The Dawn of the Motor Age in the American City
Peter D. Norton
Massachussetts Institute of Technology

Esse livro é chato, mas fundamental. Talvez o mais importante dos indicados até agora aqui na biblioteca do Outras Vias para quem tem interesse em aprender e entender como se dá a formatação de cidades voltadas para automóveis, e não pessoas. É chato por ser um livro acadêmico, repleto de referências teóricas detalhadas, notas de rodapé e, até agora, versão só disponível em um inglês cheio de termos técnicos e expressões específicas. Mas é fundamental por ser estudo aprofundado que mistura teoria com pesquisa empírica. Propondo-se a dissecar a "tecnologia da rua", este pesquisador mergulhou em jornais e documentos principalmente das décadas de 1910, 1920 e 1930 para detalhar como o discurso sobre a ocupação do espaço público foi se alterando gradualmente no último século nos Estados Unidos. Trata-se de um panorama geral que ajuda a entender a transição da época em que os motoristas eram considerados responsáveis por todo atropelamento e em que era impensável pensar em culpar uma criança (ou seus pais) por ser morta ao brincar ou atravessar distraída uma rua, ao momento em que se tornou aceitável limitar a presença de pedestres em faixas específicas. Peter D. Norton vai fundo, apresenta personagens, discursos e campanhas publicitárias, reproduzindo cartazes da época, trechos de artigos de jornal e de cartas de leitores indignados.

O livro tem paixão, mas Norton não cai na tentação de se limitar a uma visão maniqueísta, que coloca como malvado quem tem carro e bonzinho quem não tem. Ele vai além e apresenta rico material para reflexão sobre conceitos como "segurança no trânsito", "educação de pedestres" e "liberdade de ir e vir". Elencando fatos, dados e ideias, ele demonstra, por exemplo, como, se apoiando em conceitos como respeito absoluto pelas liberdades individuais, bastante fortes nos Estados Unidos, os rodoviaristas literalmente atropelaram os argumentos das empresas de transporte coletivo em favor de sistemas de deslocamento de massa, ainda que pesquisas e análises científicas indicassem que estes fossem mais eficientes e beneficiassem mais gente. Deixa claro como se deu a ridicularização dos pedestres que resistiam em aceitar as nascentes limitações na ocupação da rua, cuja prioridade passou a ser do automóvel. Campanhadas coroadas com o termo jaywalker (ou algo como "o caipira que não sabe atravessar as ruas") serviram para disciplinar o trânsito abrindo espaço para o aumento da velocidade dos carros, e conseguiram mudar a maneira como as ruas foram entendidas e organizadas por séculos.

Norton detalha como as montadoras de automóveis, os nascentes clubes de motoristas e as concessionárias se apropriaram de alguns destes conceitos e distorceram outros para obter mudanças fundamentais para o avanço da sociedade motorizada. O livro ajuda a entender como foi erguido um dos pilares da economia e do sistema de poder dos Estados Unidos, com detalhes inclusive sobre as articulações políticas em plano federal. Trata-se de rica fonte de informações para quem tem interesse em pensar o trânsito e se aprofundar não só sobre como se deu a mudança nas cidades americanas, mas também sobre como estes discursos e conceitos são apropriados e utilziados ainda nas metrópoles brasileiras hoje. É material de base para entender o passado, conseguir contextualizar o presente e propor mudanças futuras. 

O livro, só disponível em inglês por enquanto, pode ser comprado diretamente na página da editora ou importado pela Amazon.com. É possível folhear alguns trechos na Amazon ou no Google Books.


"The automotive city arose in part from an attack on the old customs of street use and an effort to let individual liberty and free markets rule there too. From Americans ideals of political and economic freedom, motordom fashioned the rhetorical lever it needed. In these terms, motorists, though a minority, had rights that protected their choice of mode from intrusive restrictions. Their driving also constituted a demand for street space, which, like other demands in a free market, was not a matter for expert scrutiny. The struggle was difficult and sometimes fierce. In motordom´s way were street railways, city people afraid for the safety of their children in the streets, and most of the stablished traffic enginnering principles of the 1920s. Motordom, however, had effective rethorical weapons, growing national organization, a favorable political climate, substantial wealth, and the sympathy of a growing minority of city motorists. By 1930, with these assets, motordom had redefined the city street. In the new model, some users of once unquestioned legitimacy (notably pedestrians) were restricted. Traffic engineers no longer burdened motorists with the responsibility for congestion; their coal now was to ease the flow of motor vehicles, either by restricting other users or by rebuilding city thoroughfares for cars. New urban roads were treated as consumer commodities bough and paid for by their users and to be supplied as demanded. On this basis, over the following four decades, the city was transformed to accommodate automobilies."

