes, degraus, bancos e abrigos, todos muito bonitos e integrados à paisagem que os cerca.


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Embora já esteja nos Cárpatos, Tatras é uma cadeia de montanhas com características alpinas, que abriga seis picos acima dos dois mil metros de altitude. Sua espinha dorsal corre por 26 quilômetros e divide as bacias que drenam para os mares Báltico e Negro. Quatro quintos de sua área estão na Eslováquia, enquanto os 20% restantes localizam-se em território polonês. Em Tatras há dois Parques nacionais contíguos, embora cortados por uma fronteira internacional. São manejados em estreita coordenação. Sua criação remonta a 1925, quando Polônia e a então Tcheco-eslováquia assinaram o Protocolo da Cracóvia, destinado a resolver pequenas disputas de limites remanescentes da Primeira Guerra Mundial. A implementação do acordo, contudo, só se iniciou após a Segunda Grande Guerra: o Parque de Tatras foi criado em 1949 em território da atual Eslováquia, enquanto a contraparte polonesa só foi implantada em 1954, embora sua criação tenha sido decretada em 19371. Por estranho que pareça, exceto pela existência de um Plano de Ação Comum anual, elaborado em conjunto desde 1991, não há nenhum outro documento posterior ao Protocolo que regule a cooperação entre as unidades de conservação2. Ali o manejo é coordenado de maneira informal por meio de reuniões regulares entre os administradores, pesquisadores e demais funcionários técnicos, bem como pelo intercâmbio de documentos.

Parece funcionar muito bem. Em visita aos dois lados do Tatras, ((o))eco verificou uma cooperação profícua através da fronteira. Pavol Majko, diretor do parque eslovaco, que tem 73.800 hectares e recebe três milhões e meio de visitantes por ano, informou que coordena com seu homólogo polonês as políticas de manejo. A cooperação objetiva alinhar, sobretudo ações que impactam a fauna e flora. Busca-se evitar que aconteça ali algo semelhante ao que está se passando na região vizinha, onde o parque nacional polonês de Magusrki, está tendo dificuldade em avançar com um programa de proteção aos lobos. Não há unidade de conservação contígua a Maguski do lado eslovaco da fronteira. Assim, os lobos protegidos em um país atravessam a linha política traçada pelos humanos e vão caçar ovelhas na Eslováquia. Acabam abatidos pelas espingardas dos pastores. Como reconhece Pavol Majko, “não é possível falar em manejo ecossistêmico sem levar em consideração o descompasso legislativo entre os países. Sem coordenação não vamos avançar”.

No momento, está em curso um projeto comum de monitoramento da população de ursos no Maciço. Cientistas estão colocando coleiras com GPS nos animais para monitorar seus movimentos vinte e quatro horas por dia. Entre os objetivos do projeto está mapear o tamanho da área frequentada pelos animais e quão próximo eles vivem ou se aproximam de trilhas e assentamentos humanos. Também há interesse em saber o quanto eles se movimentam através da fronteira. Trata-se de informação importante não apenas do ponto de vista da conservação, mas também do planejamento turístico. Hoje, apesar dos encontros frequentes entre os respectivos diretores, a sinalização, folheteria e mapas de trilhas ainda retratam apenas cada um dos Parques, parecendo ignorar a existência de um único ecossistema que atravessa as fronteiras nacionais. Na sala da direção do Tratas eslovaco há um enorme mapa do parque nacional. Só retrata o lado da Eslováquia, havendo um grande espaço branco onde deveria figurar o lado da montanha localizado sob a soberania de Varsóvia. Segundo Pavol Majko, desconfianças militares mútuas impediram durante anos a elaboração de um mapa único com a mesma base de dados.

Agora é objetivo de ambos os Parques resolver esse problema e, em cima do novo mapa, fazer um planejamento integrado da malha de trilhas, direcionando o turismo para áreas onde provocará menos impacto. Para isso é importante reconhecer que, embora Tatras seja composto por dois parques nacionais submetidos a legislações e soberanias diferentes, para a Natureza e os ursos, é apenas uma única montanha. Caso não haja planejamento coordenado qualquer esforço para salvar os ursos poderá ser vão.

____________________________________
1 Em 1992, ambos os parques foram designados conjuntamente como Reserva da Biosfera.
2 Christian du Saussay. Transfrontier Parks. Unasylva: An International Review of Forestry and Forest Products. Roma: FAO, vol. 32 nº 127, 1980.


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O que é uma área de preservação permanente (APP)? Não vou discutir aqui acepção jurídica do termo, mas apenas sua interpretação social. Trata-se de frações de terra que, embora localizadas em terrenos privados, destinam-se a assegurar o bem comum de todos os brasileiros. Segundo a Lei nº 4.771/65: “área de preservação permanente é uma área coberta ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas".

