Economista, montanhista e aluna de doutorado no Programa de Planejamento Energético da COPPE/ UFRJ.
Dia da notícia de que a Ndrangheta, braço calabrês do crime organizado, é acusada de tráfico de lixo radioativo da agência estatal de pesquisa energética italiana (Enea) para a Somália nos anos 80 e 90, e também de explosões de carregamentos de resíduos radioativos hospitalares, posteriormente despejando-os no mar. O jeito é deixar para depois a última coluna da série Joga no lixo. Porque o maior perigo da usina nuclear é mesmo, a meu ver, o tráfico de rejeitos altamente radioativos.

Embora já existam tecnologias para reciclar a maior parte desses resíduos, e haja até mesmo países dispostos a pagar pela aquisição desses materiais (como a França), não há garantia de que os rejeitos radioativos cheguem sãos e salvos aos depósitos de estocagem ou aos centros de reciclagem. Não só eles, como todo o material contaminado que é gerado ao longo de todo o processo produtivo do urânio enriquecido.

Apesar disso, as usinas nucleares apresentam vantagens significativas. Uma delas é a geração de grande quantidade de energia com pouco combustível. Apenas 10g de urânio liberam quase a mesma quantidade de energia que a queima de 700kg de óleo ou de 1.200kg de carvão. Além disso, a energia nuclear exige uma área relativamente pequena para a instalação da usina.

E mais: o Brasil ainda possui a 6ª maior reserva de minério de urânio do mundo, encontrado em rochas sedimentares. A maior reserva mundial está localizada na Austrália. No entanto, a maior parte do total está na Amazônia, onde a extração é difícil, exigindo elevados custos e energia para sua retirada.

Também pesa o fato da usina nuclear não emitir gases de efeito estufa (ao menos no processo de geração de energia elétrica, o que não quer dizer que não haja emissões ao longo de todo o processo produtivo do elemento combustível). Mas como funciona essa polêmica geração de energia?

A energia nuclear é a energia de ligação, que mantém os prótons e nêutrons juntos no núcleo de um átomo. Quando essa energia de ligação é rompida, através da fissão nuclear, é produzida energia térmica, que pode ser aproveitada para gerar energia elétrica.

Na fissão nuclear, um núcleo de urânio é bombardeado por um nêutron e se divide em duas partes mais ou menos iguais. Cada reação de fissão nuclear gera, além dos núcleos menores, dois a três nêutrons. Quando esses nêutrons atingem outros núcleos de urânio, sucessivamente, liberam muito calor, provocando uma reação em cadeia.

Apesar das centrais térmicas nucleares apresentarem grandes vantagens e as autoridades responsáveis brasileiras ainda obedecerem rigorosamente às normas internacionais, reforço a minha preocupação de onde mora o perigo: a garantia de segurança no transporte e armazenamento dos rejeitos e materiais radioativos permanecer longe de traficantes e mafiosos.

Em Angra, os rejeitos de baixa radioatividade (botas, macacões e roupas contaminadas) e média radioatividade (peças de metal do reator e resíduos químicos) são colocados em tambores que ficam armazenados em galpões de concreto construídos dentro de rochas, ao lado da usina, e que podem ser reutilizados. Já os rejeitos de alta radioatividade (elemento combustível já irradiado dentro do reator) são depositados submersos em piscinas, onde a água funciona como uma blindagem.

Para maior segurança na operação da usina, o vaso de pressão do reator deve ser feito de aço e instalado em um edifício de concreto armado coberto por um outro vaso com contenção de aço. A operação deve estar de acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Embora a extração do urânio utilizado pelas usinas brasileiras ocorra em território nacional, antes ele vai para o Canadá, onde é transformado em gás e, em seguida, para a Europa, onde é enriquecido. Reparem não só na emissão de gases proveniente do transporte e do consumo de energia, mas também na exposição dos materiais radioativos, ao realizarem viagens continentais.

Mas, infelizmente, o controle rigoroso na operação da usina ou em todo processo produtivo do elemento combustível não nos livra de outros tipos de risco como roubo de rejeitos, ataques terrorista, terremotos, falhas humanas e mecânicas. E as conseqüências de um acidente nuclear são desastrosas, podendo ocorrer por milhares de anos, afetando as presentes e futuras gerações.

Imaginem a notícia de que um país europeu comprou os elementos combustíveis (urânio enriquecido) já irradiados dentro do reator de Angra 2, contendo alta radioatividade, e que a transferência será feita em três meses. Do jeito que o mundo está, com a ilegalidade e subornos comendo soltos, seria um prato cheio para uma quadrilha internacional programar o roubo dessa carga, que viaja com destino marcado.

Outro ponto delicado é o chamado descomissionamento, que representa o custo de desmontagem definitiva e descontaminação das instalações das usinas nucleares após o encerramento das suas operações. É preciso que se tenham garantias absolutas de que esse trabalho será levado a cabo com seriedade, e que as instalações e resíduos das usinas não serão simplesmente abandonados contaminados após o seu fechamento. Não se pode correr o risco de uma “Ingá Mercantil” radioativa.

No próximo mês, retomaremos a última coluna da série Joga no lixo, abordando a questão do etanol e do biodiesel.
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