"A cidade para automóveis surgiu em parte a partir de um ataque aos antigos hábitos do uso das ruas e de um esforço para permitir que a liberdade individual e os livres mercados ordenassem sua ocupação também. De ideias americanos de liberdade política e econômica, o rodoviarismo obteve a alavanca que precisava. Nestes termos, motoristas, apesar de em minoria, conseguiram garantir direitos que protegiam sua escolha de deslocamento de restrições intrusivas. O dirigir também constituiu uma demanda por espaço na rua, o que, como outras demandas no livre mercado, não deveria ser uma questão para o escrutínio de especialistas. A luta foi difícil e às vezes feroz. No caminho do rodoviarismo havia os trens urbanos, pessoas apreensivas com a segurança de suas crianças nas ruas, e a maioria dos princípios de engenharia de trânsito estabelecidos em 1920. O rodoviarismo, no entanto, tinha armas retóricas, crescente organização nacional, um clima político favorável, riqueza substancial, e a simpatia de uma crescente minoria de motoristas urbanos. Em 1930, com estes ativos, o rodoviarismo tinha redefinido a rua na cidade. Neste novo modelo, alguns usuários que antes tinham legitimidade inquestionável (notadamente pedestres) foram restringidos. Engenheiros de tráfico não mais responsabilizavam os motoristas pelos congestionamentos; seu foco passou a ser como melhorar o fluxo de veículos motorizados, fosse restringindo outros usuários, fosse reconstruindo as vias para os carros. Novas avenidas nas cidades foram tratadas como bens para consumidores construídas e pagas por seus usuários e que deveriam ser fornecidas conforme a demanda. Nestas bases, durante as quatro décadas seguintes, a cidade foi transformada para acomodar automóveis".


(original e tradução livre do texto da página 17 do livro; a foto é reprodução de uma das ilustrações que indicam como era a ocupação das ruas antes da década de 1920 nos Estados Unidos)
Systematically & mercilessly realigning the world of cycling
Eben Weiss
Chronicle Books

Com tom sarcástico, piadas rápidas e afiadas, Eben Weiss, o Bike Snob faz um retrato divertido do mundo das bicicletas, disparando entusiasmo e críticas ácidas recheadas de humor para todos os lados. O livro está disponível somente em inglês e nem sempre é fácil acompanhar as considerações irônicas com gírias e referências bastante específicas, incluindo a cenários de Nova Iorque, cidade onde começou a escrever
o blog que o deixou conhecido (entre ciclistas pelo menos). Mas a maneira solta, casual e informal com que o autor escreve prende. É livro para ler do início ao fim de uma vez só, varando madrugada ou deixando o ponto do ônibus passar. Snob descreve tipos de ciclistas, dá dicas de segurança (misturando informações sérias e realmente úteis com brincadeiras como "não tranque sua bicicleta em esculturas de gelo, em ladrões ou em coisas com o formato da letra C"), ensina a "pedalar sem ser morto", fala de etiqueta ("não chegue encostando na bicicleta alheia"), e tira sarro até de si mesmo. Destaque para as cutucadas em que pedala bicicletas fixas - que vão desde o tamanho reduzido do guidão, que ele jocosamente compara a cachorros-quentes, até a ausência de freios.

O livro pode ser comprado nos Estados Unidos diretamente na página da editora ou importado pela Amazon.com.

"A bicycle is a Truly Great Invention because it is part of the entire range of human existence, from frivolity to necessity. A bicycle, if understood correctly and used to its full potential, is actually a key to a completely different, and in many ways more rewarding, way of life. Sure, there are limits to the ways in which you can use a bicycle, but those limits are surprisingly few. A bicycle can give you the feeling of freedom and speed you get from riding a motorcycle, the sense of well-being and peace you get from meditating, the health benefits you get from an afternoon in the gym, the sense of self-expression you get from learning to play guitar, and the feeling of victory you get from completing a marathon. It´s an invention that was in many ways ahead of its time, and whose time has finally come".