O artigo 3º da mesma Lei define que: “Consideram-se, ainda, de preservação permanentes, quando assim declaradas por ato do Poder Público, as florestas e demais formas de vegetação natural destinadas:

a) a atenuar a erosão das terras; b) a fixar as dunas;
c) a formar faixas de proteção ao longo de rodovias e ferrovias;
d) a auxiliar a defesa do território nacional a critério das autoridades militares e) a proteger sítios de excepcional beleza ou de valor científico ou histórico;
f) a asilar exemplares da fauna ou flora ameaçados de extinção;
g) a manter o ambiente necessário à vida das populações silvícolas;
h) a assegurar condições de bem-estar público".

Concorde-se ou não com a Lei, é inegável que seus princípios visam a salvaguardar o direito coletivo, preservando bens que a Sociedade (por meio dos legisladores) considera indispensáveis para a felicidade comum, ainda que localizados em terrenos particulares. Não é preciso sequer traduzir o enunciado legal em outras palavras. As sentenças “assegurar o bem estar das populações humanas” e “assegurar condições de bem-estar público” são auto-explicativas. É um caso típico de uma Lei feita para proteger o interesse coletivo de decisões egoístas tomadas por indivíduos com o o intuito único de beneficiarem apenas a si próprios. Trata-se de Legislação típica de países comunistas (ou, vá lá, socialistas), onde o bem comum tem precedência sobre a propriedade individual.. Por isso mesmo, incomoda saber que a destruição dessa peça legal está sendo conduzida justamente por um Deputado de Partido Comunista, cuja argumentação defende os interesses menores de alguns indivíduos (sejam eles pobres ou ricos) em detrimento da grande maioria dos 180 milhões de brasileiros.
 
Estranho, não é mesmo? Álvaro Rocha, com quem aprendi a pensar política, me ensinou um velho ditado que diz assim “toda pessoa de caráter, quando jovem é comunista, quando maduro é socialista e, quando velho, é cético”. Acho que estou entrando na terceira idade.

 


 

Interessante a discussão sobre o Código Florestal. No mínimo tem o mérito de fazer a brasileirada pensar. Aproveitando a corrente, gostaria de fazer uma observação sobre o tema. Embora a Lei não seja clara nesse sentido, APPs e Reserva Legal não têm sequer a mesma função. Enquanto a última visa a manutenção da biodiversidade, a primeira é um instrumento de manejo. Sua função precípua é evitar a perda de cobertura do solo, mitigar a erosão, evitar os deslizamentos de terra e impedir o assoreamento dos cursos d´água. O princípio por trás das APPs é muito mais antigo do que os primeiros movimentos em defesa da preservação da fauna e flora. Com efeito, o reflorestamento da Floresta da Tijuca, cujo início se deu 4 de janeiro de 1862, já trazia em seu bojo a idéia de reconstituir a vegetação nas margens dos rios e nas cabeceiras dos morros de modo a assegurar o fluxo de água potável para a então capital do Brasil.

Talvez venha dessa época a confusão entre APP e Reserva legal. O decreto que regulamentou a criação da Floresta Nacional da Tijuca determinava que o major Manuel Gomes Archer fizesse o plantio regenerador da área com eucaliptos“em linhas paralelas retas entre si, sendo as de uma direção perpendiculares às de outras”. Nas palavras de Escragnolle, seu sucessor, graças a Archer: “as árvores são plantadas promiscuamente e não por grupos, o que tornaria monótono o aspecto da floresta”.

Em suma, as instruções dadas a Archer eram para que plantasse vegetação que crescesse rapidamente e fixasse as encostas, resolvendo com isso o problema de deslizamento de terra e o abastecimento de água do Rio de Janeiro. O Major foi mais longe (literalmente). Mandou seus funcionários em seguidas viagens à Guaratiba buscar mudas de espécies de Mata Atlântica e com elas recriou uma floresta nativa. Matou dois coelhos com uma só caixa d´água (com trocadilho). Resolveu o problema dos mananciais e devolveu ao Rio sua biodiversidade. Deveria estar no Panteão dos Heróis Nacionais junto com D. Pedro I, Araribóia, Zumbi dos Palamares e Oscar Cox.

Trocando em miúdos, as APPs deveriam ser inegociáveis mesmo para quem não dá a mínima para a biodiversidade. Sem APPs rios assoreados, água sem potabilidade, desbarrancamentos e trajédias como as de Santa Catarina e Nova Friburgo serão cada vez mais comuns. Agora, se a APP é inegociável, por que não mantê-la com mata nativa? E porque não deduzir a área de APP do total obrigatório para a Reserva Legal?

