2010 - Ano da Biodiversidade
21 de Dezembro de 2010
Na semana passada aconteceu em São Paulo a segunda fase do Curso Biodiversidade, resultado de uma parceria entre o projeto Planeta Sustentável e a National Geographic Brasil, da Editora Abril, com patrocínio da Petrobras. O objetivo do encontro foi debater os resultados da COP10 - Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) das Nações Unidas que ocorreu há dois meses em Nagoya, no Japão, bem como as perspectivas daqui para frente já que, para surpresa de todos e, na medida do possível,
bons acordos foram firmados.
Os palestrantes foram Beatriz Carvalho, diretora executiva do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS); Liana John, jornalista ambiental e colunista do Planeta Sustentável e Bráulio Dias, secretário nacional de biodiversidade e florestas do Ministério do Meio Ambiente (MMA).
Beatriz citou algumas resoluções tomadas em Nagoya que, de certa forma, afetam o setor empresarial, caso da eliminação de subsídios potencialmente prejudiciais à biodiversidade, a criação e implementação de incentivos para conservação e o desenvolvimento de mecanismos inovadores de financiamento. “O setor deverá avaliar e monitorar os impactos dos negócios na biodiversidade e serviços ambientais, desenvolver e aplicar processos que reduzam estes impactos e participar de sistemas voluntários de certificação”, diz. Liana complementou as informações ao afirmar que a proteção da biodiversidade deve estar aliada à mudança nos padrões de consumo. "O engajamento de setores como agricultura, turismo, florestal, pesca e energia é fundamental para promover esta mudança".
Ela explica que durante o encontro em Nagoya cerca de 70 representantes de bancos, instituições de desenvolvimento e agências de cooperação divulgaram uma declaração na qual ressaltaram a importância da biodiversidade na produção de alimentos, purificação da água, fertilidade do solo, regulação do clima e, portanto, na luta contra a pobreza. Ou seja, a proteção da biodiversidade em todo o mundo vai muito além do que podemos imaginar. No entanto, Liana enfatiza que questões importantes ficaram de fora do debate na COP 10, caso da biodiversidade no Ártico e da poluição sonora e acidificação dos oceanos.
Outro ponto importante abordado pela jornalista foi em relação ao impacto das cidades sobre a biodiversidade, reconhecido por mais de 240 autoridades municipais que acordaram em ações e metas para a redução destes impactos. Liana citou, então, um exemplo de cidadania vindo do próprio Brasil e que merece ser seguido.
Um dia sua filha lhe mostrou um vídeo de uma festa que acontecia a céu aberto em Curitiba, no Paraná, na qual chama a atenção o fato de os participantes estarem “espremidos” em um espaço delimitado para não precisar pisar no jardim do local. O que isso significa? “Existe um certo pacto social naquela cidade, em que parques urbanos pertencem àquelas pessoas”. Ou seja, o sentimento de pertencimento ao local e o apoderamento de espaços públicos como “nossos” faz com que, naturalmente, zelemos por eles.
Responsabilidade do Brasil
Antes do curso começar Matthew Shirts, diretor de redação da National Geographic, contou um fato dos bastidores de Nagoya que clarificou de forma simples e direta a importância do país quando o assunto é proteção e conservação de recursos naturais. “Qualquer coletiva da ministra do meio ambiente Izabella Teixeira já era capaz de mobilizar todo o prédio. Lá fora, o Brasil está para a biodiversidade assim como a seleção brasileira está para o futebol”. “Cada vez mais a relação entre política interna e externa tende a ampliar. O Brasil é vitrine, há grandes expectativas de outros países sobre o uso de recursos, devemos zelar pela humanidade. Não adianta assumir metas internacionais e, externamente, adotar políticas contrárias. Somos questionados em relação às nossas atitudes”, complementa Bráulio Dias, do MMA.
Este questionamento inevitavelmente passa, por exemplo, por prováveis e desastrosas alterações no Código Florestal e construções de grandes e impactantes obras de infraestrutura. “O país está crescendo, assim como a população e os hábitos de consumo. Precisamos de energia, possuímos uma matriz energética mais limpa do que muitos países desenvolvidos. O que nos resta para a construção de hidrelétricas é a Amazônia, mas em quais condições e a que preço?”, questiona.
De acordo com o secretário, o Brasil ainda não tem definidas estratégias coordenadas de desenvolvimento sustentável. Ele mostrou o avanço do desmatamento em cada um dos biomas e alertou que os desafios para a conservação e proteção da biodiversidade serão ainda maiores nos próximos anos. “O país terá que discutir conflitos entre desenvolvimento e conservação e, ainda assim, garantir a proteção da biodiversidade com a produção de energia e de alimentos. Vamos ter que ser criativos” afirma, com notáveis doses de realismo.
E, sob esta mesma dose, finaliza sua apresentação dando a “chave” para a solução de muitos problemas considerados importantes para a sociedade. “Governo é movido à pressão, pois suas demandas são sempre altas e bem além de sua capacidade. A pressão da mídia e dos brasileiros é que determinarão as prioridades”.
(Karina Miotto)