"A bicicleta é uma Verdadeira Grande Invenção porque é parte de todo o alcance da existência humana, da frivolidade à necessidade. Uma bicicleta, se compreendida corretamente e usada sem seu potencial pleno, é na verdade a chave para uma forma completamente diferente e muitas vezes mais recompensadora, de viver a vida. Claro, há limites para as maneiras as quais você pode utilizar uma bicicleta, mas esses limites são surpreendentemente poucos. Uma bicicleta pode dar lhe o sentimento de liberdade e velocidade que você consegue pilotando uma motocicleta, o senso de bem-estar e paz que você consegue meditando, os benefícios de saúde que você consegue de uma tarde malhando, a capacidade de expressão própria que você consegue de aprender a tocar uma guitarra, e a sensação de vitória de completar uma maratona. É uma invenção que esteve de diversas formas a frente do seu tempo, e que agora seu tempo finalmente veio" (tradução livre).

(página 11 do livro - a introdução completa com este trecho pode ser lida em inglês aqui)
O planejamento urbano e a crise nas cidades
Raimundo C. Caruso (organização)
FiscalTech

O livro pode ser encomendado no
site das Livrarias Curitiba

Organizado pela FiscalTech, empresa privada de Curitiba, o livro “O automóvel” foi inicialmente pensado como uma homenagem póstuma a Roberto Varella, fundador do grupo. Depois, percebendo a oportunidade de abrir espaço para o debate de ideias sobre mobilidade urbana, seus familiares alteraram o projeto e o trataram como um compilado de artigos de especialistas das mais diversas áreas sobre o caos no trânsito do país, focado principalmente no automóvel. Como conjunto a obra tem aspectos interessante, apesar de reunir também artigos com teorias ultrapassadas e projetos totalmente fora da realidade.

Ao mesmo tempo em que apresenta uma oportuna análise da carnificina nas estradas brasileiras por parte do inspetor da Polícia Rodoviária Federal Alexandre Castilho, por exemplo, o organizador abre espaço para o Aerotrem, um estranho projeto que propõe a construção de elevados para o transporte coletivo de massa. E abre espaço para defesas atrasadas do rodoviarismo e teses à Prestes Maia de que crescimento econômico envolve ampliar avenidas e harmonizar o transporte coletivo e o individual (e não priorizar o investimento em transporte público de massa no lugar do espaço para os carros – e não em elevados que causam fraturas urbanas). A leitura pode ajudar a entender as ideias que ajudaram na construção do mito de Curitiba como cidade modelo em mobilidade urbana. Nesse sentido, serve como oposição ao livro “Curitiba e o mito da cidade modelo”, do Dennison de Oliveira, disponível nesta mesma lista aí embaixo. E viva a pluralidade!

“Analisemos, por exemplo, a situação do BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China. Pois bem, a China, grande potência, crescimento explosivo, mas com ferrovias cortando o país inteiro. Além disso, há uma numerosa navegação costeira e fluvial, com hidrovias escoando as safras. Logo, não para comparar a China com o Brasil. Já, a Índia, ferrovias e pobreza, e sem tantos centros consumidores de excelência. Tem uma agricultura de subsistência, certo desapego material e não é obcecada pelo consumo, como acontece no Brasil. Finalmente a Rússia, que investe em ferrovias há cem anos, tem distâncias tão grandes e maiores que as do Brasil, e assim o transporte rodoviário é quase impraticável. Para encerrar, vemos o Brasil, também um continente, porém cortado de rodovias e sem alternativa de transporte que por estradas. E o que é que encontramos no nosso País? Encontramos a ameaçadora promiscuidade do transporte de soja, de petróleo e gasolina, dos eletrodoméstricos, dos veículos novos, dos carros populares circulando na mão de gente que nunca dirigiu na estrada e que agora está descobrindo o turismo interno, de custos baixos”.