Se o objetivo é preservar a biodiversidade, a APP ao longo dos rios é o melhor instrumento, pois tem solução de continudade ao longo das diferentes propriedades e, com isso acaba se constituindo em corredor ecológico entre manchas maiores de mata nativa.

Em países minimanente sérios trata-se de ponto passivo: APPs são inegociáveis. Mesmo em países pobres, como na África do Sul ou no Quênia existe a cultura de manter a mata ciliar dos rios. Até em cidades grandes como Cape Town, as APPs são mantidas com zelo. Topos de morro têm sua vegetação preservada e margens dos rios também. Nessas últimas, recentemente têm sido desenvolvidas trilhas urbanas e ciclovias o que dá às APPs mais uma função: a de equipamento de lazer.

Diz a lenda que “é conversando que se chega lá”. Vamos ver.


Pedro da Cunha e Menezes*



Com 11 km de extensão percorridos em pouco mais de 4 horas e meia, o terceiro dia da Trilha Hoerkwaggo, entre Simonstown e o bairro praiero de Kommetje é o mais curto de todos. Não é rico em vistas, mas em compensação oferece a oportunidade de um belo banho na represa de Kleinplass.

Depois de duas jornadas pesadas, Sandra, Ivan e eu não reclamamos da relativa moleza do percurso. Até porque seu início é bem enganador. Deixamos o hotelzinho histórico que nos abrigou em Simonstown e, depois de uns dez minutos no asfalto, encaramos  uma subidona íngreme que nos fêz esvaziar de cara uma de nossas garrafas d´água.

Uma vez lá em cima, o relevo aplaina, mas aparece uma dificuldade nova. A falta de sinalização. Como escolhemos percorrer a Hoerikwaggo sem guia e antes da sua sinalização ser instalada, temos que parar amiúde para checar a rota. Felizmente não há falta de bons mapas de trilhas na África do Sul. No caso específico do Parque Nacional da Montanha da Mesa, se o excursionista não for um analfabeto cartográfico, a chance de se perder tende a zero. Peter Slingby, um trilheiro local com pendores de geógrafo, publicou uma série de quatro mapas detalhados que desvendam todos os caminhos da Península do Cabo. De certa forma, contudo, esses mapas nem chegam a ser necessários.

Existe na África do Sul um instituto que emite certificados de qualidade para trilhas (uma espécie de ISO-Trilhas). Para que um caminho seja aprovado, a drenagem tem que estar bem feita, a trilha limpa e desobstruída, os atalhos fechados, os trechos íngremes dotados de degraus e os abrigos em bom estado.Ora, quem já palmilhou muito, como Sandra e Ivan, percebe logo a diferença entre uma trilha assim (que é o caso da Hoerikwaggo) e outras com manutenção inferior. Não chegamos a nos perder.

Após cerca de duas horas, alcançamos a represa de Kleinplas. Apesar de não ficar à beira da estrada, encontramos ali um bom número de frequentadores, cuja variedade de interesses dá bem a dimensão da tolerância do manejo no Parque. Enquanto dávamos um mergulho, dezenove tropas de escoteiros passaram apressadas, competindo em um enduro de regularidade. Não foi só. Também testemunhamos um entra e sai interminável de mountain bikers e, dividimos o panorama com um par de casais passeando com seus cachorros.

Pois é. Essa cena seria impensável em um Parque brasileiro. Em Pindorama, ainda não entendemos que o visitante é um aliado natural da causa conservacionista e que, sobretudo em um parque urbano, o esforço de manejo para acomodar os diferentes usuários se paga no médio prazo em termos de apoio político para as iniciativas ambientais do Governo do dia.

No caso do PARNA da Montanha da Mesa, há mais de 150 quilômetros de estradinhas de terra e de trilhas single trek com livre acesso aos ciclistas de montanha. Obviamente eles pagam uma taxa extra pelo direito de causar maior impacto aos caminhos. Os recursos são destinados a um reforço na manutenção dessas mesmas trilhas e, no final, o impacto acaba sendo mínimo, ao tempo em que se cria um enorme grupo de novos apoiadores do Parque Nacional. Já no que toca aos cães, a Unidade de Conservação reconheceu que, estando no meio da cidade, teria mais a ganhar acomodando a visita desses animais exóticos do que transformando seus donos em uma horda de inimigos.

Verificou-se então em que áreas a presença de canídeos seria menos impactante. Escolheu-se cerca de doze trilhas, onde não há significativa presença de fauna nativa , que em seguida forma liberadas para os caninos, desde que na coleira. O resultado produziu um parque democrático e inclusivo, cujo manejo é guiado pela missão imperiosa da conservação da biodiversidade, ainda temperada pelo bom senso.

Deixamos a represa de Kleinplas para trás com o sol já querendo baixar. O banho estava ótimo, mas ainda havia duas horas e meia a percorrer. Uma hora no plano, uma hora de desce e sobe e meia hora sobre uma paisagem lunar.  Que devastação! A colina de Slangkop ardeu cerca de três semanas antes de passarmos por lá. O Serviço de Parques da África do Sul empregou três helicópteros e cerca de 100 bombeiros no esforço de debelar o incêndio. Ao final impediu que o fogo se propagasse para uma área maior, mas justamente o trecho cortado pela Hoerikwaggo ficou pelado.

É uma imagem muito triste que, no entanto, dá lugar a suspiros de encantamento logo adiante quando a trilha começa a bordejar a beira da montanha e abre vistas belíssimas do mar e litoral. Antes de descermos para o abrigo de Kommetjie, onde passaríamos aquela noite, ainda paramos para tirar umas fotos em mais uma casamata construída pelo exército sul-africano durante a Segunda Guerra Mundial para vigiar os U-Boat alemães. De lá para o aconchego da cama foi um pulo. Menos de quinze  minutos ladeira abaixo.

O abrigo? Mereceria uma coluna inteira. É difícil descrevê-lo em palavras. Foi projetado por um arquiteto-paisagista. De longe é quase imperceptível, pois se mescla muito bem com a natureza à sua volta.  Possui seis chalés com duas camas cada um. As paredes e o teto de cada chalé são de lona. Já o chão é de madeira proveniente da retirada de espécies exóticas, que começam a ser erradicadas de florestas nacionais incorporadas ao Parque.

Também de madeira de pinus e eucaliptus é a área de convívio do abrigo. Um enorme salão com lareira, mesa, cadeiras e uma cozinha completa com panelas, copos, pratos e talheres – tudo com o logotipo do Serviço de Parques.


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A energia que dá a luz e provê o banho quente é gerada por de placas solares. Os resíduos são tratados antes de serem bombeados para a rede de esgotos. A decoração é de bom gosto e, sempre que possível utiliza itens do próprio Parque. O grande destaque são as luminárias colocadas dentro das vértebras de uma baleia que encalhou e morreu na praia de Noordhoek alguns anos atrás.

Ficamos boquiabertos, pois nos sentíamos em um hotel de charme em plena trilha. Com efeito, o local é tão acolhedor que atrai não trilheiros. Quem está percorrendo a Hoerikwaggo tem prioridade para reservar o abrigo, mas desde que ele não esteja lotado,outras pessoas também podem pernoitar ali. No nosso caso, dividimos a experiência com um casal de septuagenários sul-africanos. Chegaram até ali de carro. Segundo nos contaram, nâo têm mais pernas para trilhar percursos como a Hoerkiwaggo, mas ainda gostam de desfrutar a natureza. Passam as manhãs admirando a paisagem, e de tarde dão pequenas voltas pela região. Caminham a distância que sua idade permite. São entusiastas da Hoerikwaggo: “ não temos mais saúde para fazer a trilha toda, mas poder desfrutar deste pedacinho já é um presente maravilhoso”.

Sandra, Ivan e eu nos entreolhamos. Maravilhoso sim. Presente não. Fomos apresentados a gente como Brett Myrdall e Paddy Gordon, que projetaram e dirigiram a construção da trilha. Sabemos o trabalho que deu, o esforço que custou. Compreendemos também que eles e os demais funcionários do Parque Nacional da Montanha da Mesa engajados no projeto não consideram que a Hoerikwaggo seja uma dádiva. Pelo contrário, para eles, não fizeram mais do que sua obrigação de servidores públicos.

Na próxima coluna, vamos de Kommetjie até Silvermine. Vai ser um dia bastante longo e cansativo, mas com praia, naufrágios, montanha (muita subida) e um belo banho de lago no final.


*Com participação de Sandra e Ivan Amaral

Achou que o dia de ontem foi pesado? Coitadinho! O segundo trecho da trilha Hoerikwaggo, entre Smistwinkel bay e Simonstown parece ter sido projetado por Escher. Não importa quanto você suba, sempre tem que subir mais. Em linha reta, são só doze quilômetros mas, mesmo sem estarmos com mochilas cargueiras às costas, levamos seis horas e meia para cobrir a distância.