Trecho da entrevista do autor com Alexandre Castilho, página 30 do livro.
Como inserir a bicicleta na política de mobilidade urbana
Renato Boareto (organização)
Instituto de Energia e Meio Ambiente

Organizado pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente, o livro “A bicicleta e as cidades” é uma compilação de orientações e conceitos adequados para a inserção deste tipo de modal em planejamentos urbanos. O livro reúne exemplos de diferentes projetos cicloviários no Brasil e no mundo, lista vantagens que vão de ganhos com saúde pública coletiva à justiça social, e destaca que a preocupação com a construção de cidades mais humanas é uma tendência diretamente relacionada ao aumento da consciência social e ambiental.

Trata-se de uma edição bilíngue inclui um documentário em DVD, um vídeo disponível no youtube. O livro pode ser baixado aqui (PDF) ou encomendado no Instituto de Energia e Meio Ambiente pelo e-mail energiaeambiente@energiaeambiente.org.br. Dá para ver a cara da versão impressa aqui.

“Pouco a pouco, diversas cidades ao redor do mundo vêm reconquistando seus espaços públicos com a implantação de melhores calçadas e ciclovias e reduzindo as áreas ocupadas por estacionamentos, a fim de que estes voltem a ser habitáveis ou possam acolher atividades públicas. Além disso, os veículos motorizados vêm sendo substituídos por meios de transporte de maior capacidade e mais econômicos como o metrô, trens, VLTs (Veículos Leves sobre Trilhos), ônibus coletivos e bicicletas. Nos locais onde têm sido implementados esses projetos, observa-se que as pessoas tendem a responder positivamente e até com entusiasmo à oportunidade de caminhar, andar de bicicleta e participar da vida pública no espaço coletivo. Grandes cidades, com realidades as mais distintas, vêm pondo em prática melhorias para a circulação de pedestres e ciclistas. Um dos objetivos primordiais do planejamento urbano, e mais especificamente do planejamento de transportes, deve ser a busca pela qualidade de vida nas cidades, para que os habitantes realmente vivam os espaços urbanos, e não apenas passem por eles”.

Trecho do livro, página 16.
Antonio Skármeta
Record

Publicado na década de 1980 primeiramente com o título da edição original em espanhol “Ardente Paciência”, este livro ganhou destaque ao servir de base para o filme italiano “Il Postino”, (em português, também traduzido para “O Carteiro e o Poeta”). Trata-se da história de um carteiro que entrega cartas de bicicleta em Isla Negra, refúgio no litoral do poeta chileno Pablo Neruda. Na tela, diálogos do livro são reproduzidos com fidelidade e ganham vida na voz do genial Massimo Troisi. Este ator napolitano, considerado um dos mais promissores do país, morreu pouco após as viagens. A diferença principal entre o livro e o filme é o contexto. No texto que serviu de base para o roteiro, Neruda vive no Chile, com toda efervescência política que marcou o país na década de 1970, incluindo o golpe militar. No filme, a história é adaptada e o poeta vive um exílio na Itália. Em ambas as obras, a bicicleta completa a poesia recorrente na qual o autor se apoia para construir uma história de amor.

O livro pode ser encomendado na editora, aqui.

“Eu queria mandar a você alguma coisa mais, fora as palavras. E assim me enfiei nesta gaiola que canta. Uma gaiola que é um passarinho. É um presente que faço. Mas também queria pedir uma coisa, Mario, que só você pode cumprir. Todos os meus outros amigos ou não saberiam o que fazer ou pensariam que sou um velho caduco e ridículo. Quero que você vá com este gravador passeando pela Ilha Negra e grave todos os sons e ruídos que vá encontrando. Preciso desesperadamente de algo, nem que seja o fantasma da minha casa. A minha saúde não anda nada bem. Sinto falta do mar. Sinto falta dos pássaros. Mande para mim os sons da minha casa. Entre no jardim e faça soar os sinos. Primeiro grave esse repicar suave dos sininhos pequenos quando o vento bate neles, e depois puxe o cordão do sino maior, cinco, seis vezes. Sinos, meus sinos! Não há nada que soe tão bem como a palavra sino se a penduramos num campanário junto ao mar. E depois vá até as pedras e grave a arrebentação das ondas. E se ouvir gaivotas, grave. E se ouvir o silêncio das estrelas siderais, grave. Paris é muito bonita, mas é uma roupa que fica muito grande para mim. Além do mais, aqui é inverno e o vento revolve a neve como um moinho a farinha. A neve sobe, sobe, trepa pela minha pele. Ela me faz um triste rei com sua túnica branca. Já está chegando à minha boca, já tapa meus lábios, já não me saem as palavras”.