O abrigo de Smitswinkel bay é acessível a automóveis e, como era sábado, nesse trecho ganhamos o reforço de um casal de amigos sul-africanos; André e Marike. André tem 36 anos e trabalha no ICLEI, uma ONG ambientalista que se preocupa com o papel das cidades no meio ambiente mundial. Marike, é veterinária e está na casa dos 50 anos. Caminhou a vida toda e tem o preparo físico de uma adolescente. Juntou-se ao nosso grupo como uma forma de treinar para a temporada que vai passar nas montanhas do Drakensberg em meados do ano.

A trilha já começa mostrando os dentes. Em um só tiro vamos do nível do mar ao topo de Swartkop, que está a 650 metros de altitude. Em menos de uma hora o abrigo fica pequenino, parecendo uma construção de lego. Chegamos com a língua de fora. Não há melhor desculpa para estancar, tirar fotos e filmar. Observo que dali é possível ver a quase totalidade da Hoerikwaggo, desde a ponta do Cabo da Boa Esperança até a estação do bondinho da Montanha da Mesa, no último dia da excursão. É de deixar qualquer um boquiaberto (de boca fechada não tem como ficar com a língua de fora, não é mesmo?).

Dali para a frente, a trilha avança sobre uma cumeeira estreitíssima, decorada por uma profusão de flores de espécies mil e por belas vistas dos dois oceanos. Será que em algum outro local do planeta é possível trilhar tanto tempo vendo dois oceanos?  Nessa mesma serrilha, em setembro e outubro, época da migração das baleias, é possível avistar de um só golpe d´olhos mais de uma dúzia de cetáceos. Ma não estamos em primavera, estamos em fevereiro. O serviço metereológico sul-africano previra 28 graus e um vento fraco. Claro que se enganaram. O sol na lata estava inclemente, tendo chegado próximo aos 40 graus. Quase fritamos!

E tome subida. De acordo com o mapa, estávamos sempre na última. De acordo com a realidade, na melhor das hipóteses, aquela rampa recém galgada era a penúltima. Muitas ante-penúltimas foram  vencidas até finalmente  Simonstown aparecer azul e gloriosa lá embaixo. Ao mesmo tempo, do lado de cá da montanha (lado de cá é forma coloquial de dizer na encosta oeste), surgiram as antigas instalações de tiro da Marinha de Guerra sul-africana.

Olhando para um e outro lados, concluímos que Simonstown é opção mais prazerosa. Está bem mais longe, mas faculta um merecido banho de mar junto aos pinguins do Setor Boulders do Parque Nacional da Montanha da Mesa, sucedido por um almoço à beira da praia, regado a cerveja gelada e pelo descanso dos justos, na cama de um dos muitos hotéis ou pensões dessa cidadezinha histórica que abriga a maior base naval da África.


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Pensou que acabou? Acabou não. Ainda tem mais subida. Só depois de cabritar os 678 metros do pico Flagstaff é que Escher nos permite descer. O caminho para baixo é íngreme, mas bem cuidado. Acompanha um antigo mecanismo de vários guindastes, cabos de aço e roldanas que servia para transportar equipamento pesado entre a base naval e o campo de tiro da Armada, localizado em cima do morro.

Em cerca de meia hora estamos nas areias de Boulders. O tchibum é merecido, mas é rápido, quase relâmpago, pois as águas da Baía Falsa, que banha Simonstown, têm a maior concentração de tubarões brancos do mundo. E eles não brincam em serviço. Todos os anos dois ou três banhistas e mais um par de surfistas acabam virando comida de um desses peixões.

Assustador mas nada que tire nosso sono. Depois do repasto, encontrar um hotel é fácil. Escolhemos um edifício centenário de estilo vitoriano, tombado pelo Patrimônio Histórico local. É fazer o check in, subir as escadas (neste dia Escher esteve onipresente), vitamina C e cama.

No próximo post atravessamos do Atlântico para o Índico.

Leia também:

África do Sul: primeiro dia na trilha Hoerikwaggo
Trilha Hoerikwaggo: véspera da aventura


*Com participação de Sandra e Ivan Amaral

A palavra “trek” vem do afrikaans, um dos onze idiomas oficiais da África do Sul. Ela ganhou fama em 1836, quando uma leva de afrikaners descontentes com a soberania inglesa sobre a colônia do Cabo empacotou seus pertences e pôs os pés na trilha em busca de outras paragens para fundar um país independente.

Palmilharam muito chão até sossegarem nas planícies cortadas pelo rio Orange e nas terras além do rio Vaal, onde se estabeleceram e criaram duas novas Repúblicas, o Transvaal e o Orange Free State. Eventualmente, esses dois países se juntariam às colônias inglesas do Cabo e do Natal para, em 1910, formar a União Sul-Africana.

O Grande Trek deixou marcas culturais no país. Desde então, caminhar na natureza passou a ser parte da afirmação da nacionalidade afrikaner, da sua ligação com o solo africano e da consequente rejeição da Europa como pátria mãe.