Trecho do livro, página 83 e 84
Ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na Selva
Greg Grandin
Editora Rocco


O livro é uma grande reportagem sobre a tentativa de Henry Ford de construir uma cidade no meio da selva amazônica, nas margens do Rio Tapajós. Mais do que um retrato da mobilização gigantesca para criar uma vila industrial no meio da mata, o trabalho de Greg Grandin é um relatório detalhado das visões e sonhos do industrial que influenciou todo modo de produção do último século. Ford aparece como um personagem complexo, com preconceitos, vícios e virtudes. O empreendimento é detalhado desde o começo, incluindo informações sobre maracutaias para  a aquisição das terras, os erros de planejamento e um recorte histórico sobre a região e a população ribeirinha.

Disponível para venda aqui, resenha do The Guardian (em inglês) aqui, e página do autor aqui. Leia um trecho:

“Mas também havia no Tapajós aldeias de indígenas famintos e desesperadamente pobres que mal haviam conseguido sobreviver ao auge da borracha. Se a Fordlândia poderia ou não conseguir uma parcela importante de mão de obra dessas comunidades, é discutível, uma vez que uma combinação de racismo e ignorância impedia qualquer tentativa. Em certa ocasião, um recrutador indicou que havia um grupo de “dois mil índios morrendo de fome” assentados recentemente pelo governo às margens do Xingu, um rio mais ou menos paralelo ao Tapajós a leste, e que eles provavelmente gostariam de trabalhar na Fordlândia, onde teriam “habitação de graça, assistência médica gratuita, hospital, água potável, escolas de graça e um trabalho estável para homens estáveis”. Contudo, antes que um agente pudesse ser enviado ao Xingu, Edmar Jovita, brasileiro educado em Oxford que trabalhava para a empresa, mas na ocasião estava viajando, enviou um telegrama recomendando para a plantação que “não tivesse nenhuma relação com esses índios, pois eles não estão domesticados”.

Trecho do livro, página 165
De Havana a Santiago de Cuba
João Pavese
Editora Terceiro Nome


Em uma linguagem direta e viceral, o fotógrafo João Pavese narra uma viagem de bicicleta atravessando Cuba. Defende que pedalar é a melhor maneira de conhecer de verdade um país; é possível percorrer distâncias mais longas do que a pé sem perder contato com o entorno. O autor-narrador fuma charutos, fala da bunda das mulheres, sofre de amor, se apaixona, vive, envolvendo o leitor. É livro para agarrar e soltar só depois da última página.

Dá para comprar aqui. Sente o tom da narrativa:

"O ônibus passava agora por ruas tortuosas, sobrados, pequenas praças, muita gente nas calçadas aproveitando o frescor da tempestade que acara de passar. Belo final da tarde. Mas à medida que o ônibus avançava, bem devagar pra não pegar criança com bola, notei um certo mal-estar no olhar daqueles moradores. Olhar de espanto dos mais velhos – tragadas tensas no charuto -; curiosidade dos mais jovens. De cara comecei a tirar conclusões: aquela nave encerada e o ar-condicionado com um bando de turistas por detrás de janelas fumê agrediam muito a simplicidade da situação. Os cubanos e seus carros velhos, casas com reboco aparente, anos na improvisação total, e o nosso ônibus lá, incólume, como se não fizesse parte da mesma paisagem. E não fazia. Aquilo não me agradava. Um deslocamento de realidade muito grande. Nós, os turistas, no simba-safári vendo como pobre se vira achando que somos a solução: trazemos dólares, e dólares garantem a vida daquela gente."

Trecho do livro, página 32
Dennison de Oliveira
Editora UFPR


O livro é de 2000, então está bastante desatualizado, mas serve como referência importante sobre a história da urbanização de Curitiba. Ajuda a pensar em como a imagem fácil de cidade modelo é limitada e a entender a influência de diferentes grupos privados na formatação do espaço público. É leitura acadêmica, repleta de referências e detalhes da política local, e até, por isso, um pouco chata. Absolutamente necessária, porém, especialmente para quem estuda urbanismo e busca referências e modelos.