Talvez por esse motivo. Haja tantas trilhas de longo curso na África do Sul. Não basta trilhar, há que trilhar muitos dias e, assim, despertar no íntimo a africanidade conquistada a duras pernas.

Com esse pressuposto em mente Sandra, Ivan e eu acordamos em uma manhã ensolarada e partimos para o nosso Great Trek imbuídos do espírito das Bandeiras, que é o seu equivalente brasileiro.

Acordamos cedo. Partir cedo é outra coisa. Por alguma razão que não sei explicar, mas que aprenderia a respeitar nos próximos dias, Ivan tem extrema dificuldade em partir. Quando estamos todos prontos aparece sempre alguma urgência, da qual todas as vezes acabo convencido por uma lábia de deixar vendedor libanês no chinelo!

No papel, o percurso não parece longo, são apenas quinze quilômetros. A realidade é outra. A trilha é um tobogã de intermináveis sobes e desces, sem sombra alguma. O que vale, é que seu traçado faz o esforço valer a pena.

Logo na saída, ainda na varanda do abrigo, temos um colírio para os olhos. A vista dali é simplesmente deslumbrante. O Local não foi escolhido por acaso. O grosso da navegação entre a Ásia e a Europa passa pelo Cabo da Boa Esperança. Por isso mesmo o local era um dos prediletos dos submarinos alemães incumbidos de afundar embarcações destinadas a abastecer a Inglaterra na Segunda Guerra Mundial. O abrigo Erica, onde pernoitamos, foi construído nesse período para alojar a guarnição da bateria cuja missão era localizar e por a pique esses submersíveis. Não há ponto em toda a Península que comande vista mais ampla. A Guerra acabou mas a vista é eterna.

Do abrigo descemos até o nível do mar. Logo fomos saudados por uma avestruz em seu passeio matinal à beira da praia. Em seguida é um par de antílopes que nos cumprimenta desconfiado. Olhamos a água convidativa, mas ainda é cedo. Seguimos em frente.

Após duas horas de caminhada, começamos a subir. O sol na moleira é inclemente, queima nossas nucas desnudas. Com tês horas e meia de chão chegamos ao Centro de Visitantes de Buffelsfontein, alojado na sede de uma fazenda bicentenária, que, de cara, conquista o visitante por sua elegante arquitetura colonial.


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Fazer a trilha passar pelo Centro de Visitantes é uma bela estratégia de manejo. Convida o excursionista a ler sobre a história, as atrações e os desafios do Parque que percorre. Ali, enquanto descansamos à sombra e saciamos a sede com um refresco recém comprado, vamos aprendendo sobre os esforços de renaturalização do Parque. Em gráficos bem elaborados está explicado o processo de reintrodução de antílopes na Reserva do Cabo da Boa Esperança. Também ali estão explanados os males causados por espécies exóticas como o gato doméstico, a cabra himalaia , o eucalipto e a acácia, que sem controle, poderiam se expandir sobre o ecossistema de fynbos, que é o menor e mais diverso reino floral do planeta.

Terminado o descanso, seguimos nossa rotina de sobe e desce que, por algum imponderável, parece ter muito mais sobe do que desce. Depois de mais cerca de hora e meia chegamos a “Venus Pool”, uma piscina natural, em meio ao litoral rochoso. Não é preciso convite. Em um instante estamos todos dentro d´água.

Findo o banho, é necessário subir de novo. O trecho é íngreme. Para evitar a erosão, o manejo adotado alterna longos zigues-zagues com degraus. Isso tudo escorado em canais de drenagem reforçados, nos pontos mais críticos, com concreto disfarçado atrás de blocos de pedra. O resultado não poderia ser melhor. Apesar de seu uso intensivo e constante, a trilha não apresenta sinais de degradação.

Já no meio da tarde, chegamos ao monumento erigido pelos colonizadores flamengos a Vasco da Gama, que foi um dos primeiros marujos a dar a volta redonda ao Cabo. Do alto da minha tricoloridade opino que a obra é boa mesma para botá fogo, mas é verdade que oferece boavista. Apertando os olhos dá até para ver a América (ou quase). Ivan opina que morro rebaixado que vemos dali é mesmo americano. Acha que é Macaé. Não interessa. Seguimos passo. E põe passos nisso. É uma dureira. Parece que não para de subir nunca.

Finalmente,depois de cinco horas e meia de cabritada, chegamos ao pico Judas de cujos 319 metros de altitude já dá para ver o abrigo de Smistwinkel Bay, construído no terreno ocupado por sub-sede administrativa do corpo guarda-parque do PARNA da Montanha da Mesa. Ivan e Sandra sentam-se para admirar a vista. Deixo-os para trás. A caminhada estava ótima, mas quero sombra e água fresca.

Na próxima coluna eu conto mais.

*Com participação de Sandra e Ivan Amaral

Leia também
De Cabo a Cabo em uma semana


 


O Parque Nacional da Montanha da Mesa é uma unidade de conservação jovem. Nasceu em 1998, como um presente do novo Governo democrático à nação. Partes dele já eram protegidas desde muito antes, como a região do Cabo da Boa Esperança, cujos 7.750 hectares foram transformados em reserva natural em 1939. Mais ao norte, as montanhas da Mesa e de Sivermine ganharam estatutos de área protegida, respectivamente em 1963 e 1965. Na década de 1970 outras áreas foram virando unidades de conservação com diferentes níveis de proteção até que, ao fim e ao Cabo (com trocadilho), em 1990 havia 14 instituições diferentes administrando 28 pedaços de terra com algum valor para a conservação da biodiversidade na Península do Cabo. Esses órgãos incluíam o Serviço de Parques Nacionais, o Serviço de Parques Provinciais, o Jardim Botânico, dois municípios, o Exército e a Marinha, entre outros.

Em 1995, um ano após a eleição de Nelson Mandela, o Parlamento da República e a Assembléia Provincial do Cabo passaram leis aprovando a criação de um só Parque na península. Ainda foram necessários quatro anos de negociações para amalgamar os diferentes nacos de terra e integrar seus antigos funcionários, oriundos de culturas institucionais díspares, em só corpo técnico e guarda-parque, com um único paradigma de manejo.

Quando de sua criação, o Parque ainda era bastante fragmentado, uma vez que havia lotes de terras privadas entre algumas de suas porções. Inicialmente, o próprio nome servia de estampa à dificuldade do processo negociador que deu origem à sua criação Ao invés de ser batizado como Parque Nacional da Montanha da Mesa, o ícone inegável do conjunto, ganhou a alcunha de Parque Nacional da Península do Cabo. Segundo depoimento do seu primeiro diretor, David Daitz; “esse foi o nome possível: “Havia então uma histeria entre os antigos administradores, sobretudo os das Reservas de Silvermine e do Cabo mas também outros, de que a Montanha da Mesa estava usurpando os outros parques e retirando-lhes a identidade. Por isso o nome acordado naquele momento foi o mais inclusivo possível. Um nome que representava as 28 áreas que deram gênese ao novo Parque”.

Transformar quase três dezenas de entidades em uma só é tarefa para Hércules. Em seus primeiros anos a diretoria do Parque se concentrou em unificar os planos de manejo, as normas operacionais, os uniformes e os logotipos. Logo, contudo, ficou patente que faltava ao Parque algo forte que lhe desse uma identidade especial e que ajudasse a campanha pela desapropriação de uma série de pequenos lotes privados que permitiriam ligar todas as frações da nova unidade de conservação, dando-lhe continuidade territorial. Foi aí que surgiu a idéia de criar uma trilha ligando o Cabo da Boa Esperança á Cidade do Cabo, a “Cape to Cape Trail”.

O Parque Nacional da Península do Cabo havia herdado de seus 28 progenitores uma malha de cerca de mil e cem quilômetros de trilhas sinalizadas. Essa rede de caminhos constituia-se de trilhas centenárias, muitas delas conectando-se umas às outras. Havia de tudo, trilhas históricas que eram remanescentes de caminhos coloniais, servidões abertas para a manutenção de represas, canos d´água e linhas d e transmissão , caminhos construídos para acessar fortalezas e radares de uso militar e picadas de excursionismo que levavam a pontos de interesse turístico.
O desafio era juntar as pontas de modo a obter como resultado uma trilha que não apenas ligasse o Parque de cabo a cabo, mas que, no processo, proporcionasse ao excursionista uma visão completa da fauna, flora, história e atrativos culturais e paisagísticos da nova unidade de conservação. O planejamento também tinha que levar em consideração a necessidade de estabelecer locais de pernoite ao longo da jornada. O mais importante, entretanto, era dar ao caminhante a noção do todo, transformando os “Amigos de Silvermine”, “Defensores da Montanha da Mesa” e quetais em fervorosos partidários da nova entidade, o Parque Nacional da Península do Cabo.

O planejamento do traçado foi lento. Disputou tempo e recursos com batalhas mais prementes, como aquela travada nos tribunais contra alguns Municípios do entorno para a que a renda apurada nos portões de entrada do Parque deixassem de reverter para as administrações da Cidade do Cabo e cidades satélites e permanecesse nos cofres da unidade de conservação. Outras lutas do período incluíram uma pendenga para que a Marinha parasse de utilizar uma área de interesse do Parque como local de treinamento de tiro e uma disputa contra a autoridade de trânsito, demandando ao Parque o direito de cobrar pedágio em uma rodovia que rasga a área protegida.