Dá para comprar o livro clicando aqui. Leia abaixo relato sobre quando Jaime Lerner resolveu colocar em operação o novo sistema de ônibus de Curitiba:

"Quando o projeto finalmente ficou pronto, logo se tornou óbvio que profundas mudanças deveriam ser feitas tanto na forma como o poder público gerenciava o transporte coletivo quanto na maneira como os empresários o exploravam. Conseqüentemente, não foram poucos nem pequenos os atritos entre as partes.

Para começar, o conceito de uma linha de ônibus ininterrupta que corresse ao longo de todo o eixo-estrutural norte-sul era inaceitável para os empresários. É que ele violava o conceito de área seletiva, atravessando áreas que eram exploradas por empresários diferentes. Ocorre que a divisão dessas áreas, feita vinte anos antes, foi realizada de forma mais ou menos arbitrária: tratava-se de uma série de raios que partiam todos do centro da cidade que, correndo mais ou menos ao longo das ruas disponíveis, dividia a cidade de forma semelhante a um gráfico de pizza. Ora, esse conceito fazia sentido naquela época, quando se tratava da municipalidade garantir a todas as empresas um pedaço do centro e um pedaço da periferia. Mas era de todo inadequado para um sistema de transporte que se dispunha a integrar os pontos extremos da cidade."


Trecho do livro, páginas 139 e 140
David Byrne
Editora Manole, selo Amarilys

O músico David Byrne, do Talking Heads, reuniu anotações pessoais de viagens que fez em turnês com a banda em um livro sobre cidades, urbanismo e cicloativismo. De um jeito fácil e direto, ele divide reflexões e impressões sobre os lugares por onde passou, incluindo Berlim, Istambul, Buenos Aires, Manila, Sydney, Londres, São Francisco e Nova York. A edição brasileira conta com prefácio do Tom Zé.





"O que existe em certas cidades e lugares que incentiva atitudes específicas? Sou eu que estou imaginando que isso existe? Até onde a infraestrutura das cidades molda as vidas, o trabalho e as emoções de seus habitantes? Muito significativamente, eu imagino. Toda essa conversa sobre ciclovias, prédios feios e densidade populacional não envolve apenas essas coisas, trata-se também do tipo de gente em que essas coisas nos transformam. Eu não acho que seja imaginação minha que as pessoas que se mudam de qualquer lugar para Los Angeles inevitavelmente perdem as características do ambiente de onde vieram e acabam criando trabalhos tipo-LA e sendo pessoas tipo-LA. As atitudes criativas, sociais  e cívicas dependem do ambiente de onde vivemos? Sim, eu acredito nisso."

Trecho do livro, páginas 271 e 272
 
Leia também:
Byrne vai de bike
Crime, segregação e cidadania em São Paulo
Editora Edusp

O livro apresenta reflexões e dados sobre a segregação espacial em curso em São Paulo e retrata o processo de desuminação da cidade. A autora,  a antropologa Teresa Pires do Rio Caldeira, relaciona medo e desrespeito a direitos básicos da população com alterações físicas na cidade. A convivência nas ruas é suprimida por avenidas que conectam enclaves fortificados e o espaço público acaba fragmentado. Aponta, apoiada em uma pesquisa consistente e um texto bem construído, como a cidadania é atropelada no processo e a fragilidade de um ordenamento urbano assim estabelecido.

Dá para folhear o livro aqui, comprá-lo direto na editora aqui, ou ler aqui o artigo que a professora de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, Maria Helena Oliva Augusto, escreveu a respeito.

"Na São Paulo contemporânea, o espaço público é o mais vazio e o uso das ruas, calçadas e praças é mais raro exatamente onde há mais enclaves fortificados, especialmente os residenciais. Em bairros como o Morumbi, as ruas são espaços vazios e a qualidade material dos espaços públicos é simplesmente ruim. Devido à orientação interna dos enclaves fortificados, muitas ruas têm calçadas não-pavimentadas ou mesmo não as têm, e várias ruas atrás dos condomínios não são asfaltadas. As distâncias entre os prédios são grandes. Os muros são muito altos, sem proporção com o corpo humano, e grande parte deles ainda têm arames eletrificados. As ruas são para os automóveis e a circulação de pedestres torna-se uma experiência desagradável. Na verdade, os espaços psão construídos intencionalmente para produzir esse efeito. Andar no Morumbi é um estigma – o pedestre é pobre e suspeito."

Trecho do livro, página 314

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