O tempo passou. David Daitz foi substituído. Em 2004, houve um rebatizado. Desde então o PARNA passou a ser conhecido como Montanha da Mesa. Pouco a pouco as vitórias foram se acumulando e o novo Parque se consolidando. Em seu primeiro modelo, aprovado durante a gestão de Howard Langley, a trilha projetada aproveitaria somente caminhos já existentes e utilizaria pensões e hotéis dos bairros vizinhos como locais de pernoite. Quase foi implementada assim.

O substituto de Langley e terceiro diretor da UC, Brett Myrdall, um antigo coronel da ala militar do Congresso Nacional Africano, aperfeiçoou a idéia. Aproveitou uma das pernas da Trilha Circular da antiga Reserva do Cabo da Boa Esperança como o dia inicial da trilha. Com isso ganhou pronto o primeiro abrigo, um galpão construído durante a Segunda Guerra Mundial para o pernoite dos soldados encarregados de operar o radar que existia para monitorar aquela que, até hoje, é uma das rotas marítimas mais importantes do mundo.

Para os outros pernoites Brett conseguiu doações. Contratou arquitetos paisagistas e os erigiu em áreas previamente degradadas. O resultado saiu melhor que a encomenda. Não conheço abrigos tão bonitos ou tão confortáveis no Brasil ou algures. Na trilha propriamente dita, as intervenções de drenagem e desobstrução foram intensificadas com a utilização de grupos oriundos de frentes de trabalho, pagas por um fundo do Governo sul-africano para o combate ao desemprego. Brett também capitaneou um processo de africanização do nome da trilha que rebatizou com o nome nativo de Hoerkwaggo, cuja tradução é “montanhas no mar”.

Logo após, em meados de 2010, conseguir desapropriar de uma vinícola um estreito corredor que deu ao Parque (e à trilha) continuidade territorial, Brett resolveu que era hora de inaugurar a trilha. Sinalização era desnessária pois a ideia era que o caminho fosse feito com a companhia obrigatória de um guia. Só faltava o último dos sete abrigos, em Red Hill, próximo a antigas instalações da Armada (justamente as que davam suporte ao campo de tiro).

Não sucedeu assim. Antes do fim daquele ano Brett foi exonerado. Em seu lugar entrou Paddy Gordon. A concepção geral da trilha mudou. O abrigo de Red Hill deixou de ser uma prioridade, mas há alternativa possível nos hotéis e pensões no bairro histórico de Simonstown. A obrigatoriedade do Guia caiu. Com isso, dentro dos próximos meses a trilha será toda sinalizada, permitindo ao excursionista caminhar desacompanhado.

Não é necessário esperar. Com auxílio de um bom mapa (e eles não faltam na África do Sul) já é possível percorrer hoje toda a Horikwaggo. Foi o que a Expedição Terra Limpa/((o))eco fez no começo de 2011.
Chegamos ao abrigo de Cape Point no fim da tarde de uma sexta feira ensolarada. Deixamos ali nossas bagagens e nos apressamos a percorrer os dois quilômetros que nos separavam do Cabo da Boa Esperança. A caminhada, a passos rápidos, já nos deu a noção do que nos esperava nos próximos sete dias. O Oceano Atlântico a oeste e o Índico a leste ficando vermelhos com o sol poente, as montanhas intermináveis nos chamando: “vem, vem, vem..”, as praias de areia muito fina convidando ao banho, a fauna de antílopes e avestruzes pastando tranquilos enquanto posavam para nossa contemplação estupefata...
No Cabo propriamente dito ficamos impressionados com a infraestrutura de restaurantes e a com a qualidade do manejo. As passarelas de madeira ligando os dois quilômetros que separam o farol do Cabo da Boa Esperança, o acesso para cadeirantes e o processo de retirada do esgoto e dos dejetos humanos da parte alta do Parque, utilizando um bondinho, foram as coisas que mais chamaram atenção. Depois disso, nos marcou uma placa em forma de seta apontando para o Rio de Janeiro. Pensei na minha amada Floresta da Tijuca apartada dali por 6.055 quilômetros. Me deu até uma ponta de tristeza. Realmente é muito grande a distância que nos separa do Parque Nacional da Montanha da Mesa....
Na próxima coluna começamos a caminhar.












*Contribuíram Sandra e Ivan Amaral


Leia também
1a parte - De Cabo a Cabo em uma semana

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